quinta-feira, abril 25, 2013

É preciso devolver a voz ao Povo para que ele inaugure uma nova madrugada”

Catarina Martins diz que o 25 de Abril rompeu com o fardo cultural do país isolado e condenado ao empobrecimento, e criou o consenso em torno do Estado social. Ao pôr em causa este consenso, a direita fez do revanchismo social a sua imagem de marca e põe em causa a própria liberdade. “Mais do que nunca, é preciso devolver a voz ao Povo português para que ele seja senhor do seu destino e inaugure uma nova madrugada”, conclui a coordenadora do Bloco de Esquerda. Leia na íntegra a intervenção na sessão de comemoração do 25 de Abril.
"Nunca, como hoje, um governo fez do revanchismo social a sua imagem de marca."
Tenho a idade do 25 de abril. Comecei a dar os primeiros passos, literalmente, com aquele abril que nos fez esquecer esse longo mês de março. Em minha casa, como em quase todas, discutia-se política.
Foram tempos de aprendizagem. Muito, quase tudo, só me fui apercebendo mais tarde. Que foram os dias em que aprendemos a força de ter força, em ter orgulho no que é nosso e no que podemos construir como coletivo.Que um país pobre, e fechado sobre si próprio, pode quebrar o atavismo e encontrar-se no seu futuro.
Foi essa crença em Portugal e nos portugueses, a ideia que o destino do país não estava confinado à mediocridade pobre mas remediada, que nos trouxe essa clara madrugada. Dizia Salazar em 1962, resumindo quatro décadas de isolacionismo, que “um povo que tenha a coragem de ser pobre é um povo invencível”. Foi este o fardo cultural quebrado por Abril.
A revolução foi feita pela força de quem tem a certezaque o empobrecimento não é o nosso fado natural, a democracia cresceu na convicção que esse país fechado sobre si próprio “foi um sonho mau que já passou, foi um mau bocado que acabou”.
Os cravos vieram para rebentar com o provincianismo atávico. Devolver a esperança e renascer o orgulho. Substituir a ideologia da pobreza pela coragem de fazer melhor e a esperança de almejar mais além.
A modernidade política e cultural inauguradas com a revolução trouxeram-nos a ambição de ser europeus de pleno direito. A coragem de nos inspirarmos nos melhores exemplos e reclamá-los como nossos. A universalidade nos cuidados de saúde, a proteçãona velhice, a equidade de oportunidades do sistema educativo. Abril foi ser mais alto.
Foi assim que eu, que não vivi a revolução, sou filha dela. Eu, como tantas e tantos “filhos de abril”, estudei em escolas e universidades públicas, dei à luz em hospitais do serviço nacional de saúde e foi a segurança social que me permitiu ter licença de maternidade.
Não vivi a revolução, mas não seria a mesma sem a janela que ela nos abriu. Celebrar Abril é também lembrar o que ele foi para cada um de nós, no que nos transformou e no que nos abriu de possibilidades.
A democracia mobilizou um país. Uniu-o, nas suas diferenças, em torno de dois ou três consensos que perduraram quatro décadas. Portugal não pode viver isolado, e abrimo-nos ao mundo; Portugal não está condenado ao empobrecimento, e construímos um estado social. Temos orgulho nisso.  
O consenso em torno do estado social inscreve-se nas nossas vidas. Está no quotidiano de quantos crescem e cresceram na escola pública. Que tornou possível que tantas e tantas famílias portuguesas quebrassem o ciclo da pobreza e do analfabetismo e que hoje os pais sejam orgulhosos do tão mais que os seus filhos e filhas souberam estudar, puderam aprender.
O estado social está inscrito no SNS a quem nos entregamos nos momentos mais frágeis e mais difíceis. O SNS que nos trouxe para a modernidade de nascer em segurança, de transformar em doença ligeira o que era causa de morte.
Construímos as nossas vidas com base num contrato social que nos chama a participar sempre, para nos apoiar quando precisamos. O estado social que construímos lembra-nos o que somos: solidários. Orgulhosamente solidários.
O estado social tem o peso exato da nossa democracia. É imperfeito, como tudo na vida, e temos a ambição de que seja melhor e mais presente. Mas nunca passou pela cabeça de ninguém voltar atrás, desistir da dignidade, quebrar os consensos fundadores da democracia.
Até agora.
Nunca, como hoje, um governo fez do revanchismo social a sua imagem de marca. Na verdade, o país está hoje sob o efeito de um duplo resgate.
O resgate financeiro, claro. A chantagem da dívida é o argumento para a imposição da austeridade que mata a economia e o país. Quanto mais cortam, mais gente no desemprego, maior a recessão, mais dívida se acumula. Não é um acidente. Nem falta de jeito ou mera incompetência. É um plano deliberado para uma violenta transferência dos rendimentos do trabalho para o capital financeiro.
E o resgate da memória, efetuado por uma direita sedenta por reescrever a história.
A reconfiguração do Estado a um papel mínimo e a uma lógica assistencialista, é-nos apresentado como uma inevitabilidade insofismável. O preconceito ideológico de uma direita radical é travestido de ciência exata.
Mas esta ideologia radical, precisamente por representar uma ruptura com todos os consensos nascidos em abril e fomentados por quatro décadas de democracia, precisa dos seus mitos fundadores. 
Daí o embuste permanentemente encenado por um primeiro-ministro que nos diz que o Estado é gordo, pesado e ineficiente. Que foi o seu peso que nos trouxe a crise.
Vivemos todos acima das nossas possibilidades, dizem-nos, ou como os estereótipos chauvinistas contra o sul podem ser assimilados e reciclados por um Governo da periferia da Europa.
Nesta cruzada contra tudo o que é público, pouco importa a Passos Coelho e Paulo Portas que todos os números desmintam o seu discurso.
Pouco lhes importa que Portugal seja um dos países da Europa aonde se trabalha mais horas por ano.
Que o orçamento da Educação e Saúde, ou mesmo o peso dos salários da função pública, fiquem abaixo da média europeia.
Que Portugal seja um dos países aonde as transferências sociais mais reduzem o risco de pobreza.
Não, não foram os serviços públicos e as prestações sociais que nos conduziram a esta crise, mas isso nada interessa a quem apenas quer saber da legitimação de um programa que sabe avassalador.
A direita no poder em Portugal rasga o contrato social de abril para tentar reconfigurar as maiorias sociais e abrir caminho à transformação do estado social em estado assistencial.
É o sonho da direita: responder às obrigações do povo, não com os direitos e a dignidade próprias da cidadania, mas com a prepotência de dar como esmola o que é devido por direito.
Não nos enganemos. Esta é uma escalada sem fim. Aceitar que a cantina social substitua o subsídio de desemprego está a escassos degraus de aceitar o fim da democracia.
O estado social é o cimento da democracia, a coesão solidária que nos faz cidadãos. Porque a democracia não existe sem liberdade, e não há liberdade sem dignidade e sem igualdade, é a liberdade que esta direita coloca em causa.
É por isso mesmo que o governo se regozija com a redução da política à lenga-lenga da inevitabilidade, com o jugo do memorando da troika, a soberania limitada. É uma direita apostada nadegradação de todos os espaços da democracia;da concertação social ao Parlamento, da comunicação social ao seu próprio governo e até ao Presidente da República. Perguntamo-nos hoje: como pode um governo, que não respeita a constituição que o legitima, ser governo? Ou mesmo, onde estão agora os limites da austeridade?
Um povo condenado a ser pobre emerge novamente como discurso oficioso de quem governa o país. Mas aonde esta direita quer resgatar a memória colectiva de um povo, existirá sempre quem diga presente. Aqui estamos, para disputar a história.
Abril conquistou a liberdade e a democracia com luta, participação, mobilização. A mesma mobilização de que hoje precisamos para recuperar poder sobre as nossas vidas. Dizer não à troika, renegociar a dívida, respeitar todos os nossos compromissos, o primeiro dos quais é o contrato social, a dignidade.
A democracia não é uma lei da física, independente das nossas vontades. A democracia é o nosso exercício quotidiano dessa vontade. Porque, afinal, onde está a fonte do poder?
Sabemos a resposta: está no Povo. Mas a simplicidade desta resposta tem séculos de construção. A deslocação da fonte de poder da Nação para o Povo foi um longo caminho de lutas e conquistas, que conduziu ao traçado dos modernos regimes demoliberais no século XX.
A pergunta a que hoje respondemos é se queremos voltar para trás. Não queremos e não deixamos. Foi só há 39 anos que o nosso país passou a viver plenamente em democracia. E quando Zeca escreveu a Grândola escreveu também a história de um país: o povo é quem mais ordena.
Esse povo real, de gente que luta e trabalha, de gente que não desiste, esse povo que se reencontrou nas ruas e em todas as vezes que a Grândola teve voz. Quando o povo encheu a rua foi essa a reivindicação absoluta que deixou: que nos devolvam o que somos e o que queremos, porque o Povo é quem mais ordena.
E onde há desligamento entre o Povo e os governantes, a democracia congela e ressurgem todas as ameaças populistas: o discurso antipolíticos e antissistema, o desejo de soluções autoritárias milagrosas. Não deixaremos. Hoje, mais do que nunca, é preciso devolver a voz ao Povo português para que ele seja senhor do seu destino e inaugure uma nova madrugada.
Viva o 25 de Abril.
Esquerda.net

25 de Abril. Conheça as reacções ao discurso do Presidente da República

Por Jornal i
No dia em que se comemora o 25 de Abril, o Presidente da República, Cavaco Silva, considerou hoje indiscutível a existência de "uma fadiga de austeridade" entre os portugueses e avisou os responsáveis políticos que precisam de actuar num horizonte mais amplo do que os calendários eleitorais, insistindo na necessidade de consensos.
As reacções já se fazem sentir.
O líder parlamentar do PS acusou o Presidente da República de ter feito um discurso "claramente partidário", considerando que "apadrinhou" a política de austeridade do Governo e em nada contribuiu para o consenso nacional.
O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, considerou o discurso do Presidente da República, nas comemorações do 25 de Abril, na Assembleia da República, "identificado" com o Governo da maioria PSD/CDS-PP, assemelhando-se ao de um "primeiro-ministro adjunto".
O líder do Bloco de Esquerda João Semedo defendeu que o Presidente da República fez um "discurso de fação", em que reconheceu o "insucesso da política de austeridade e apelou a mais austeridade" e à "resignação".
O deputado do Partido Ecologista “Os Verdes" José Luís Ferreira comparou a intervenção do Presidente da República, nas comemorações do 25 de Abril, na Assembleia da República, à de "um membro do Governo" da maioria PSD/CDS-PP.
Também Arménio Carlos Arménio teve uma palavra a dizer. Na sua opinião, Cavaco “assumiu-se como chefe do governo”.
Já o novo líder da UGT, Carlos Silva,  disse que o discurso de Cavaco não tem “eco” junto dos que sofrem.
Entretanto, Seguro afirmou que analisará consequências políticas do discurso de Cavaco.
Também João Galamba se manifestou, dizendo que Cavaco “endoidou”. E Francisco Assis acusou-o Silva de se “colar” ao governo.
O capitão de Abril Vasco Lourenço disse que Presidente da República "desmascarou-se".
Por sua vez, a direita portuguesa tece os maiores elogios a Cavaco Silva: o PSD elogiou o discurso "corajoso" e "equilibrado" do Presidente da República. o CDS enaltece “elevado sentido de responsabilidade” de Cavaco.

Vasco Lourenço: 'Nunca ambicionei ser Presidente'
Foi várias vezes desafiado a candidatar-se à Presidência da República. Nas últimas eleições, poderia ter ocupado o lugar que veio a ser preenchido por Fernando Nobre. Vasco Lourenço confessa, no entanto, que não tem 'feitio' para a política, não gosta de 'engolir sapos' e preferiu permanecer apenas Capitão de Abril. O coronel do Exército diz-se desiludido com Seguro e considera 'perigoso' o rumo do Governo. Com Cavaco é duro e avisa que, 'se houvesse condições, já estaria a preparar' outro 25 de Abril
A ideia partiu de um antigo oficial da Marinha, ex-ajudante de campo de Costa Gomes, que pouco tempo depois do 25 de Abril foi viver para a Suécia. Por lá ficou, mas continuou sempre a acompanhar a política em Portugal. Há dias, escreveu uma carta ao coronel Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, a propor que este ano se cantasse a Grândola, Vila Morena na madrugada de 25 de Abril e no próprio dia. "Nós comprámos a ideia. É uma maneira de evocar o 25 de Abril de uma forma mais actuante", explica Vasco Lourenço, ao SOL.A música de Zeca Afonso, que foi uma das senhas da revolução, tem servido de forma de protesto contra o Governo de Passos Coelho. Persegue os vários ministros um pouco por todo o país. Agora, é como se voltasse às suas origens. Vai ser entoada às 00h20 do dia 25 frente à Rádio Renascença e às 18h frente ao Quartel do Carmo, assinalando, assim, as horas exactas a que passou na rádio (para confirmar o avanço dos militares) e a que foi preso Marcello Caetano, há precisamente 39 anos.
Para o presidente da Associação 25 de Abril, a canção foi "apropriada pelas novas gerações como um símbolo de resistência e de protesto e ainda bem". Na próxima quinta-feira, poderão juntar-se essas gerações diferentes. Além das ‘grândoladas’, vai haver um jantar no Regimento da Pontinha, posto de comando da revolução, e o tradicional desfile na Avenida da Liberdade.
Aos 70 anos, já avô, Vasco Lourenço não se considera uma "acomodado". Olha em volta e vê muitas razões para lutar. Este coronel de Infantaria, que integrou o Movimento dos Capitães de Abril e pertenceu ao Conselho de Revolução, considera que o Governo de Passos Coelho é "um bando de mentirosos" que "está vendido ao capital estrangeiro" e apostado em destruir o Estado social.
"Estamos a destruir o Estado social que foi o cimento que permitiu a maior paz social da Europa. Este é um problema não só de Portugal, mas da Europa. Os povos europeus, quando se revoltarem, espero que o façam contra as elites e não uns contra os outros. O inimigo está nos seus próprios países e não nos outros povos", explica, em conversa demorada com o SOL no segundo andar do edifício sede da associação, em plena Baixa lisboeta e muito perto do mítico Largo do Carmo. Com um sorriso, diz que começa a ficar preocupado porque nos últimos tempos dá por si a concordar muitas vezes com o social-democrata Pacheco Pereira.
Desiludido à esquerda
De gatilho rápido, quando se fala de política, Vasco Lourenço distribui críticas à esquerda e à direita. Sempre esteve ligado ao PS, embora nunca tenha querido ter cartão de militante.
"O espaço ideológico que é o meu está ocupado pelo PS, sim.Mas numa altura destas do campeonato não gostaria de dizer que simpatizo mais com o PS. Cada vez simpatizo menos com a prática do PS", explica o antigo capitão de Abril, que, há dois anos, gostou de ver AntónioJosé Seguro ganhar, contra Francisco Assis, as eleições internas para secretário-geral do PS.
Ao fim deste tempo, contudo, confessa que o consulado de Seguro "tem sido uma desilusão grande". "Não tem conseguido afirmar-se. O dramático é que a generalidade da população descrê nos partidos todos e não olha para o PS como alternativa. Esse é o grande drama em Portugal e o que nos leva a forçar que existam alternativas", insiste. Não acredita no aparecimento de um D. Sebastião.
Vasco Lourenço é um dos subscritores de uma petição – que foi entregue em Fevereiro no Parlamento – que pede mudanças profundas nos partidos, nomeadamente, eleições primárias para a escolha de candidatos a cargos políticos e a possibilidade de listas de cidadãos se candidatarem à Assembleia da República. "Provocou algumas reacções de urticária", conta, com um indisfarçado orgulho.
Ao olhar para o Presidente da República, não é menos duro: "Como eu costumo dizer, o outro que está em Belém já morreu, mas ainda não sabe porque ninguém o avisou". Quer com isto dizer que Cavaco Silva não tem, a seu ver, actuado para defender o povo pois o Governo que existe "já não tem legitimidade para continuar".
Com um estilo contundente e sem papas na língua, o capitão de Abril sabe que é apelidado de radical, mas não se importa. Também por isso diz que não aproveitou algumas oportunidades que teve na vida.
"Desde 1976 que em quase todas as eleições presidenciais fui instado para me candidatar a Presidente da República", conta. A última vez foi precisamente nas últimas eleições presidenciais de 2011 para ocupar o lugar que veio a ser preenchido pelo presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), Fernando Nobre, candidatura impulsionada por socialistas que não se reviam no candidato oficial do PS, Manuel Alegre.
Os convites para ser candidato a deputado ou a presidente de câmara também se foram repetindo ao longo dos anos. Lourenço disse sempre que não: "Nunca ambicionei isso. Nunca esteve nos meus horizontes".
"É complicado. Tenho um feitio e uma maneira de estar que dificilmente se enquadrariam num partido político", justifica, recordando que ao longo da vida viu "amigos engolir sapos" e outros, "que se habituaram a determinados cargos e regalias, a fazerem tudo para os manter".
Na Associação 25 de Abril, não recebe qualquer remuneração. Vive com o dinheiro da reforma de coronel – foi promovido de tenente-coronel a coronel, ao abrigo de uma lei aprovada pelo Governo socialista de António Guterres em 1999, que visava a reconstituição de carreiras dos militares que participaram no 25 de Abril e que, por isso, foram prejudicados mais tarde na sua carreira. Ao abrigo da mesma lei, foram promovidos pessoas como Otelo Saraiva de Carvalho, Dinis de Almeida, Vítor Alves, Mário Tomé ou Melo Antunes, a título póstumo. Jaime Neves foi promovido a general, depois disso, mas por indicação do Conselho de Chefes de Estado-Maior, o que provocou muita polémica.
Fazer outra revolução
Na rua, Vasco Lourenço é muitas vezes abordado por pessoas que lhe perguntam quando é que fará outra revolução face ao momento em que se vive com o Governo a obedecer às regras da troika. Costuma responder de duas maneiras. "Nós já fizemos a nossa revolução, já tivemos essa sorte de poder intervir na história de uma forma altamente positiva. Já estamos velhos para fazer outra", é uma resposta.
Mas a conversa entra facilmente no campo de uma nova luta armada. Nos últimos meses, tem sido agitada a ameaça de uma revolta dos militares – impulsionada também pelo ambiente de contestação por causa dos cortes orçamentais anunciados para o sector das Forças Armadas. O próprio Vasco Lourenço, em algumas entrevistas, deixou aberta a porta a que os militares digam ‘basta’. "Não digo que não é para levar a sério a ameaça".
Num momento de maior ponderação, o coronel do Exército faz questão de realçar as diferenças que existem hoje em relação ao país de 24 de Abril de 1974. E acrescenta outra resposta a quem o aborda na rua: "Se tivéssemos condições, já estaria a preparar outra revolução. E atenção que não estamos em ditadura! Estamos em democracia, embora formal. Quando falo em condições não é só condições materiais ou operacionais!".
Como militar, não esconde que partilha das preocupações dos seus camaradas. "Neste momento, já não temos Forças Armadas praticamente para fazer nada". Angustia-o o Governo querer transformar os militares numa espécie de funcionários públicos e acusa mesmo o ministro da Defesa de "má-fé" no modo como apresenta os cortes para o sector.
"Queremos ou não queremos ter Forças Armadas? Desde há muito tempo que o único instrumento que os governos portugueses têm para intervenção na política externa são as Forças Armadas! Não são os passeios do ministro dos Negócios Estrangeiros que nos trazem qualquer validade!", insiste.
Este é, na verdade, um terreno sensível para Vasco Lourenço. Acha que o Governo está a esticar a corda e que, se os militares se deixarem levar por situações de ruptura, será "perigoso".
"Costumava dizer a António Guterres, quando este era primeiro-ministro: ‘O seu Governo só reage a cortes de estrada?. E dizia aos militares: ‘Vocês são mal-tratados porque não cortam estrada’. Mas qualquer dia torna-se problemático. O militar tem a força e tem as armas. Tem um sentido de dever que evita que se deixe levar, mas os homens não são de ferro", lembra.
Em véspera de mais um aniversário do 25 de Abril, o sentimento de revolta continua actual. Tal como diz a convocatória das comemorações, é preciso «uma resposta popular» perante a perda de soberania e a troika. «Eu não desisto», promete Vasco Lourenço.
helena.pereira@sol.pt

sexta-feira, abril 19, 2013

João Semedo insta Passos Coelho: "Pare de tomar os portugueses por tolos"

O coordenador do Bloco de Esquerda instou o primeiro-ministro para que “deixe de responsabilizar o Tribunal Constitucional por todos os problemas que foram criados apenas e com a exclusiva responsabilidade do seu Governo". João Semedo questionou também quanto é o valor de corte que o Governo quer fazer no próximo orçamento retificativo, mas Passos Coelho não respondeu.
João Semedo disse a Passos Coelho: “deixe de responsabilizar o Tribunal Constitucional por todos os problemas que foram criados apenas e com a exclusiva responsabilidade do seu Governo"
"Pare de fazer de todos nós parvos, pare de tomar os portugueses por tolos, deixe de responsabilizar o Tribunal Constitucional (TC) por todos os problemas que foram criados apenas e com a exclusiva responsabilidade do seu Governo", instou João Semedo no início do debate com Passos Coelho.
O deputado do Bloco lembrou que Passos Coelho “anda a falar desde o verão de 2012 nos cortes estruturais de 4.000 milhões de euros”, que a sétima avaliação da troika “está por concluir há 55 dias”, que “entre o início dessa avaliação e o acórdão do Tribunal Constitucional passaram 40 dias”, questionando-o: “Quer que algum português possa acreditar que a situação se deve ao acórdão do Tribunal Constitucional?”
João Semedo questionou se o valor que o Governo decidiu cortar na despesa para o próximo Orçamento Retificativo é superior a 800 milhões de euros. O primeiro-ministro, como costuma acontecer, não respondeu.
O coordenador do Bloco questionou ainda Passos Coelho sobre os apelos ao consenso político. Semedo lembrou que na última conferência de imprensa do Governo, o novo ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional pediu 12 vezes consenso, frisou que “tanto apelo ao consenso tem água no bico” e perguntou a Passos Coelho se o "Consenso é imposto pela troika para um segundo resgate". O coordenador lembrou então que a dívida pública continua a subir imenso e está atualmente em 126% do PIB, quando a primeira previsão governamental tinha sido de que em 2013 a dívida seria de 114,9% do PIB, e considerou que a continuação da nefasta política do Governo vai tornar inevitável um segundo resgate.
Esquerda.net

“O dia em que nasc[eu] morra e pereça” Versão para impressão
thathcerlegacyA muito tardia morte da Margareth Taetcher, que os nossos plumitivos situacionistas adoram chamar "Dama de Ferro" enquanto se babam, veio dar relevo à necessidade de  «interpretação autêntica», ou seja sustentada na realidade material da história e não nas inspirações ideológicas que a moldaram, dos anos em que governou de mão dada com o seu verdadeiro par, no outro lado do Atlântico, Ronald Reagan. Tal tem sido feito com grande profusão de textos de inegável qualidade.
Artigo de Mário Tomé

... "Não o queira jamais o tempo dar;/Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,/Eclipse nesse passo o Sol padeça/"
A muito tardia morte da Margareth Taetcher, que os nossos plumitivos situacionistas adoram chamar "Dama de Ferro" enquanto se babam, veio dar relevo à necessidade de  «interpretação autêntica», ou seja sustentada na realidade material da história e não nas inspirações ideológicas que a moldaram, dos anos em que governou de mão dada com o seu verdadeiro par, no outro lado do Atlântico, Ronald Reagan. Tal tem sido feito com grande profusão de textos de inegável qualidade.
Ao mesmo tempo os argumentadores ideológicos do mundo que nasceu, cresceu, medrou e se estampa - com danos colaterais absolutamente imprevisíveis e catastróficos - sob a orientação do neoliberalismo taetcheriano inspirado nas doutrinas que criaram as tragédias chilena (em setembro de 1973) e argentina (1976), estrebucham no alto do poder que Deus lhes deu e a custo mantém, para conseguirem convencer-nos que a realidade é criada pela força do mercado financeiro e dos exércitos e polícias dos Estados conglomerados no  G-8 ,na Trilateral,no clube de Bildeberg ou preparados no grupo dos «Scull and Bones» de Harvard.
Como diria Taetcher, aquelas personalidades responsáveis não devem ceder ao ulular da populaça que nem sequer percebe que a liberdade política só tem garantia jurídica, de resto tem de conformar-se à realidade imposta pelo capital esteja na sua pujança ou no seu estertor. A luta de classes, segundo Taetcher e os seus ex-súbditos, é uma monstruosa  deformação inventada para separar violentamente aquilo que nasceu para estar unido, os povos de cada nação, e no concerto das nações.
O Estado de Direito é  um operador interessante e respeitável, mas deverá estar sempre pronto a ceder à "realidade material", ou seja ao poder de facto, das forças do mercado, afinal e ainda, apesar do desprestígio actual do neoliberalismo, a "garantia última da democracia" como preconizaram Hayek e Freadman e se congratularam os nossos fantoches de serviço desde os anos oitenta.
O capital financeiro, já há muito divorciado totalmente das razões económicas da gestão da produção e da distribuição nas sociedades compostas por pessoas, por cidadãos e cidadãs a quem é teoricamente reconhecida a soberania primordial e a capacidade de decisão sobre os detinos da sociedade, desistiu de alardear a sua independência relativamente aos Estados (uma falsidade já que contava com eles para assegurar as privatizações – já só falta privatizar o ar, aliás - e a repressão )  para os subjugar de forma directa através da dívida chamada soberana.  .
Como todos sabem essa dívida tem sido o meio usado para  dinamizar os negócios, o mercado e tem sido nomeadamente a base de criação de  dinheiro mesmo que cada vez mais virtual e sem correspondência na economia. Daí também as contradiçõs surgidas entre os sectores capitalistas virados para a produção e a dinâmica da finança.
A crise actual, para quem não percbe nada de economia como é o meu caso, decorre da supremacia total e sem travão da especulação financeira, a economia de casino, arrasando tudo e estiolando tudo à sua passagem.
A maioria dos produtores de teoria económica fazem-no sob orientação , aliciamento, e pagamento dos grandes bancos. Basta ver o "Inside Jobs".
O ataque ao Tribunal Constitucional insere-se pois na programação ideológica de que a Constituição, ou seja a garantia do respeito da democracia pelo Estado, não pode opor-se à realidade, ou seja às ordens da finança. A democracia só é boa  se  tiver em conta a "realidade". É comovedor o materialismo destes macacos.
A Taetcher até confessou a Pinochet que tinha que fazer o que ele fez mas de forma mais lenta e cuidadosa, dado que os ingleses estavam habituados à democracia e o nazismo ainda era uma lembrança dolorosa em Inglaterra e não se podia agir à bruta; ou seja arrasar o movimento sindical inglês e os serviços públicos sem meter nisso o exército, só com a bestialidade policial. O exército, esse, era para os domingos sangrentos na Irlanda do Norte, onde a democracia se adaptou à realidade para assassinar Boby Sands e alguns dos seus companheiros em greves de fome que mostraram a convicção e firmeza de Taetcher.
A resposta do Bloco à ofensiva do Governo e da Merkel tem sido boa e tem respondido no essencial às propostas e exigências do movimento social.
Mas penso que é chegado o momento de ir além do que o protesto, a indignação e a revolta explícita impõem.
É tempo de lembrar que os democratas do sistema só se importam com o sofrimento do povo como alegação eleitoral. Quanto pior melhor. E sempre fazem figura, desde a abstenção violenta à não contemplação com mais austeridade, basta a que temos para mostrar como somos veementes no protesto, pensam eles. Aliás sempre foi assim
É tempo martelar e argumentar sistematicamente que o Governo não é incompetente, mas que a sua política obedece ardentemente ao programa de desarticulação social e de transferência nunca vista dos rendimentos do trabalho para o capital financeiro e de criar condições de dumping social equivalentes às da China. Para já não falar da Alemanha que permite que os imigrantes da Roménia e Hungria e Bulgária sejam tratados como escravos ao ponto de empresas polacas transferirem secções inteiras para a Alemanha para beneficiarem das condições medievais de trabalho consentidas pela senhora Merkel.
É tempo de dizer que se a democracia foi violada por Cavaco e Soares quando se exigia o referendo ao Tratado de Maastricht e por Cavaco e Sócrates quando se exigia o referendo ao Tratado de Lisboa, as consequências dessa violação grosseira do direito do povo exigem, nas actuais condições respostas à altura.  E que valia mais ter pago a multa de 160 milhões de euros e não ter aceite "a regra de ouro" do pacto orçamental que limitou drasticamente a já pouca soberania do estado português na UE.
Ou seja é tempo de deixar claro que a exigência da renegociação da dívida legítima é a proposta mínima que, se não for aceite, obrigará o povo português a assumir directamente a sua soberania se o Estado continuar a alijar a sua responsabilidade constitucional. Na União Europeia a relação entre Estados, para resolver a crise, deverá ser substituída na relação entre os povos e os trabalhadores, que imponham as regras da democracia e da boa gestão dos recursos materiais e financeiros, recuperando a credibilidade e a legitimidade dos Estados alienadas pelos que os assaltaram através da fraude e da mentira.
A soberania é dos povos. A dos Estados é delegada.
O dinheiro que o Governo extorque a quem trabalha para obedecer às mafias financeiras e pagar  a dívida que a banca e a especulação "offshoriana" consentida provocaram e que, em última racio é sua, faz falta para o povo português preservar a sua dignidade e o seu futuro.
Não é o povo que está em dívida, são os que estão a exigir o seu pagamento que estão em dívida para o povo.
Se não se colocar a crise nestes termos, creio que pouco vamos adiantar.
E a luta, mesmo a muito veemente e entusiástica, "dissolve-se no ar" se for para encanar a perna à rã. E não há nada como os democratóides e as terceiras vias para conseguir isso. Há batalhões de lacaios a trabalhar na propaganda do status quo, da inevitabilidade da obediência e da honestidade imanente do Estado.
Só o rugido da rua, que mostre que já percebemos tudo e não há mais ilusões nem contemplações, lhes incutirá o medo com que tentam paralisar-nos.
A Comuna

Grécia: Grave deterioração da saúde pública provocada pela política de austeridade

Os cortes provocados pela política de austeridade imposta pela troika estão a levar a uma grave deterioração da saúde pública na Grécia, segundo um novo estudo publicado pelo American Journal of Public Health. Explosão de suicídios e homicídios, aumento do número de casos de doenças mentais, de abuso de droga e de doenças infecciosas, nomeadamente VIH/Sida, são alguns dados referidos pelo estudo.
Foi divulgado, nesta quinta-feira 18 de abril, um novo estudo no American Journal of Public Health sobre a situação da saúde pública na Grécia.
“Esperávamos que as medidas de austeridade tivessem efeitos negativos nos serviços de saúde e na saúde pública, mas o impacto foi muito mais grave do que pensávamos”, diz Elias Kondilis, investigador na Universidade Aristóteles e principal autor do estudo.
Segundo o documento, a taxa de mortalidade resultante de suicídios e de homicídios aumentou 22,7 por cento e 27,6 por cento, respetivamente, de 2007 a 2009, esse aumento verificou-se sobretudo entre os homens.
O relatório teve por base as estatísticas oficiais e salienta que houve um aumento significativo do número de casos de doença, coincidindo com um aumento do desemprego (que passou de 7,2% em 2008 para 22,6% no início de 2012). A política de austeridade imposta pela troika levou ainda ao corte drástico nos serviços de saúde pública, tendo o orçamento do Ministério da Saúde baixado 23,7 por cento de 2009 a 2011 e tem continuado a sofrer novos cortes, posteriormente.
Os autores do estudo sublinham que quando se corta nos programas de troca de seringas para os toxicodependentes e na distribuição de preservativos, o risco de contrair o vírus da SIDA aumenta. Os novos casos de infeção por VIH (vírus da imunodeficiência humana) aumentaram 57 por cento (de 607 para 954) de 2010 para 2011.
Os investigadores alertam para os efeitos nocivos sobre a saúde pública que a política de cortes nos serviços públicos poderá causar noutros países europeus e nos Estados Unidos.
“As preocupações vão muito para além da Grécia e este tipo de políticas, no nosso ponto de vista, são muito perigosas para a saúde pública”, declarou Howard Waitzkin, professor na Universidade do Novo México e coautor do estudo.
“A política dos cortes orçamentais propostos atualmente (…) terá os mesmos efeitos devastadores sobre os serviços de saúde e na saúde pública nos Estados Unidos”, frisou.
Esquerda.net

terça-feira, abril 16, 2013

Utentes da Via do Infante preparam buzinão contra portagens para pedir demissão do Governo

A Comissão de Utentes da Via do Infante (A22) anunciou hoje que vai pedir a demissão do Governo num buzinão de protesto contra as portagens agendada para 27 de abril, na Estrada Nacional 125 (EN125), entre Faro e Olhão.


LUIS FORRA/LUSA
LUIS FORRA/LUSA
O dirigente da Comissão de Utentes João Vasconcelos disse à agência Lusa que “urge mais que nunca” exigir a demissão do Governo, para que possa ser empossado outro executivo que “tenha coragem para acabar com as portagens”.
“Este governo não tem coragem, e à partida não irá ter, para suspender e acabar com as portagens, tendo em conta o desastre e a catástrofe económica que está instalada na região”, afirmou João Vasconcelos.
O dirigente da estrutura que representa os utentes da antiga autoestrada Scut (Sem custos para o utilizador), que o Governo decidiu portajar a 08 de dezembro de 2011, disse acreditar que um novo Governo terá como “uma das primeiras medidas a implementar a abolição das portagens”.
“Por isso, exigimos a demissão do Governo e que dê lugar a outro para serem criadas as condições para acabar com as portagens na Via do Infante”, defendeu.
João Vasconcelos explicou que a decisão de realizar a marcha lenta e buzinão entre Faro e Olhão a 27 de abril “já tinha sido tomada anteriormente” pela Comissão de Utentes, mas faltava anunciar a data.
“A Comissão de Utentes não se vai render, vai continuar a lutar, porque está provado que as portagens representam uma catástrofe social e económica para o Algarve, como nós dissemos há 15 meses. E aí estão as evidências todas, com 80 mil desempregados, muitas falências de empresas e muitas mortes na EN125 e nas estradas conexas”, considerou.
Vasconcelos justificou a escolha do local do protesto com o muito trânsito que se faz sentir na EN125 entre Faro e Olhão depois da introdução de portagens, por muitos automobilistas utilizarem esta estrada para evitar pagar portagens na Via do Infante, e também com a paragem das obras de requalificação na estrada nacional há mais de um ano devido a problemas económicos do consórcio construtor.
“Entre Faro e Olhão porque é uma via ‘sui generis’, muito condicionada, com as obras de requalificação da EN125 paradas logo à saída de Faro. E também não vai ser construída a variante a Olhão, onde as viaturas passam por dentro da cidade, com prejuízos para cidadãos”, disse.
João Vasconcelos referia-se à decisão do Governo de suspender um conjunto de variantes que estavam previstas no projeto inicial de requalificação da EN125, de forma a conter custos e evitar gastos para o Estado em tempos de austeridade e contenção económica motivada pela crise.

sábado, abril 13, 2013

Palingenesis – Populismos de Extrema-Direita na Europa Versão para impressão
Deputados do Partido Aurora Dourada no Parlamento gregoSabemos que o populismo se alimenta do cansaço, do medo, da desconfiança e, até certo ponto, da ignorância. Porém, quando analisamos o rápido crescimento de popularidade dos partidos de extrema­-direita na Europa nos últimos seis anos, devemos questionar-­nos se estes fatores justificam por si só tamanha erosão de uma memória coletiva ainda tão recentemente cimentada.
Artigo de Lídia Pereira

(Os imigrantes ilegais) são parasitas que bebem a nossa água, comem a nossa comida e respiram o nosso ar grego. (...) são primitivos, um miasma: sub-humanos. Não queremos saber da sua existência. (...) estamos prontos para abrir os fornos. Vamos transformá-los em sabão mas podemos apanhar alguma alergia, portanto só o usaremos para lavar carros e calçadas. Faremos candeeiros da sua pele. (...) E quanto aos esquerdistas? Faremos contas dos seus dentes.
Alexander Plomari, Aurora Dourada

Sabemos que o populismo se alimenta do cansaço, do medo, da desconfiança e, até certo ponto, da ignorância. Porém, quando analisamos o rápido crescimento de popularidade dos partidos de extrema-direita na Europa nos últimos seis anos, devemos questionar-­nos se estes fatores justificam por si só tamanha erosão de uma memória coletiva ainda tão recentemente cimentada.

Embora em alguns países a extrema-direita ocupasse ou tivesse ocupado já uma posição relevante na esfera política nacional anteriormente a este período, poderemos apontar a Grécia,a Hungria, a Finlândia, a França, a Inglaterra, a Bélgica, a Dinamarca, a Áustria, a Itália, a Noruega, a Suécia, a Holanda e a Suíça como os países onde partidos de extrema­-direita têm feito sentir a sua influência, chegando mesmo, em alguns casos, a obter presença parlamentar. Em comum têm o discurso nacionalista, conservador e anti-europeu, muito embora os separem as nuances no que à obtenção de apoio eleitoral diz respeito. O conservador ataque xenófobo deste tipo de partidos faz-se sentir, também ele, de maneira diferente entre os países do Oeste da Europa e os países do Leste da Europa: no Oeste, é a Islamofobia o paradigma dominante; no Leste, as comunidades romena e judaica são as mais atacadas. É de sublinhar, ainda, um esforço na suavização do discurso racista, recorrendo à crítica das políticas de integração, e não é incomum a negação do seu carácter antissemita, procurando dissociar­-se do fantasma do Holocausto.

O teórico político britânico Roger Griffin cunhou, em 1991, o termo "ultranacionalismo palingenético", segundo ele um dos mitos estruturantes do fascismo (muito embora outras ideologias possam também apresentar ideias palingenéticas). Do grego "palin" (renovação) e "genesis"(início), a pedra basilar do fascismo, enquanto ideologia, seria a de renascimento do estado ­ "renascimento nacional". Esta noção assume a decadência e a incapacidade do anterior regime, pelo que é imperativa a renovação nacional através da revolução.

Argumenta Griffin que é no descontentamento da população com as políticas vigentes que o fascismo faz o seu maior esforço de alargamento de bases. Assim, creio que poderemos apontar o papel catalisador da crise na satisfação deste esforço nos países mais ou menos afetados pelas destrutivas medidas de austeridade, como o sejam, por exemplo, a Grécia e a França.

A Europa dividida, autoritária e predadora, cujo papel na crise tem sido o de empobrecer a periferia, ignorando os seus quadros sociais, poderá ser um fator de compreensão do fenómeno de disseminação de ideais anti-Europa. Também o repúdio nacionalista pelos imigrantes e minorias encontra agora um eco mais alargado junto da população a braços com os elevados níveis de desemprego ­ a imigração desequilibra a economia, argumentam.

Na Grécia, tal relação entre a crise e a popularidade da extrema-direita é vincada pela assumpção da Aurora Dourada enquanto partido anti-austeridade. Em ambos os casos é, também, advogada a importância de um Estado Social forte. No entanto, são de assinalar notáveis diferenças na representação parlamentar de cada um dos partidos. Enquanto que na Grécia a Aurora Dourada conseguiu eleger 18 deputados, em França, muito embora na primeira ronda Marine Le Pen tivesse atingido os 18% (um pico histórico para o partido), o Front National acabou por eleger apenas 2 deputados.

Entretanto, o Perussuomalaiset ("Verdadeiros Finlandeses") na Finlândia, do outro lado do espetro da crise financeira, poderá também dever parte da sua popularidade ao contexto europeu: a sua campanha eleitoral, cujas invetivas lançadas a Bruxelas ("o coração da escuridão") e aos países resgatados lhes conseguiu 19% dos votos nas eleições parlamentares em 2011, e o 4o lugar nas presidenciais em 2012, culmina na recusa de assumir o pagamento dos erros dos outros.

Apesar de o seu papel na crescente desconfiança face ao poder estabelecido fazer deste um momento propício para a disseminação de ideais palingenéticos, a crise europeia, segundo um estudo realizado pela Political Capital, não deverá ser apontada como única responsável pela subida de popularidade dos partidos de extrema-direita ­ mesmo nos países onde foi
determinante para tal taxa de sucesso, outros fatores poderão ser apontados.

Vejamos o caso da Hungria: como estratégia de alargamento de bases, o Jobbik argumentou, com base num estudo de cariz erróneo, que graças à expansão da comunidade romena, os húngaros se teriam tornado uma "minoria no seu próprio país". Sendo o primeiro partido a abrir debate sobre este assunto, a estratégia obteve os resultados desejados e o partido conseguiu 16% dos votos nas eleições de 2010, assegurando-lhes 44 lugares em 368 do parlamento húngaro. A Hungria encontra­-se, atualmente, no 4o lugar de uma lista efetuada pela Political Capital que determina os países mais preconceituosos; confirmada como um dos mais antissemitas países da Europa, a sua história e cultura, onde estes ideais nunca chegaram a ser verdadeiramente ultrapassados e onde um forte sentimento anti-comunista se encontra disseminado, têm mais que ver com esta popularidade da extrema-direita do que com o contexto de crise europeia.

Apesar de não se inserir no período em análise, talvez seja interessante referir o pico de sucesso que a extrema-direita atingiu em 2002, um pouco por toda a Europa, conquistando lugares no parlamento na França, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Itália, Noruega e Suíça. No caso francês, o contexto de forte fragmentação da oferta política é apontado como possível explicação do sucesso obtido nas presidenciais por Jean-Marie Le Pen (Front National) que, com 16,86 % dos votos, atingiu a segunda ronda. A campanha, baseada na insegurança dos franceses relativamente às taxas de desemprego e de crime, foi fortemente apoiada pelos media. Dados de um estudo do Romanian Journal of Political Science apontam, no entanto, a inconclusividade dos dados relativamente a estas taxas na explicação do sucesso de Le Pen.

O comportamento do centro-direita tradicional, dos considerados partidos mainstream, poderá também adquirir um forte papel no crescimento da base eleitoral da extrema-direita, pois poderá dar-­se o caso do seu discurso redundar na normalização e legitimação política da narrativa fascista.

Argumenta-­se que, não fora o discurso conservador da direita grega tradicional, fundado sobre ideais anti-comunistas e elementos de cariz autoritário, jamais a Aurora Dourada teria alcançado o sucesso eleitoral confirmado pelas últimas sondagens, realizadas a fevereiro deste ano, que apontam uma subida de 18 para 36 deputados. Isto é, foi a narrativa institucionalizada que, em larga parte, permitiu à crise a sua atuação catalisadora.

É apontado, aliás, o perigo desta ocupação parlamentar na mudança de paradigmas governamentais e acusa-se o poder instituído de se aproveitar deste sucesso da direita radical para legitimar a sua própria viragem.

Nas eleições de 2012, Sarkozy fez nova aposta na arriscada estratégia que lhe ganhou os votos da base eleitoral da Front National em 2007, baseando a sua campanha no inflamado discurso contra a ineficácia das políticas de integração provocada pelo excesso de imigrantes no país, cujos efeitos se fariam sentir nas altas taxas de desemprego e crime. Se em 2007 a tática obteve sucesso, a verdade é que os valores elevadíssimos que a taxa de desemprego atingiu durante o seu mandato provocaram o descontentamento do eleitorado radical. Demonstrada a incapacidade de Sarkozy cumprir as suas promessas, não só houve um retorno dos simpatizantes do FN às suas origens, como, pela redundância desta estratégia na legitimação e normalização do discurso nacionalista, se verificou até um alargamento desta base.

Na Hungria, o governo de direita Fidesz não raras vezes dá a entender que na batalha pela restauração nacional a extrema direita não se encontra sozinha: será apenas estratégia? Será a ascensão política do Jobbik o contexto ideal para fazer passar as suas próprias posições mais conservadoras? Será uma combinação das duas? Em abril de 2011, o partido de Viktor Orbán fez aprovar a chamada "Constituição de Páscoa", um documento cujo preâmbulo extravasa de sentimento nacionalista, e o qual, para além de elaborado em regime de opacidade e unilateralismo, espartilha as liberdades democráticas através de cláusulas que constrangem a oposição, garantindo ao partido uma acumulação e cristalização do seu poder, previsto estando até o cenário de perda de futuras eleições. No dia 11 de março foram, pela quarta vez no espaço de um ano, votadas alterações por imposição europeia. Ufana no uso do argumento da ultrapassagem definitiva do fantasma do comunismo na aprovação da nova constituição, esta direita, no seu discurso e na sua postura autoritária de asfixia democrática, em pouco ou nada se distingue da sua versão mais extrema, representada pelo Jobbik.

A elitizada base intelectual que sustenta estes partidos, permitindo assim uma preocupante influência política sobre a opinião pública, é um fator comum não só a esta vaga de popularidade, mas, em geral, a todo os partidos que advogam ideais fascistas fator pelo qual o combate aos mesmos deverá passar, entre outros, pela informação e educação, pelo debate público e reposição, no seu devido lugar, da memória coletiva. Onde a democracia não se faz acompanhar de formação cívica para a cidadania, jamais poderá ser plenamente participada e nestas condições, far-se-ão sempre sentir os populismos. Não é por acaso que o esforço de alargamento de bases por parte da extrema-direita se faz, na sua grande maioria, junto da população mais jovem.




Pesquisa adicional
"How to tackle the far right? Delusions and new Proposals" [em linha] Disponível em WWW:
<http://www.riskandforecast.com/post/europe/how­to­tackle­the­far­right­delusions­and­new­proposals_788.html>
"The Greek Left and the Rise of Neo­Fascism"[em linha] Disponível em WWW: <http://www.globalresearch.ca/the­greek­left­and­the­rise­of­neo­fascism/5312125>
"Right­Wing Extremism in France ­ Departmental Differences in the vote for the National
Front"[em linha] Disponível em WWW: <www.polisci.uconn.edu/people/grads/.../FN%20article.pdf>
Foto: Deputados do partido Aurora Dourada no Parlamento grego.

“O dia em que nasc[eu] morra e pereça” Versão para impressão
thathcerlegacyA muito tardia morte da Margareth Taetcher, que os nossos plumitivos situacionistas adoram chamar "Dama de Ferro" enquanto se babam, veio dar relevo à necessidade de  «interpretação autêntica», ou seja sustentada na realidade material da história e não nas inspirações ideológicas que a moldaram, dos anos em que governou de mão dada com o seu verdadeiro par, no outro lado do Atlântico, Ronald Reagan. Tal tem sido feito com grande profusão de textos de inegável qualidade.

Artigo de Mário Tomé
... "Não o queira jamais o tempo dar;/Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,/Eclipse nesse passo o Sol padeça/"
A muito tardia morte da Margareth Taetcher, que os nossos plumitivos situacionistas adoram chamar "Dama de Ferro" enquanto se babam, veio dar relevo à necessidade de  «interpretação autêntica», ou seja sustentada na realidade material da história e não nas inspirações ideológicas que a moldaram, dos anos em que governou de mão dada com o seu verdadeiro par, no outro lado do Atlântico, Ronald Reagan. Tal tem sido feito com grande profusão de textos de inegável qualidade.
Ao mesmo tempo os argumentadores ideológicos do mundo que nasceu, cresceu, medrou e se estampa - com danos colaterais absolutamente imprevisíveis e catastróficos - sob a orientação do neoliberalismo taetcheriano inspirado nas doutrinas que criaram as tragédias chilena (em setembro de 1973) e argentina (1976), estrebucham no alto do poder que Deus lhes deu e a custo mantém, para conseguirem convencer-nos que a realidade é criada pela força do mercado financeiro e dos exércitos e polícias dos Estados conglomerados no  G-8 ,na Trilateral,no clube de Bildeberg ou preparados no grupo dos «Scull and Bones» de Harvard.
Como diria Taetcher, aquelas personalidades responsáveis não devem ceder ao ulular da populaça que nem sequer percebe que a liberdade política só tem garantia jurídica, de resto tem de conformar-se à realidade imposta pelo capital esteja na sua pujança ou no seu estertor. A luta de classes, segundo Taetcher e os seus ex-súbditos, é uma monstruosa  deformação inventada para separar violentamente aquilo que nasceu para estar unido, os povos de cada nação, e no concerto das nações.
O Estado de Direito é  um operador interessante e respeitável, mas deverá estar sempre pronto a ceder à "realidade material", ou seja ao poder de facto, das forças do mercado, afinal e ainda, apesar do desprestígio actual do neoliberalismo, a "garantia última da democracia" como preconizaram Hayek e Freadman e se congratularam os nossos fantoches de serviço desde os anos oitenta.
O capital financeiro, já há muito divorciado totalmente das razões económicas da gestão da produção e da distribuição nas sociedades compostas por pessoas, por cidadãos e cidadãs a quem é teoricamente reconhecida a soberania primordial e a capacidade de decisão sobre os detinos da sociedade, desistiu de alardear a sua independência relativamente aos Estados (uma falsidade já que contava com eles para assegurar as privatizações – já só falta privatizar o ar, aliás - e a repressão )  para os subjugar de forma directa através da dívida chamada soberana.  .
Como todos sabem essa dívida tem sido o meio usado para  dinamizar os negócios, o mercado e tem sido nomeadamente a base de criação de  dinheiro mesmo que cada vez mais virtual e sem correspondência na economia. Daí também as contradiçõs surgidas entre os sectores capitalistas virados para a produção e a dinâmica da finança.
A crise actual, para quem não percbe nada de economia como é o meu caso, decorre da supremacia total e sem travão da especulação financeira, a economia de casino, arrasando tudo e estiolando tudo à sua passagem.
A maioria dos produtores de teoria económica fazem-no sob orientação , aliciamento, e pagamento dos grandes bancos. Basta ver o "Inside Jobs".
O ataque ao Tribunal Constitucional insere-se pois na programação ideológica de que a Constituição, ou seja a garantia do respeito da democracia pelo Estado, não pode opor-se à realidade, ou seja às ordens da finança. A democracia só é boa  se  tiver em conta a "realidade". É comovedor o materialismo destes macacos.
A Taetcher até confessou a Pinochet que tinha que fazer o que ele fez mas de forma mais lenta e cuidadosa, dado que os ingleses estavam habituados à democracia e o nazismo ainda era uma lembrança dolorosa em Inglaterra e não se podia agir à bruta; ou seja arrasar o movimento sindical inglês e os serviços públicos sem meter nisso o exército, só com a bestialidade policial. O exército, esse, era para os domingos sangrentos na Irlanda do Norte, onde a democracia se adaptou à realidade para assassinar Boby Sands e alguns dos seus companheiros em greves de fome que mostraram a convicção e firmeza de Taetcher.
A resposta do Bloco à ofensiva do Governo e da Merkel tem sido boa e tem respondido no essencial às propostas e exigências do movimento social.
Mas penso que é chegado o momento de ir além do que o protesto, a indignação e a revolta explícita impõem.
É tempo de lembrar que os democratas do sistema só se importam com o sofrimento do povo como alegação eleitoral. Quanto pior melhor. E sempre fazem figura, desde a abstenção violenta à não contemplação com mais austeridade, basta a que temos para mostrar como somos veementes no protesto, pensam eles. Aliás sempre foi assim
É tempo martelar e argumentar sistematicamente que o Governo não é incompetente, mas que a sua política obedece ardentemente ao programa de desarticulação social e de transferência nunca vista dos rendimentos do trabalho para o capital financeiro e de criar condições de dumping social equivalentes às da China. Para já não falar da Alemanha que permite que os imigrantes da Roménia e Hungria e Bulgária sejam tratados como escravos ao ponto de empresas polacas transferirem secções inteiras para a Alemanha para beneficiarem das condições medievais de trabalho consentidas pela senhora Merkel.
É tempo de dizer que se a democracia foi violada por Cavaco e Soares quando se exigia o referendo ao Tratado de Maastricht e por Cavaco e Sócrates quando se exigia o referendo ao Tratado de Lisboa, as consequências dessa violação grosseira do direito do povo exigem, nas actuais condições respostas à altura.  E que valia mais ter pago a multa de 160 milhões de euros e não ter aceite "a regra de ouro" do pacto orçamental que limitou drasticamente a já pouca soberania do estado português na UE.
Ou seja é tempo de deixar claro que a exigência da renegociação da dívida legítima é a proposta mínima que, se não for aceite, obrigará o povo português a assumir directamente a sua soberania se o Estado continuar a alijar a sua responsabilidade constitucional. Na União Europeia a relação entre Estados, para resolver a crise, deverá ser substituída na relação entre os povos e os trabalhadores, que imponham as regras da democracia e da boa gestão dos recursos materiais e financeiros, recuperando a credibilidade e a legitimidade dos Estados alienadas pelos que os assaltaram através da fraude e da mentira.
A soberania é dos povos. A dos Estados é delegada.
O dinheiro que o Governo extorque a quem trabalha para obedecer às mafias financeiras e pagar  a dívida que a banca e a especulação "offshoriana" consentida provocaram e que, em última racio é sua, faz falta para o povo português preservar a sua dignidade e o seu futuro.
Não é o povo que está em dívida, são os que estão a exigir o seu pagamento que estão em dívida para o povo.
Se não se colocar a crise nestes termos, creio que pouco vamos adiantar.
E a luta, mesmo a muito veemente e entusiástica, "dissolve-se no ar" se for para encanar a perna à rã. E não há nada como os democratóides e as terceiras vias para conseguir isso. Há batalhões de lacaios a trabalhar na propaganda do status quo, da inevitabilidade da obediência e da honestidade imanente do Estado.
Só o rugido da rua, que mostre que já percebemos tudo e não há mais ilusões nem contemplações, lhes incutirá o medo com que tentam paralisar-nos.
A Comuna

A guerra mundial da dívida

Os dados do Banco de Pagamentos Internacionais levam a duas grandes conclusões. A primeira, é que o ênfase que se põe habitualmente no perigo que acarreta a dívida pública (sem o desprezar) é uma cortina de fumo para ocultar o principal cancro que assola a economia capitalista e que é a dívida privada. E a segunda, que este cancro é tão grande que torna completamente insustentável o sistema. Artigo de Juan Torres López
Por Juan Torres López
No passado dia 18 de março de 2013, o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS - Bank for International Settlements) atualizou séries históricas sobre a dívida privada de quarenta países. Os dados referem-se ao sector privado não financeiro que inclui empresas, famílias e instituições sem fins lucrativos e foram tomados a partir de diferentes anos de partida, segundo os casos, e após terem sido homogeneizadas as diferentes formas em que as dívidas foram geradas (a metodologia e os dados de todos os países em formato Excel podem ser acedidos em BIS, Long séries on credit to private non-financial sectors).
Surpreendentemente, estes dados têm passado muito despercebidos nos meios de comunicação apesar de provocarem calafrios e, pelo menos do meu ponto de vista, levam a duas grandes conclusões. A primeira, é que o ênfase que se põe habitualmente no perigo que acarreta a dívida pública (sem o desprezar) é uma cortina de fumo para ocultar o principal cancro que assola a economia capitalista e que é a dívida privada. E a segunda, que este cancro é tão grande que torna completamente insustentável o sistema, porque este não será capaz nem de amortizá-la nem de a fazer desaparecer graciosamente.
Dos dados que o Banco de Pagamentos Internacionais proporciona para os diferentes países podem extrair-se resultados como os seguintes:
- A dívida privada dos Estados Unidos (cujo PIB é de 16 biliões de dólares) era de 24,98 biliões de dólares (milhões de milhões) em 30 de setembro de 2012. Segundo os dados do BIS, este volume de dívida é duplo do que tinha há apenas nove anos.
- A dívida dos países da zona euro era de 15,70 biliões de euros (face a um PIB de 8,7 biliões) na mesma data, e também duplicou nos últimos nove anos. O Reino Unido, que tem uma dívida privada total de 3,1 biliões de libras (PIB de 1,4 biliões), só precisou de 7 anos para a duplicar.
Por outro lado, os dados mostram que a evolução da dívida na imensa maioria dos países apresenta algumas características comuns:
- A dívida privada em relação ao PIB tem aumentado extraordinariamente em quase todos os países, de cerca de 50% do PIB nos anos 60 ou 70 do século passado para 300% ou inclusive mais na atualidade.
- Ainda que a percentagem que representa o crédito que os bancos proporcionam sobre o total tenha diminuído muito, ao longo dos últimos anos, continua a ter um grande peso juntamente com o que proporcionam outro tipo de entidades financeiras não bancárias.
- Finalmente, os dados do BIS assinalam que o crédito às famílias, que tradicionalmente era bem mais baixo do que o que recebem as empresas, aumenta muito nos últimos anos, o que claramente reflete a perda continuada de poder de compra, o que faz com que o recurso ao crédito seja cada vez mais necessário em maior número de famílias de quase todos os países.
Mas, sem dúvida, o que merece uma menção especial é a magnitude da dívida que se está a acumular e que já é materialmente impagável. Isto é, não há nenhuma possibilidade de que o sistema a absorva na quantidade imensa que atingiu. Não pode haver rendimentos suficientes para a pagar sem que o sistema capitalista colapse.
Seguramente, muitas pessoas pensarão que não faz sentido que os bancos e as entidades financeiras em geral continuem a criar constantemente esses volumes tão grandes de dívida, que como temos visto duplicam a cada 7 ou 9 anos, sabendo que não a vão cobrar nunca. Mas faz sentido e é muito importante conhecê-lo.
O segredo consiste (como Vicenç Navarro e eu explicámos no nosso livro “Los años del mundo. Las armas del terrorismo financiero”, Espasa 2012)em que os bancos criam a dívida a partir do nada, realizando simplesmente meras anotações contabilísticas. Portanto, não lhes custa nada criá-las. E, no entanto, essa dívida está associada a juros (isto é, a uma retribuição que pagamos aos bancos por nos dar dinheiro que criam a partir do nada), de modo que os bancos têm sempre um retorno suficiente para obter juros impressionantes e converter-se nos donos do mundo sem necessidade de que lhes seja devolvida a totalidade da dívida que criaram. Só lhes basta emiti-la sem parar.
Graças aos juros, a dívida autoalimenta-se: necessita-se cada vez mais dívida para pagar a dívida anterior. De facto, a imensa maior parte da dívida gigantesca que os dados do BIS registam (como a de todos os países) é dívida que foi preciso subscrever para fazer frente à dívida prévia que foi criada pelos juros que foi preciso pagar por uma dívida criada pelos juros de dívidas anteriores… e assim sucessivamente, formando-se desse modo a espiral que condena a imensa maioria da humanidade ao empobrecimento.
Na antiguidade as dívidas eram uma das origens da escravatura. Hoje em dia achamos que já está abolida mas é mentira porque a dívida continua a converter centenas de milhões de pessoas e famílias em todo mundo numa espécie particular de escravos, escravos de facto. A dívida tira-lhes a liberdade e condena-os por toda a vida, amarra-nos e converte as sociedades em verdadeiras prisões.
A dívida é a forma da nova guerra mundial contra a imensa maioria da humanidade que a banca trava sem a ter declarado.
Há que acabar com isso. Há que abolir a escravatura da dívida e sabemos o que há que fazer para isso: principalmente, terminar com o privilégio irracional e imoral que permite aos bancos criar dinheiro a partir do nada, cada vez que dão um crédito. Isso é o que os leva, na sua procura constante do máximo lucro, a pressionar de mil formas para que o modo de produzir e a nossa forma de consumir dependa total e artificialmente do crédito, que é o seu negócio.
Artigo de Juan Torres López, publicado a 22 de março em Público.es e disponível em juantorreslopez.com. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor/a

Juan Torres López
Catedrático de Economia Aplicada da Universidade de Málaga (Espanha). Conselho Científico de Attac-Espanha. A sua página web é: www.juantorreslopez.com

quarta-feira, abril 10, 2013

Hoje frente à entrada do Hospital do Barlavento. 
Administração do Hospital recuou.
Vale sempre a pena lutar!

Administração do Hospital do Barlavento suspende parqueamento pago para «repensar» (atualizada)

O Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio decidiu hoje, ao fim da manhã, suspender o pagamento nos parques de estacionamento da unidade de Portimão, disse ao Sul Informação uma fonte hospitalar.
A suspensão destina-se, segundo a mesma fonte, a «repensar» o que fazer com os acessos ao parqueamento pago, depois de esta manhã, e pelo segundo dia consecutivo, a medida que ontem entrou em vigor ter voltado a provocar filas de quilómetros à entrada de Portimão, causando mesmo sérios problemas ao acesso de ambulâncias e veículos de emergência.
O Conselho de Administração vai ainda «repensar» a situação dos funcionários do hospital, para os quais não chegam os locais de estacionamento disponibilizados, disse aquela fonte.
Numa nota de imprensa enviada quarta-feira ao final da tarde às redações, os responsáveis pelo CHBA revelaram que reuniram «de urgência com a Administração da empresa concessionária e foram analisadas as várias intercorrências, nomeadamente a morosidade no acesso aos locais de estacionamento por parte de utentes e trabalhadores e decidiu, de imediato e a título provisório, proceder à suspensão do processo de pagamento».
«O Conselho de Administração do CHBA, EPE recorda ainda que estes transtornos, causados no afluxo à Unidade de Portimão decorrem também de um problema, com os quais a Instituição se tem vindo a deparar desde a sua implementação no Sítio do Poço Seco: um único acesso à Instituição, assunto que está neste momento a ser debatido com a autarquia e entidades responsáveis com vista à sua resolução», lê-se no documento.
«A equipa de gestão demonstra a sua preocupação pelos acontecimentos dos passados dias 8 e 9 de Abril e lamenta transtornos e atrasos gerados, comprometendo-se a unir esforços no sentido de conciliar todos os interesses em causa», acrescentou o Conselho de Administração do CHBA.
(Atualizada às 18h20 com a posição veiculada em nota de imprensa pela administração do CHBA)

Bloco de Esquerda exige «demissão imediata» do Conselho de Administração do CHBA

O Bloco de Esquerda de Portimão exigiu hoje, em comunicado, a «demissão imediata» de todo o Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, depois da confusão gerada ontem nos acessos ao hospital e à cidade, devido à imposição do parqueamento pago.
Além dessa medida, o BE portimonense considera como «situação inadmissível e ridícula» que a Administração do CHBA tenha alegadamente «dado instruções aos médicos para não demorarem mais que 10 minutos com os seus doentes», de modo a que os utentes não tenham que pagar muito no estacionamento. «Todos sabemos que isto é impossível de cumprir, pois cada caso é um caso», salienta o Bloco em comunicado assinado pelo seu coordenador concelhio João Vasconcelos.
O BE recorda que «o primeiro dia de estacionamento pago no Hospital do Barlavento, em Portimão, trouxe uma enorme confusão e o caos total nos acessos ao Hospital», acrescentando que também foi «muito perigoso ao colocar em perigo doentes e feridos com as viaturas do INEM e as ambulâncias a ficarem retidas nas filas de trânsito».
«As filas de trânsito chegaram a atingir quilómetros nas direções das Cardosas e do Malheiro. Muitas pessoas desistiram de ser atendidas no Hospital e muitos funcionários desta unidade hospitalar não conseguirem estacionar as suas viaturas nos parques grátis, ao contrário dos elementos da Administração que dispõem de lugares reservados no parque subterrâneo», salienta igualmente o Bloco de Esquerda de Portimão.
«Tudo isto é um escândalo e uma vergonha sem limites e o responsável por tal é o Conselho de Administração do CHBA que se encontra às ordens do governo PSD/CDS», denunciam os bloquistas.
A Coordenadora Concelhia do Bloco de Esquerda de Portimão lembra que «já tinha denunciado publicamente o estacionamento a pagar no parque do Hospital» e vem «exigir a revogação desta medida discricionária, injusta e muito penalizadora dos utentes do Hospital, já de si muito sobrecarregados com as taxas moderadoras impostas pelo governo PSD/CDS. São mais taxas em cima de mais taxas e os utentes e outros cidadãos, mergulhados num grave retrocesso social já não aguentam mais roubos, como é o caso do pagamento do estacionamento do Hospital do Barlavento».

terça-feira, abril 09, 2013

Primeiro dia de estacionamento pago no Hospital de Portimão gera filas de quilómetros

Hoje é o primeiro dia de estacionamento pago no Hospital do Barlavento, em Portimão, situação que, desde a manhã, está a gerar filas e grande confusão nos acessos à unidade e à própria cidade.
Segundo apurou o Sul Informação no local, as filas chegaram a atingir dois quilómetros em ambos os sentidos a partir da rotunda do hospital, entupindo por completo aquela que é a principal entrada e saída em Portimão.
Quer no sentido do Malheiro, quer no da rotunda das Cardosas, as filas obrigaram à intervenção da PSP para regular o trânsito.
Mesmo as ambulâncias e outras viaturas de emergência tiveram, a dada altura, dificuldades extremas em entrar no recinto do hospital, ficando retidas nas filas.
A perturbar ainda mais a situação, e porque alguns dos parques de estacionamento agora condicionados se destinam apenas a funcionários hospitalares, o segurança à entrada do recinto parava todos os veículos para confirmar se se tratava de funcionários ou não, causando ainda mais atrasos nas filas.
O Sul Informação já pediu um comentário a esta situação à administração do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio.
O início do parqueamento pago no Hospital do Barlavento, que estava inicialmente marcado para dia 1 de abril, depois foi adiado para 5, e finalmente para ontem, dia 8, acabou por ter lugar apenas hoje, dia 9.



domingo, abril 07, 2013

PSD e CDS-PP dramatizam acórdão do Tribunal Constitucional para justificar um segundo resgate

Numa conferência de imprensa que teve lugar este sábado, enquanto decorria a reunião da Mesa Nacional do Bloco, João Semedo acusou o PSD e o CDS-PP de promoverem uma campanha de dramatização do acórdão do TC “procurando usá-lo para renovar a sua política de austeridade” e de estarem a preparar um segundo resgate.
Foto de Paulete Matos.
O coordenador do Bloco de Esquerda frisou que, “nos últimos três dias, a crise política agravou-se”. “O governo está por um fio e quem segura esse fio é o Presidente da República”, afirmou o dirigente bloquista.
Segundo João Semedo, para o Bloco de Esquerda, “a crise política só tem uma saída: a demissão do Governo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas e a realização de eleições”.
“A decisão do Tribunal Constitucional (TC) é uma profunda derrota do Governo. Não apenas por ver recusadas, por serem inconstitucionais, importantes cláusulas do Orçamento do Estado de 2013, mas porque, na substância do acórdão do TC, está a condenação da estratégia central do coração da política de Pedro Passos Coelho”, salientou o deputado.
João Semedo lembrou que “esta derrota de 2013 começou com o acórdão do TC de 2012, que declarou inconstitucionais importantes normas do Orçamento do ano passado, sendo que essa fiscalização resultou de uma iniciativa do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, apoiada por um grupo de deputados do Partido Socialista”.
A decisão do TC é, conforme adiantou o coordenador do Bloco, não só “um cartão vermelho apresentado ao Governo mas também um cartão amarelo mostrado ao Presidente da República, que agiu tarde e muito aquém daquilo que lhe era pedido e exigido”.
João Semedo acusou ainda o PSD e o CDS-PP de promoverem uma campanha de dramatização do acórdão do TC, “procurando usá-lo para renovar a sua política de austeridade”, e de estarem a preparar um segundo resgate.
“Não foi o Tribunal Constitucional que originou a derrapagem do défice, que provocou o aumento da dívida e o aumento do desemprego, foi o Governo”, avançou o dirigente do Bloco, lembrando que “o buraco aberto nas contas de 2012 pela austeridade de Vítor Gaspar é três vezes superior ao valor que ficou em causa na sequência do acórdão do TC”.
Na Resolução aprovada este sábado pela Mesa Nacional, à qual pode aceder aqui, e na qual o Bloco defende que “a fonte de toda a crise social e governativa é a política do Memorando e da troika, de onde emana a falta de legitimidade de um governo que não tem mandato popular para esta devastação austeritária”, é anunciada a realização de uma conferência sobre o futuro do euro e da União Europeia. No plano nacional, será ainda apresentado um Programa de Emergência Social “para responder aos contornos de crise humanitária que a situação económica está a ganhar em amplos sectores sociais”, sendo que “o Bloco levará essas propostas a todo o país ao longo das próximas semanas”.
No documento, o Bloco comunica ainda a realização de um concerto de homenagem a Miguel Portas no dia 30 de abril, reafirma o seu empenho na sua afirmação nas autarquias e apela à participação em massa nas manifestações populares de 25 de Abril e do 1º de Maio.

20130406_mn_resolucaofinal.pdf91.69 KB

Esquerda.net

Reação do BE

"Não é um tempo de birras, é sim tempo de eleições"

por Sol
"Não é um tempo de birras, é sim tempo de eleições"
Fotografia © Rui Oliveira / Global Imagens
Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda, considerou que as declarações do primeiro-ministro, esta tarde, "demonstram irresponsabilidade e falta de sentido de Estado" por querer culpar o TC da crise.
"É inaceitável que diga que respeita o Tribunal Constitucional e ao mesmo tempo tente culpar o Tribunal Constitucional pela crise que o país vive", afirmou Catarina Martins.
"Não foi o Tribunal Constitucional que provocou esta crise, não foi o Tribunal Constitucional que aprofundou a recessão, não foi o Tribunal Constitucional que gerou o desemprego que não para de crescer, e não foi o Tribunal Constitucional que fez aumentar a dívida e o défice", acrescentou a coordenadora do Bloco de Esquerda, para quem "a decisão do Tribunal Constitucional em nada fragiliza a situação do nosso país face às instituições internacionais".
Catarina Martins lembrou a discussão acerca do objetivo do Governo de cortar 4 mil milhões nas funções do Estado e de fazer despedimentos na função pública. "Dizer que é culpa do Tribunal Constitucional é uma mentira colossal que está aos olhos de todos", comentou.
A coordenadora do Bloco defendeu que este "é um governo que não tem soluções para o país e que aposta na chantagem e nas desculpas" e que, além disso, "tenta usar o Tribunal Constitucional para um segundo resgate que parece já estar a negociar".
Em remate, Catarina Martins considerou que "não é um tempo de birras e desculpas, é sim tempo de eleições".

quarta-feira, abril 03, 2013

Sexta-feira há protesto contra estacionamento a pagar no Hospital do Barlavento

A Comissão de Utentes do Hospital do Barlavento vai promover na próxima sexta-feira, 5 de Abril, às 10 horas, uma manifestação de «protesto e de repúdio», frente ao Hospital do Barlavento, em Portimão, contra o pagamento do parque de estacionamento deste hospital, que entra em vigor neste dia.

A Comissão considera que se trata de uma «medida arbitrária e injusta» tomada pela Administração do Hospital e que «mais não é do que legalizar mais um roubo aos utentes do SNS! Não bastam as taxas moderadoras, agora os utentes vão ter que pagar mais uma taxa!»