sábado, agosto 01, 2015

"Sabemos que a razão nos assiste e o segredo da vitória reside no ânimo, na coragem, na determinação e na luta!"

(Intervenção na apresentação da candidatura BE/Algarve às Legislativas de 2015 - Teatro Municipal de Portimão – 30 de julho de 2015)

Caros camaradas e amigos,
Cumprimentos a todos e obrigado pela vossa presença.

É necessário continuar a eleger deputados bloquistas pelo Algarve. É necessário ainda com mais força, continuar a levar as lutas do Algarve ao Parlamento. Só assim teremos um Bloco de Esquerda mais forte, mais capaz e mais determinado em afrontar, com êxito, as políticas de austeridade que continuam a grassar na nossa região. Mas acima de tudo, a eleição de deputados bloquistas pelo Algarve será uma garantia de que as reivindicações e aspirações das suas populações serão colocadas e nível parlamentar e junto das entidades governativas com vista à sua satisfação. Será a garantia de potenciar lutas muito mais fortes das gentes que vivem e trabalham no Algarve, em prol do bem-estar, da justiça social, da dignidade e da democracia.
Por outro lado, a eleição de deputados do Bloco pelo Algarve significará um poderoso contributo na luta que temos pela frente contra as políticas austeritárias, venham elas de onde vierem, da parte de qualquer governo ou da União Europeia. A austeridade que destrói as nossas vidas e que mata tem de ser derrotada! É possível a construção de uma alternativa diferente! Uma alternativa de esquerda que se afirme na luta contra a finança predadora, contra as elites corruptas e contra uma Europa anti-democrática e trituradora dos direitos dos Povos e cada vez mais germanófila. Uma alternativa de esquerda que vá de encontro aos direitos e anseios do povo, dos trabalhadores, das crianças, dos jovens, das mulheres, das pessoas mais idosas, que vá ao encontro de todos sem exclusões! Para tal é necessário um Bloco de Esquerda cada vez mais forte.
Três anos de imposições da troika e quatro anos de governação PSD/CDS atiraram o nosso país para o desastre. PS, PSD e CDS assinaram o memorando troikista, logo são os três responsáveis pelo agravamento da crise, pela miséria, pela desgraça, que se abateu inexoravelmente sobre milhares de empresas e sobre centenas de milhares de famílias.
Paradoxo dos paradoxos – o governo de Passos/Portas adotou o programa da troika como o seu programa e ainda foi muito mais além do que o programa da troika exigia e, numa sanha ideológica e revanchista, como não há memória após a Revolução de abril, tem procurado desmantelar, pedra sobre pedra, tudo o que ainda restava no campo dos direitos sociais e laborais, serviços públicos, setores económicos estratégicos que são vendidos ao desbarato... mas ainda não destruiu tudo!
Daí ser crucial e de transcendental importância provocar uma derrota clamorosa da coligação “Portugal à Frente”, pois um novo governo PSD/CDS limitar-se-ia a destruir, de vez, as nossas vidas! Mas um governo PS, liderado por Costa, mais não será do que mais do mesmo e a “alternativa” que tanto apregou mais não será do que uma mera alternância e isso todos sabemos o que significa! Basta exercitar um pouco a memória e fazer uma breve viagem ao passado, ainda não muito distante!
Não obstante ter passado mais de um ano sobre a saída da troika do país, a situação social e económica continua na mesma e, até, se agravou nalguns aspetos. O Algarve espelha bem o reflexo de todas essas políticas nefastas: muitas dezenas de milhares de desempregados e de precários, muitos milhares de jovens e outros trabalhadores vêem-se constrangidos a escolher  a emigração forçada, a pobreza e a exclusão social tornaram-se gritantes, levando muitas famílias a procurar ajuda a apoio alimentar junto de instituições e cantinas sociais que continuam a aumentar na região, quem ainda trabalha aufere magros salários e privado de direitos sociais e laborais, muitos trabalhadores funcionam como autêntica mão-de-obra escrava nestes tempos ditos modernos do século XXI, alugados à peça a empresas privadas de trabalho temporário, ou utilizados nos serviços públicos sob a forma engenhosa de estágios profissionais ou de contratos de emprego e inserção. Os serviços públicos também sofreram um rude golpe na região, com destaque para o encerramento de escolas, tribunais, extensões de saúde e organismos ligados à agricultura e pescas, estações da CP, postos de correios e muitos outros. Mas foi no Serviço Nacional de Saúde da região que os ataques por parte de um governo ultraliberal e ao serviço de interesses privados mais se fizeram notar – a criação do Centro Hospitalar do Algarve conduziu à degradação dos serviços de saúde e ao encerramneto de outros serviços e valências nos Hospitais de Faro, Portimão e Lagos. A própria Maternidade do Hospital de Portimão encontra-se em risco de fechar as portas de forma definitiva. A situação só não atingiu outras proporções ainda mais negativas porque as populações, os utentes, os médicos e outros profissionais ligados ao setor, as associações sindicais e até algumas forças políticas protestaram e vieram para a rua em defesa do SNS! O Bloco de Esquerda orgulha-se de ter estado presente nessas lutas e assim é que tem de ser.
Outra situação vergonhosa é a que se assiste a nível do INEM na região com o desmantelamento progressivo dos seus serviços, colocando em risco os postos de trabalho e pondo em perigo a vida das populações, acabando muitos por pagar com a própria vida. A redução de valências do CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) e a desativação do CAPIC (Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise) degradaram substancialmente os serviços do INEN na região. A saída do helicóptero ligeiro de Loulé para Beja em finais de 2012 já tinha contribuido para depauperar os serviços do INEM regionais.
Um outro aspeto que merece ser referido, agora de âmbito laboral e que marcou de forma negativa a governação do PSD/CDS tem sido a chaga dos salários em atraso e que  no Algarve também atinge muitos trabalhadores. Uma saudação muito especial aos trabalhadores do Clube Praia da Rocha e em particular a Marilú Santana, que durante mais de 15 dias travaram uma luta dura, mas vitoriosa, para reaver os seus salários em atraso. Nessa luta também marcámos presença e apoio.
Uma outra imagem de marca do atual governo foi a sua atitude agressiva e prepotente, no âmbito da Pólis,  contra as populações das ilhas barreira da Ria Formosa. As populações, com a sua poderosa luta e onde também tem pontuado o apoio do Bloco de Esquerda, travaram, para já, os intentos das entidades responsáveis. O processo de renaturalização das ilhas não pode apostar apenas em demolições, mas deve acautelar os interesses de quem lá vive e trabalha, garantir o realojamento de todos de forma condigna, fazer uma reavaliação do Plano de Ordenamento da Orla Costeira onde haja planeamento e reabilitação das áreas construídas, o tratamento de todos os efluentes lançados na Ria Formosa, a segurança e a proteção ambiental, entre outros aspetos.
Finalmente, uma das grandes nódoas e bem trágicas deste governo foi a imposição de portagens na Via do Infante, responsáveis por dezenas de mortos, centenas de feridos graves e milhares de outros feridos, além de estar a contribuir para a destruição da economia regional. A requalificação da EN 125, uma autêntica rua urbana e que nunca se constituirá como alternativa à A22, continua por fazer-se. Ainda hoje estamos à espera de um relatório sobre o impacte das portagens no Algarve, prometido por um certo ministro da economia. Certamente que não teve tempo de elaborar tal relatório, tão afadigado andava com os  célebres pastéis de nata! Mas continuaremos a luta pela abolição das portagens no Algarve.
A eleição de deputados bloquistas pelo Algarve certamente constituirá uma poderosa alavanca na luta contra a austeridade perpétua, os quais recusarão, sem margem para dúvidas,  as imposições anti-populares de qualquer governo, do Tratado Orçamental e da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento. Esses deputados estarão disponíveis para viabilizar soluções de governo, desde que alternativas às políticas de austeridade cega, estarão disponíveis para viabilizar medidas de combate à crise económica e social e em defesa do estado social, dos serviços públicos, do aprofundamento da democracia, da justiça social, do bem-estar, da dignidade, em defesa daqueles que mais precisam.
O Bloco de Esquerda, nestas legislativas, apresenta alguns compromissos que são prioridades para o Algarve a pôr em prática na próxima legislatura. Algumas dessas prioridades no âmbito da economia, ambiente e ordenamento do território, já foram elencadas pelo camara José Moreira.  Passarei a referir mais algumas:
Direito ao trabalho com direitos e luta contra o desemprego, a precariedade e a exclusão social
Aqui a prioridade vai para a centralidade do direito ao trabalho e do trabalho com direitos. A atividade económica regional assenta maioritariamente no setor do turismo de sol e praia e nas atividades ligadas a este setor, em detrimento da atividade industrial, da pesca e da agricultura.
A criação de emprego é uma das prioridades da ação politica do Bloco na próxima legislatura, apostando na reabilitação urbana dos centros históricos das cidades e outras localidades; criação de um programa de apoios fiscais e subsídios à criação de emprego e autoemprego com a contratualização de apoios às microempresas, e ao setor cooperativo; promoção do emprego social, nomeadamente nos equipamentos e serviços sociais, culturais e desportivos.
A luta contra o desemprego passará pela apresentação de propostas para proibir os falsos recibos verdes, proibir os estágios não remunerados, acabar com o trabalho voluntário por empresas públicas e privadas, obrigar à vinculação imediata dos trabalhadores precários que satisfaçam necessidades permanentes no Estado, tornar regra as 35 horas semanais, tanto para o setor privado como para o público, acabar com os abusos das agências de recrutamento de trabalho temporário, alterar o Código de Trabalho repondo o primado da negociação coletiva e da  democracia nas empresas e levar à extinção dessa vergonha nacional que representam os programas de Contratos de Emprego e Inserção (CEI e CEI+ e CEI Património), implementados pelas IPSS, Câmara Municipais e outros organismos públicos.
A título de exemplo e para não ir mais longe, no passado dia 15 de julho a Câmara Municipal de Portimão bateu o record da precariedade - de uma assentada aprovou a colocação, com a oposição do Bloco de Esquerda,  de 72 pessoas CEI para trabalhar nos estabelecimentos de ensino no próximo ano letivo e por um período de 11 meses, auferindo um salário miserável ao fim do mês: 50 auxiliares de ação educativa, 18 cozinheiros, 3 animadores socioculturais e 1 Técnico Superior de Psicologia.
Os Contratos de Emprego e Inserção criados pelo governo Sócrates em 2009 e aplicados em força pelo atual governo PSD/CDS, não passam de manobras governamentais para tentar diminuir o desemprego de forma artificial – quase 100 mil a nível nacional - e utilizar os trabalhadores praticamente como mão de obra escrava e sem quaisquer direitos laborais. Além destes trabalhadores ocuparem necessidades de emprego permanente, vão os mesmos para a rua percorrido menos de um ano e auferem ao fim de um mês de trabalho uma miséria de 83,84€ mais o subsídio de refeição de 4,27€, para além do subsídio de desemprego (mas o subsídio é um direito e descontaram para usufruir do mesmo).
As Câmaras Municipais, a própria ANMP e outras entidades acabam por pactuar e tornam-se coniventes com o governo ao recorrerem, sem protestar, a este tipo de recurso a mão-de-obra quase escrava – torna-se um imperativo acabar com esta vergonha!
Ainda no âmbito do combate ao desemprego e à exclusão social na região, torna-se premente  criar um Programa de Emergência Social para acudir aos mais carenciados, envolvendo a todas as organizações e movimentos sociais, e alargar a atribuição do Subsídio Social de Desemprego a todas as pessoas sem trabalho – uma questão de dignidade!
Defesa e melhoria dos serviços públicos
Uma outra prioridade centra-se na defesa e melhoria dos serviços públicos na região, com destaque para o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública, que têm estado “debaixo de fogo” por parte deste governo e cujo objetivo tem sido o favorecimento de interesses privados, degradando os serviços públicos e prejudicando as populações.
No domínio da saúde uma das prioridades passará pela demissão da Administração e extinguir a má experiência que representou a criação do Centro Hospitalar do Algarve – uma verdadeira aberração na região que conduziu à degradação dos serviços públicos de saúde e ao encerramento de outros serviços e valências; também valorizar o Hospital de Faro e o Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio, com gestão descentralizada e reforçando-os com novas valências e serviços, incluindo a melhoria dos serviços das suas Maternidades; aumentar a oferta de cuidados de saúde na região, através do início da  construção do Hospital Central do Algarve, a criação de Unidades Locais de Saúde (ULS), o aumento da oferta de especialidades, colocação de mais médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde para responder às necessidades dos utentes, e manutenção e reforço dos serviços do INEM na região.
No campo do ensino e da educação, as prioridades na próxima legislatura terão em conta a criação de uma rede de creches públicas tutelada pelo Ministério da Educação garantindo atendimento de qualidade às crianças na primeira infância; criação de quadros permanentes de pessoal auxiliar e monitores de tempos livres; incluir e reforçar as Atividades de Complemento Curricular (AEC’s) nos currículos escolares e prover à colocação de mais professores nos quadros das escolas; acabar com os mega-agrupamentos escolares que só têm conduzido à degradação da escola pública e ao recrudescimento do trabalho burocrático;  retorno à gestão democrática das escolas com prevalência dos critérios de natureza pedagógica e científica sobre critérios de natureza administrativa, e uma gestão orientada por princípios de democraticidade e de participação de todos implicados no processo educativo; combater toda e qualquer tentativa de municipalização do ensino, o que a acontecer, conduz ao descomprometimento do Estado quanto ao financiamento e de responsabilidade social pela educação pública, reforça o controlo sobre as escolas, comprometendo ainda mais a construção da sua autonomia, e desenvolve sistemas arbitrários e pouco transparentes de seleção de pessoal docente e não docente; valorizar o ensino especial, dotando-o de mais meios e recursos humanos, materiais e financeiros; reforçar a importância da Universidade do Algarve.
A nível de outros serviços públicos as propostas irão no sentido de proceder à abertura de  um matadouro público na região do Algarve, e a luta será intransigente  contra a privatização da água e das empresas municipais de distribuição de água, de resíduos e saneamento.
A aposta na Regionalização
Uma outra prioridade que os deputados bloquistas pelo Algarve irão colocar no Parlamento prende-se com a Regionalização, com ou sem simultaneidade a nível nacional. Não há descentralização administrativa a sério sem regionalização. A criação da Região Administrativa do Algarve potenciará o combate às assimetrias e às desigualdades entre o litoral e o interior, permitindo atenuar as crises que se abatem sobre a região. Também funcionará como um fator de valorização da identidade da região, abrindo portas a um modelo de desenvolvimento sustentável, mais participado e mais democrático.
O modelo de regionalização só pode realizar-se se resultar da decisão popular, e se for apoiado em estruturas democráticas e representativas, eleitas pelos algarvios, sendo esta condição necessária para um desenvolvimento sustentável, estruturante e garante de uma descentralização efetiva, não mascarada por qualquer municipalização ou intermunicipalização avulsa.
Democratizar o acesso à cultura
A crise e a austeridade castigaram fortemente a cultura e o Orçamento de Estado apenas lhe reservou para este ano o simbólico valor de 0,1% do PIB. A cultura com este governo ficou reduzida a uma mera Secretaria de Estado, sem peso para definir adequadas políticas culturais num universo em que 80% da população não participa em qualquer atividade cultural e onde a televisão é o único meio de fruição cultural para metade dos portugueses. As próprias autarquias, endividadas, cortam nos orçamentos municipais para as iniciativas culturais, orientando a sua atividade para os grandes eventos.
No Algarve, verifica-se uma forte viragem do setor da cultura para o turismo de massas, excluindo as populações e abandonando formas e conteúdos emergentes de forte cariz regional. A falta de estratégia para a rede de equipamentos culturais existentes na região, que sofre de uma sangria de meios técnicos e recursos humanos, acentua a precarização dos profissionais do setor, condicionando a sua autonomia e a diversidade da criação artística. Torna-se necessário uma visão estratégica e integradora, orientada para a captação de recursos financeiros, técnicos e humanos que apoiem a criação de cultura e promovam manifestações artísticas de qualidade.
Nesta área a prioridade será norteada para a criação do estatuto do artista, com vista a uma maior proteção social e por condições dignas e trabalho para os técnicos do setor – uma cultura com direitos.
Torna-se necessário proceder a um levantamento de todas as infraestruturas culturais e das suas valências na região do Algarve, colocando-as ao serviço das populações, dinamizar os espaços alternativos, potenciar o trabalho dos equipamentos em rede permitindo a redução de custos e a rentabilização de recursos.
Deve haver um reforço do investimento nas Artes da região com vista à sustentabilidade equilibrada das políticas culturais, valorizar a história e a identidade algarvias, o património do Algarve deve ser protegido e valorizado e alvo de uma maior dotação orçamental, devendo ser defendido dos interesses privados e continuar a ser fruído por todos. A Dieta Mediterrânea, qualificada pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, deve ser potenciada, funcionando como motor para o conhecimento etnográfico regional, funcionando também como uma alavanca económica.
Deve haver uma aposta no turismo cultural, de qualidade. A Direção Regional da Cultura deve estar ao serviço de todos os agentes culturais e a Secretaria de Estado deve ceder o lugar a um Ministério da Cultura – estas serão as prioridades bloquistas a nível cultural.
O combate à corrupção e a criminalização dos salários em atraso
A luta pela transparência absoluta e o combate sem tréguas à corrupção também serão prioritários para o Bloco de Esquerda. A corrupção tornou-se endémica e atinge altas individualidades e organismos não só ligados à vida privada, mas também corrói a administração pública, envolvendo inclusive, “peixe grosso” no aparelho de Estado ao mais alto nível. Casos como o BPN, BPP, BANIF, BES, Monte Branco, Operação Furacão, Face Oculta, Universidade Moderna, caso dos Submarinos, Operação Marquês, o mundo tenebroso das PPP’s e tantos outros, muitos ainda a contas com a justiça, têm sido uma triste e escandalosa realidade do nosso quotidiano. Enquanto alguns têm vivido à custa do saque de muitos milhões, centenas e até  milhares de milhões, o país fica mais pobre e os seus cidadãos atravessam uma infinidade de dificuldades e muitos mesmo passam fome.
Não é admissível que aqueles que têm a responsabilidade de gerir a coisa pública pratiquem uma gestão ruinosa, ou se envolvam em casos de corrupção, gerando dívidas monstruosas e que as populações terão de pagar. Face a enormes endividamentos, não é admissível que Câmaras Municipais tenham de recorrer a empréstimos ao Estado com condições draconianas, como por exemplo terem de aplicar todos os impostos e tarifas municipais à taxa máxima durante vários anos e quem paga estes empréstimos e estas taxas são os munícipes. E são inventadas novas taxas como as chamadas taxas municipais de proteção civil que não passam de impostos encapotados. São os munícipes que têm de pagar por tudo isto, mas que não são responsáveis pelas políticas de má gestão praticadas. Só a título de exemplo, a Câmara de Portimão vai recorrer ao Fundo de Apoio Municipal com um empréstimo de 142 milhões de euros a pagar em 25 anos! Deste total, 126 milhões destinam-se a pagar dívidas aos bancos, onde se incluem mais de 10 milhões de juros de mora! Um autêntico negócio da China! Parece que em Portimão já não haverá mais taxa de proteção civil. Então sempre vale a pena lutar e o Bloco orgulha-se de ter estado, com muitos outros, na primeira linha de combate pela abolição da taxa.
Por isso é tão premente eleger deputados do Bloco de Esquerda pelo Algarve! Para ajudar a acabar com este tipo de leis e impostos municipais que só oneram e desgraçam a vida das populações, já tão causticadas pela crise e pelos impostos de índole nacional! Para ajudar a criar nova legislação que obrigue os prevaricadores, desde que culpados, a pagar com os seus bens e património os prejuízos que causaram ao bem público e às populações!
Uma outra prioridade passa por criminalizar os salários em atraso, pois não podemos aceitar como normal o não pagamento dos salários em atraso quando é uma situação anormal, ilegal e imoral. Quem trabalha tem de receber. O não pagamento de salários a quem trabalha significa um atentado à dignidade humana e aos direitos mais elementares dos trabalhadores.
Mobilidade
Uma mobilidade facilitada é um fator de combate às assimetrias e ao atraso na região. As prioridades nesta vertente vão para a luta, sem tréguas, pela abolição urgente das portagens na Via do Infante e apoiando todas as ações da Comissão de Utentes, ou de outras movimentos sociais anti-portagens; promover a requalificação imediata e total da EN 125 e a construção de todas as suas variantes retiradas do contrato com a concessionária pela Estradas de Portugal; eletrificar e modernizar toda a linha férrea do Algarve; criar um Serviço Regional Rápido Lagos-Portimão-Faro-Olhão-Tavira-Vila Real de Stº António, assim como um Serviço Urbano Aeroporto-Faro- Olhão- Tavira; criar uma Autoridade Regional de Transportes no Algarve.
Para terminar, ainda as portagens na Via do Infante: PS, PSD e CDS são os responsáveis pela imposição dessa calamidade que são as portagens no Algarve. O PS criou a lei das portagens, o governo PSD/CDS apoiou e aplicou a lei. Não obstante as consequências desastrosas que as portagens representam para o Algarve e para o país, o governo PSD/CDS e o PS continuam a não reconhecer a negra realidade dessas consequências: destruição da economia regional com mais desemprego e falências de empresas, perda de competitividade em relação à vizinha Andaluzia, grave retrocesso em termos de mobilidade na região, uma EN 125 ainda por requalificar e que não passa de uma perigosa rua urbana, de novo transformada na “estrada da morte” de má memória. Devido às portagens temos um verdadeiro “estado de guerra” não declarado no Algarve, com uma média de 23 acidentes e viação por dia, uma média de 30 vítimas mortais, de 150 feridos graves e centenas de outros feridos por ano. Em 3 anos e meio de portagens já são mais de uma centena de vítimas mortais, grande parte delas na EN 125. Este governo e disso não se pode furtar – tem as mãos sujas de sangue e tem de ser responsabilizado perante tantas famílias destroçadas!
Perante tanta calamidade e para tentar obscurecer a luta que o Algarve tem travado contra as portagens, em grande parte empreendida pela Comissão de Utentes da Via do Infante, vêm agora Passos Coelho e o PSD propor a redução das portagens; António Costa e o PS exigem igualmente uma redução do tarifário. Afinal continuam a coincidir nas suas propostas, bem tímidas e que não passam de mera propaganda eleitoral. A redução dos tarifários das portagens de nada ou pouco serve e, além disso, a concessionária pode exigir um pedido de reequilíbrio financeiro. Só no ano passado os pedidos de reequilíbrio financeiro por parte das PPP rodoviárias atingiram o montante de 3 mil e 700 milhões, enquanto os encargos líquidos chegaram a 1544 milhões de euros. O que interessa verdadeiramente é a abolição pura e simples das portagens e a total e imediata requalificação da EN 125.
Mais grave ainda é quando não se propõem beliscar o contrato com a concessionária, uma PPP deveras bem ruinosa e que, mesmo com a cobrança de portagens, acarreta um prejuízo para os contribuintes de cerca de 40 milhões de euros anuais! É obra! E verdadeiramente surreal é quando os anexos contêm cláusulas confidenciais – o quadro deverá ser bem negro. Sabendo-se da gravidade de toda esta situação, grandes e poderosos interesses devem estar em causa. É por isso que é tão importante continuar a eleger deputados bloquistas pelo Algarve, para ajudar a rebentar com estes contratos e dar mais força à luta pela abolição das portagens!
O Bloco de Esquerda orgulha-se de, juntamente com muitos outros, ter estado na primeira linha de combate para acabar com as portagens. Ainda não foi possível, mas iremos lá, concerteza com muito mais luta. Agora todos vêm falar que estão contra as portagens no Algarve, que fizeram isto e que fizeram aquilo, que ainda não foi possível acabar com elas, etc. Mas de uma coisa podem estar descansados: digam o que disserem, deem todas as voltas que quizerem, mas nunca conseguirão apresentar mais iniciativas, dentro e fora do Parlamento, na luta contra as portagens do que o Bloco de Esquerda! Nestas lutas o Bloco encontra-se à frente e numa posição bem destacada. Saúdo alguns desses lutadores que fazem parte desta candidatura e que se encontram nesta sala e que, sem recursos, têm feito o impossível. E o possível é a continuação da luta com todos aqueles que quizerem e acabar de vez com as portagens.
Os deputados a eleger pelo Bloco na região, além dos assuntos de cariz nacional, vão levar as lutas do Algarve ao Parlamento. Serão a voz daqueles que os elegeram e apresentarão propostas para a resolução dos seus anseios e reivindicações. Pescadores, mariscadores, agricultores, professores, habitantes das ilhas barreira da Ria Formosa, utentes da Via do Infante, trabalhadores do comércio e hotelaria, desempregados, precários, jovens, mulheres, trabalhadores da saúde e educação e muitos outros, poderão sempre contar com os deputados do Bloco a eleger pelo Algarve, assim como com os deputados bloquistas a nível nacional.
A luta é difícil mas cá estamos para mais um combate. E quem disse que há lutas fáceis? As lutas são sempre difíceis, dependendo do grau de intensidade de cada uma delas. São vários os concorrentes mas nunca voltamos a cara à luta. Como um país não se vende, vamos lutar para recuperar o que é nosso! Há que ter esperança e não desistir. Sabemos que a razão nos assiste e o segredo da vitória reside no ânimo, na coragem, na determinação e na luta! E nós lutamos todos os dias, somos os “imprescindíveis” de Bertolt Brecht: “há os que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são os imprescindíveis”. É assim o Bloco de Esquerda.
Muito obrigado a todos... e a luta é já a seguir.

Candidato do Bloco acusa Câmara de Portimão de embarcar nas manobras para mascarar desemprego

Joao Vasconcelos_1João Vasconcelos, cabeça-de-lista do Bloco de Esquerda pelo Algarve às Eleições Legislativas de 4 de Outubro, acusou ontem a Câmara de Portimão, presidida pela socialista Isilda Gomes, de bater «o recorde da precariedade» e de embarcar nas «manobras governamentais para tentar diminuir o desemprego de forma artificial».
João Vasconcelos, que é também vereador na autarquia portimonense, referia-se à admissão de 72 pessoas no regime de Contrato Emprego-Inserção (CEI) «para trabalhar nos estabelecimentos de ensino no próximo ano letivo e por um período de 11 meses, auferindo um salário miserável ao fim do mês».
Ao todo, denunciou, serão «50 auxiliares de ação educativa, 18 cozinheiros, três animadores socioculturais e um técnico superior de Psicologia». A decisão foi tomada pela Câmara de Portimão no passado dia 15 de Julho, «com a oposição do Bloco de Esquerda».
O cabeça-de-lista do BE falava ontem à noite, no Teatro Municipal de Portimão, durante a apresentação pública dos candidatos bloquistas às Legislativas, iniciativa que contou com a presença de Catarina Martins, coordenadora nacional do Bloco de Esquerda.
Vasconcelos recordou que os CEI foram «criados pelo governo Sócrates em 2009 e aplicados em força pelo atual governo PSD/CDS», garantindo que «não passam de manobras governamentais para tentar diminuir o desemprego de forma artificial – quase 100 mil a nível nacional – e utilizar os trabalhadores praticamente como mão de obra escrava e sem quaisquer direitos laborais».
Além destes trabalhadores «ocuparem necessidades de emprego permanente», vão para a rua decorrido «menos de um ano e auferem ao fim de um mês de trabalho uma miséria de 83,84 euros, mais o subsídio de refeição de 4,27 euros, além do subsídio de desemprego», o qual, recorda, «é um direito», tendo os trabalhadores descontado para dele usufruir.
Bloco de Esquerda_apresentacao_4«As Câmaras Municipais, a própria Associação Nacional de Municípios Portugueses e outras entidades acabam por pactuar e tornam-se coniventes com o Governo, ao recorrerem, sem protestar, a este tipo de recurso a mão-de-obra quase escrava», que o candidato do BE considerou uma «vergonha».
Tendo eleito a criação de Emprego como uma das questões base da sua intervenção, João Vasconcelos defendeu ainda a criação de «um Programa de Emergência Social para acudir aos mais carenciados, envolvendo a todas as organizações e movimentos sociais, e alargar a atribuição do Subsídio Social de Desemprego a todas as pessoas sem trabalho».
O cabeça-de-lista do BE salientou que «o Algarve espelha bem o reflexo de todas essas políticas nefastas: muitas dezenas de milhares de desempregados e de precários, muitos milhares de jovens e outros trabalhadores veem-se constrangidos a escolher a emigração forçada, a pobreza e a exclusão social tornaram-se gritantes, levando muitas famílias a procurar ajuda e apoio alimentar junto de instituições e cantinas sociais que continuam a aumentar na região, quem ainda trabalha aufere magros salários e está privado de direitos sociais e laborais, muitos trabalhadores funcionam como autêntica mão-de-obra escrava nestes tempos ditos modernos do século XXI, alugados à peça a empresas privadas de trabalho temporário, ou utilizados nos serviços públicos sob a forma engenhosa de estágios profissionais ou de contratos emprego-inserção».
Por outro lado, sublinhou, «os serviços públicos também sofreram um rude golpe na região, com destaque para o encerramento de escolas, tribunais, extensões de saúde e organismos ligados à agricultura e pescas, estações da CP, postos de correios e muitos outros».
Também sob ataque do Governo, segundo João Vasconcelos, têm estado o Serviço Nacional de Saúde, o INEM, a Escola Publica. Neste último âmbito, salientou, os eleitos do BE vão bater-se pelo fim dos mega-agrupamentos escolares e contra «toda e qualquer tentativa de municipalização do ensino».
Bloco de Esquerda_apresentacao_2São ainda prioridades do Bloco, a «luta intransigente contra a privatização da água e das empresas municipais de distribuição de água, de resíduos e saneamento», a aposta na Regionalização, a democratização do acesso à cultura, a criação do estatuto do artista, «o combate à corrupção e a criminalização dos salários em atraso».
«Uma outra imagem de marca do atual governo foi a sua atitude agressiva e prepotente, no âmbito da Polis, contra as populações das ilhas barreira da Ria Formosa», acusou.
«O processo de renaturalização das ilhas não pode apostar apenas em demolições, mas deve acautelar os interesses de quem lá vive e trabalha, garantir o realojamento de todos de forma condigna, fazer uma reavaliação do Plano de Ordenamento da Orla Costeira onde haja planeamento e reabilitação das áreas construídas, o tratamento de todos os efluentes lançados na Ria Formosa, a segurança e a proteção ambiental, entre outros aspetos», disse, na sua intervenção.
Sendo João Vasconcelos um dos grandes ativistas anti-portagens no Algarve, esse tema não ficou, naturalmente, fora da sua intervenção. O candidato bloquista considerou a imposição de portagens na Via do Infante como «uma das grandes nódoas e bem trágicas deste governo».
Antes do cabeça-de-lista, tinham já falado os candidatos José Moreira, número 3 da lista do BE, que apresentou os três pilares nos quais, na opinião do Bloco, se deve basear a economia do Algarve: o Turismo, os «setores tradicionais» e «as novas indústrias do conhecimento, da tecnologia e da cultura».
Falou depois Leónia Norte, uma independente que é número dois e que começou por salientar o facto de a lista do BE ser «totalmente paritária», com metade de homens e metade de mulheres.
«A luta é difícil, mas cá estamos para mais um combate. E quem disse que há lutas fáceis? As lutas são sempre difíceis, dependendo do grau de intensidade de cada uma delas», concluiu João Vasconcelos.
A sessão foi encerrada com a intervenção de Catarina Martins, coordenadora nacional do Bloco de Esquerda.

Bloco de Esquerda_candidatos todosLista dos candidatos a deputados do Bloco de Esquerda pelo Algarve:
1. João Vasconcelos, professor, 58 anos
2. Leónia Norte (ind.), advogada, 37 anos
3. José Moreira, professor universitário, 46 anos
4. Manuela Goes, professora, 55 anos
5. José Dourado, professor, 41 anos
6. Andreia Pais, gestora, 28 anos
7. Jorge Ramos, engenheiro de telecomunicações, 53 anos
8. Celeste Santos, formadora, 51 anos
9. José Domingos, empresário, 55 anos
10. Gilda Gil, delegada de informação médica, 41 anos
11. Pedro Mota, técnico de comércio e negócios, 43 anos
12. Tatiana Caldeirinha, administrativa, 30 anos
13. Tiago Grosso, rececionista, 37 anos
14. Luís Catarino (ind.), bombeiro, 29 anos

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Catarina Martins: Renegociação da PPP da Via do Infante apenas «diminui critérios da manutenção»

Catarina Martins_4A renegociação dos contratos das Parcerias Público-Privadas (PPP) rodoviárias que o Governo ontem terminou, com a aprovação, em Conselho de Ministros, do novo contrato da A22/Via do Infante, apenas «diminui» os «critérios de manutenção das estradas».
A acusação é de Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda, feita ontem em Portimão, em resposta a uma questão colocada pelo Sul Informação, à margem da apresentação dos candidatos algarvios do BE às Legislativas de 4 de Outubro.
O Conselho de Ministros desta quinta-feira, dia 30 de Julho, aprovou a alteração do contrato, e respetiva minuta, da concessão relativa à «conceção, projeto, construção, financiamento, exploração e conservação da autoestrada, e conjuntos viários associados, designada por Algarve», ou seja, referente à Via do Infante/A22.
Salientando que «Portugal é o país da Europa que tem maior percentagem do PIB afeta ao pagamento das PPP», a porta-voz do BE defendeu que, «o que o Governo fez nas negociações foi diminuir os custos de manutenção, ou seja, diminuir os critérios de manutenção das estradas».
De facto, segundo o comunicado do Conselho de Ministros, o novo contrato redefiniu a responsabilidade do Estado «pelo financiamento e pagamento das grandes reparações de pavimento, que deixam de ser financiadas antecipadamente e com base em previsões de ocorrência que podem não se verificar, para serem pagas apenas se, e quando, efetivamente necessária e realizada a intervenção».
Ora, sublinhou Catarina Martins, o Governo «nunca mexeu no essencial que é a taxa interna de rentabilidade das PPP», acrescentou, insistindo que «as PPP garantem uma renda aos privados verdadeiramente abusiva, com taxas muito superiores às taxas de juro da dívida pública portuguesa. E aí, que é onde conta, o Governo não mexeu».
Apesar desta afirmação da coordenadora do Bloco, o comunicado do Conselho de Ministros garante que uma das áreas sujeitas a renegociação foi a «redução da taxa interna de rendibilidade acionista de referência prevista no caso base».
De tal modo que o Governo diz que só este novo contrato permite uma poupança de 85 milhões de euros, enquanto no total, o processo negocial das PPP rodoviárias agora terminado, assegura uma «redução dos encargos brutos futuros estimada em 7,2 mil milhões de euros, ao longo do prazo remanescente dos respetivos contratos».

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Apresentação pública dos candidatos/as a deputados do Bloco de Esquerda pela região do Algarve — com Tatiana Caldeirinha e 8 outras pessoas.

Apresentação da candidatura do Bloco de Esquerda/Algarve às próximas legislativas. A luta só agora começou. (Clicar para ver todas as fotos)

sexta-feira, julho 17, 2015

Maioria dos dirigentes do Syriza está contra o acordo

Reunião do grupo parlamentar do Syriza. Foto Left.gr

Uma declaração subscrita por 109 dos 201 membros do Comité Central do Syriza exige uma reunião do órgão dirigente para recusar “o golpe contra a democracia e a soberania popular” por parte dos líderes europeus. A ministra adjunta das Finanças declara-se contra o novo ultimato e apresentou a demissão do governo.


“Exigimos uma reunião urgente do Comité Central do Syriza e convidamos todos os membros a protegerem a unidade do partido, na base das decisões da conferência e dos seus compromissos programáticos”, diz a declaração subscrita pela maioria do Comité Central.
“Este acordo não é compatível com as ideias e os princípios da esquerda, e em especial com as necessidades da população. Esta proposta não pode ser aceite pelos governantes do Syriza”, acrescenta a declaração publicada no dia da votação das medidas prévias à negociação do acordo final.
Os dirigentes do Syriza consideram que “a 12 de julho teve lugar em Bruxelas um golpe que mostra que o objetivo dos líderes da Europa era o extermínio exemplar de um povo que ousou escolher um caminho diferente do modelo neoliberal de austeridade extrema”.

Nadia Valavani é a primeira baixa no governo dos críticos do acordo

Depois da demissão de Nikos Chountis, o ex-líder da bancada do Syriza em Estrasburgo, que abandona o governo para substituir Manolis Glezos no Parlamento Europeu, esta quarta-feira surgiu a primeira demissão justificada pela oposição ao acordo com os credores.
Nadia Valavani, ministra adjunta das Finanças, escreveu uma carta a explicar as razões da demissão, defendendo que a assinatura do acordo irá enterrar o potencial emancipatório criado com a vitória do Syriza em janeiro e do Oxi no referendo deste mês. “Uma coisa é enfrentarmos uma realidade extremamente difícil e lidar com o desastre com uma perspetiva de esperança num futuro com dignidade, soberania e independência. Outra bem diferente é lidar com um desastre que irá consumir o rendimento nacional que resta para o transferir para fora, com o pagamento eterno de uma dívida que é insustentável”, acrescentou.

Leia aqui a declaração subscrita por 109 dirigentes do Syriza

A 12 de Julho teve lugar um golpe de estado em Bruxelas, que demonstrou o objectivo dos dirigentes europeus: infligir uma punição exemplar a um povo que imaginou outro caminho, diferente do modelo neoliberal de austeridade. Foi um golpe de estado dirigido contra toda a nação de democracia e de soberania popular.
O acordo assinado coms as “instituições” foi o resultado de ameaças de estrangulamento económico imediato e representa um novo protocolo impondo condições humilhantes, odiosas, e uma tutela destrutivas para o nosso país e o nosso povo.
Estamos conscientes da asfixia das pressões que foram exercidas sobre a parte grega, mas consideramos por outro lado que a luta avançada dos trabalhadores aquando do referendo não autoriza o governo a renunciar sobre as pressões exercidas pelos credores.
Este acordo não é compatível com as ideias e os princípios da esquerda, mas acima de tudo não é compatível com as necessidades da classe operária.
Esta proposta não pode ser aceite pelos militantes e quadros do Syriza.
Pedimos ao comité central uma reunião imediata e convidamos todos os militantes , quadros e deputados do Syriza a preservarem a unidade do partido tendo por base a nossa conferência, as decisões tomadas e os compromissos em matéria de programa
Atenas, 15 de Julho de 2015
(traduzido pelo blogue Aventar a partir de uma versão francesa do texto original publicado por Stathis Kouvelakis)


Leia aqui o “acordo” de Bruxelas (anotado por Varoufakis)

Yanis Varoufakis. Foto União Europeia ©

O ex-ministro das Finanças grego decidiu dar a conhecer as suas notas pessoais sobre o texto que serviu de acordo em Bruxelas e no qual, poucos dias depois, já quase ninguém diz acreditar.

A Cimeira do Euro sublinha a necessidade crucial de restabelecer a confiança com as autoridades gregas [i.e. o governo grego deve introduzir austeridade severa que atinja os mais fracos, que já sofreram gravemente], como pré-requisito para um eventual acordo futuro sobre um novo programa do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) [i.e. para um novo empréstimo para adiar e fingir].
Neste contexto, é fundamental que as autoridades gregas assumam as suas responsabilidades [i.e. o governo do Syriza deve assinar uma declaração a dizer que se passou para a “lógica” da troika] e que os compromissos políticos sejam seguidos de uma aplicação bem sucedida.
Um Estado-Membro da área do euro que solicite assistência financeira do MEE deverá apresentar, sempre que possível, um pedido semelhante ao FMI. Esta é uma condição prévia para o Eurogrupo chegar a acordo sobre um novo programa do MEE. Consequentemente, a Grécia solicitará a assistência continuada do FMI (acompanhamento e financiamento) a partir de março de 2016 [i.e. Berlim continua a acreditar que a Comissão não é de confiança para ser “polícia” dos próprios programas de “resgate” europeus].
Dada a necessidade de restabelecer a confiança com a Grécia, a Cimeira do Euro saúda os compromissos assumidos pelas autoridades gregas no sentido de legislarem sem demora sobre um primeiro conjunto de medidas [i.e. a Grécia deve sujeitar-se ao afogamento orçamental, mesmo antes de ser garantido algum financiamento]. As referidas medidas basear-se-ão integralmente num acordo prévio com as Instituições e incluirão:
até 15 de julho
– a racionalização do sistema do IVA e o alargamento da base de tributação para aumentar as receitas [i.e. dar um golpe profundo à única indústria em crescimento da Grécia – o turismo];
– a adoção de medidas imediatas para melhorar a sustentabilidade a longo prazo do sistema das pensões, no âmbito de um vasto programa de reforma das pensões [i.e. reduzir as pensões mais baixas, ignorando que a razia no capital dos fundos de pensões se deveu ao PSI da troika em 2012 e aos efeitos nefastos da queda no emprego e do trabalho não declarado];
– a garantia da total independência jurídica do ELSTAT (autoridade estatística grega) [i.e. a troika exige controlo absoluto sobre a forma como o equilíbrio orçamental é calculado, para assim controlar por inteiro a agnitude da austeridade que impõe ao governo];
– a plena aplicação das disposições pertinentes do Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária, em particular, tornando o Conselho Orçamental plenamente operacional antes da finalização do Memorando de Entendimento e introduzindo cortes quase automáticos nas despesas no caso de desvios em relação aos objetivos ambiciosos para o saldo primário, depois de consultado o Conselho Orçamental e sob reserva de aprovação prévia pelas Instituições [i.e. o governo grego, que sabe que as metas orçamentais impostas nunca serão atingidas com a austeridade imposta, deve comprometer-se a nova e automática austeridade que resulte de novos erros da troika];
até 22 de julho
– a adoção do Código de Processo Civil, que representa uma importante reformulação dos procedimentos e disposições do sistema de justiça civil e pode acelerar significativamente o processo judicial, bem como reduzir os custos [i.e. execuções de hipotecas, despejos e liquidação de milhares de casas e empresas que não estejam em condições de continuar a pagar as suas hipotecas/empréstimos];
– a transposição da Diretiva Recuperação e Resolução Bancárias, contando com o apoio da Comissão Europeia.
Somente após a aplicação jurídica das primeiras quatro medidas supramencionadas e a aprovação pelo Parlamento grego, bem como a verificação pelas Instituições e o Eurogrupo, de todos os compromissos incluídos no presente documento se poderá tomar, de forma imediata, a decisão de mandatar as Instituições para negociar um Memorando de Entendimento [i.e. o governo do Syriza deve ser humilhado ao ponto em que lhe pedem para impor dura austeridade como primeiro passo para pedir outro empréstimo tóxico, do mesmo tipo dos que o Syriza ficou internacionalmente famoso por combater].
A tomada dessa decisão ficará sujeita à conclusão dos procedimentos nacionais e ao cumprimento das condições prévias estabelecidas no artigo 13.º do Tratado MEE, com base na avaliação a que se refere o n.º 1 desse artigo. Para que haja uma base para a celebração bem-sucedida do Memorando de Entendimento, as medidas de reforma propostas pela Grécia precisam de ser seriamente reforçadas para terem em conta a situação económica e orçamental do país, que se deteriorou gravemente durante o último ano [i.e. o governo do Syriza deve aceitar a mentira de que ele, e não as táticas de estrangulamento dos credores, causou a deterioração aguda da economia nos últimos seis meses – pedem à vítima que assuma a culpa no lugar do vilão].
O Governo grego precisa de se comprometer formalmente a reforçar as suas propostas [i.e. a torná-las mais recessivas e desumanas] numa série de domínios identificados pelas Instituições, com um calendário claro e satisfatório para a adoção de legislação e a sua aplicação, incluindo marcos de referência estruturais, etapas e marcos de referência quantitativos, a fim de haver clareza quanto à orientação das políticas a médio prazo.
Em acordo com as Instituições, necessita nomeadamente de:
– levar a cabo ambiciosas reformas das pensões e especificar políticas para compensar integralmente o impacto orçamental da decisão do Tribunal Constitucional sobre a reforma das pensões de 2012 [i.e. cancelar a decisão do Tribunal a favor dos pensionistas] e implementar a cláusula de “défice zero” [i.e. cortar em 85% as pensões suplementares que o governo do Syriza defendeu com unhas e dentes nos últimos cinco meses] ou medidas alternativas mutuamente aceitáveis [i.e. encontrar vítimas “equivalentes] até outubro de 2015;
– adotar reformas mais ambiciosas para o mercado de produtos, com um calendário preciso para a aplicação de todas as recomendações do Guia de Avaliação de Concorrência da OCDE (volume 1) [i.e. as recomendações que a OCDE afastou após ter redesenhado estas reformas em colaboração com o governo do Syriza], incluindo o comércio ao domingo, as épocas de saldos, a propriedade das farmácias, o leite e as padarias, com exceção dos produtos farmacêuticos não sujeitos a receita médica, que serão incluídos numa próxima fase, bem como para a abertura de profissões fechadas que são cruciais no plano macroeconómico (por exemplo, o transporte por ferry). No seguimento do Guia de Avaliação da Concorrência da OCDE (volume 2), a indústria transformadora terá de ser incluída nas ações prévias;
– no que respeita aos mercados da energia, prosseguir a privatização do operador da rede de transporte de eletricidade (ADMIE) exceto se forem encontradas medidas de substituição que tenham efeitos equivalentes na competitividade, conforme acordado pelas Instituições [i.e. a ADMIE será vendida a interesses instalados estrangeiros a mando as Instituições];
– no que respeita aos mercados de trabalho, levar a cabo um reexame e uma modernização rigorosos da negociação coletiva [i.e. assegurar que nenhuma negociação coletiva será permitida], da ação laboral [i.e. que deve ser proibida] e, em conformidade com a diretiva e as melhores práticas da UE nesta matéria, dos despedimentos coletivos [i.e. devem ser permitidos por capricho do patrão], em sintonia com o calendário e a abordagem acordados com as Instituições [i.e. a troika decide].
Com base nestas avaliações, as políticas do mercado de trabalho deverão ser alinhadas pelas boas práticas internacionais e europeias, e não deverão passar pelo regresso a políticas do passado que não são compatíveis com os objetivos da promoção do crescimento sustentável e inclusivo [i.e. não pode haver mecanismos que o trabalho assalariado possa usar para obter melhores condições por parte dos empregadores];
– adotar as medidas necessárias para reforçar o setor financeiro, nomeadamente medidas decisivas quanto aos empréstimos improdutivos [i.e. um tsunami de execuções fiscais e está ante portas] e medidas para reforçar a governação do Fundo Helénico de Estabilidade Financeira (HFSF) e dos bancos [i.e. o povo grego que sustenta o HFSF e os bancos terão precisamente zero controlo sobre o HFSF e os bancos], eliminando, em particular, qualquer possibilidade de ingerência política, sobretudo nos processos de nomeação [i.e. à exceção da interferência política da troika]. Além disso, as autoridades gregas devem tomar as seguintes medidas:
– desenvolver um programa de privatizações significativamente reforçado e com uma melhor governação. Serão transferidos ativos gregos de valor para um fundo independente que monetizará os ativos através de privatizações e de outros meios [i.e. um Treuhand à moda da Alemanha Oriental deverá vender toda a propriedade pública mas sem os investimentos equivalentes que a Alemanha Ocidental pôs na Alemanha Oriental em compensação pelo desastre do Treuhand]. A monetização dos ativos será uma das fontes para proceder ao reembolso agendado do novo empréstimo do MEE, e gerar, em todo o ciclo de vida do novo empréstimo, um total que se pretende atinja os 50 mil milhões de EUR, dos quais 25 mil milhões serão usados para o reembolso da recapitalização dos bancos e outros ativos e 50% de cada euro remanescente (ou seja, 50% de 25 mil milhões de EUR) serão usados para reduzir o rácio dívida/PIB e os restantes 50% serão usados para investimentos [i.e. a propriedade pública será vendida e as magras receitas vão para o serviço de uma dívida impagável – nada sobrando para o investimentopúblico ou privado]. Este fundo será estabelecido na Grécia e gerido pelas autoridades gregas sob a supervisão das Instituições europeias pertinentes [i.e. ficará em nome da Grécia, mas, tal como o HFSF e o Banco da Grécia, será controlado em absoluto pelos credores]. Mediante acordo com as Instituições e com base nas melhores práticas internacionais, deverá ser adotado um quadro legislativo para garantir a transparência dos procedimentos e a adequada fixação do preço de venda dos ativos, de acordo com os princípios e normas da OCDE em matéria de gestão das empresas públicas;
– em consonância com as ambições do Governo grego, modernizar e reforçar significativamente a administração grega, e implementar um programa, sob os auspícios da Comissão Europeia, para o reforço das capacidades e a despolitização da administração grega [i.e. tornar a Grécia numa zona livre de democracia feita em Bruxelas, uma forma de governo supostamente tecnocrático, que é tóxico politicamente e inepto do ponto de vista macroeconómico]. Deverá ser apresentada uma primeira proposta até 20 de julho, após os debates com as Instituições. O Governo grego compromete-se a reduzir ainda mais os custos da administração grega [i.e. reduzir os salários mais baixos enquanto aumenta um pouco os salários de alguns apparatchiks simpatizantes da troika], em conformidade com o calendário acordado com as Instituições;
– normalizar plenamente os métodos de trabalho com as Instituições, incluindo as necessárias ações no terreno, em Atenas, a fim de melhorar a execução e o acompanhamento do programa [i.e. a troika contra-ataca e exige que o governo grego a convide para regressar a Atenas como Conquistador – a “paz cartaginesa” em todo o seu esplendor]. O Governo precisa de consultar as Instituições e acordar com estas em tempo útil todos os projetos legislativos nos domínios relevantes antes de os submeter a consulta pública ou de os apresentar ao Parlamento [i.e. o parlamento grego deve, uma vez mais, após breves cinco meses de independência, ser um apêndice da troika – aprovando leis traduzidas mecanicamente]. A Cimeira do Euro volta a realçar que a execução é fundamental; nesse contexto, saúda a intenção das autoridades gregas de lançar às Instituições e aos Estados-Membros, até 20 de julho, um pedido de assistência técnica, e pede à Comissão Europeia que coordene este apoio da Europa;
– com exceção da lei da crise humanitária, o Governo grego reexaminará, tendo em vista a sua alteração, a legislação introduzida que é contrária ao acordo de 20 de fevereiro, voltando a alinhá-la pelos anteriores compromissos do programa, ou identificará equivalentes compensatórios claros para os direitos adquiridos que foram subsequentemente criados [i.e. para além de prometer que não voltará a legislar de forma autónomoa, o governo grego irá anular retroativamente as leis que aprovou nos últimos cinco meses].
Os compromissos acima enumerados constituem os requisitos mínimos para encetar as negociações com as autoridades gregas. No entanto, a Cimeira do Euro deixou bem claro que o início das negociações não exclui um eventual acordo final sobre um novo programa do MEE, que terá de basear-se numa decisão sobre a totalidade do pacote (incluindo as necessidades de financiamento, a sustentabilidade da dívida e um eventual financiamento intercalar) [i.e. autoflagelar-se, impor mais austeridade a uma economia esmagada pela austeridade, e depois logo se vê se o Eurogrupo vos enterrará com novos empréstimos tóxicos e insustentáveis].
A Cimeira do Euro toma nota das possíveis necessidades de financiamento do programa, que oscilam entre 82 e 86 mil milhões de EUR de acordo com a avaliação das Instituições [i.e. o Eurogrupo fez aparecer um número gigantesco, bem maior que o necessário, para assinalar que a restruturação da dívida está afastada e que a escravidão da dívida ad infinitum é a regra do jogo]. A Cimeira do Euro convida as Instituições a explorar as possibilidades de reduzir o pacote de financiamento através de uma via orçamental alternativa ou de um aumento das receitas das privatizações [i.e. e até pode ser possível que os porcos voem]. O restabelecimento do acesso aos mercados, que constitui um objetivo de qualquer programa de assistência financeira, reduz a necessidade de utilizar à totalidade do envelope de financiamento [i.e. o que é algo que os credores farão tudo para evitar, por exemplo assegurando que a Grécia só entrará no programa de ‘quantitative easing’ do BCE em 2018, quando o ‘quantitavive easiing’ chega… ao fim].
A Cimeira do Euro toma nota das prementes necessidades de financiamento da Grécia, que realçam a necessidade de progredir muito rapidamente na obtenção de uma decisão sobre um novo Memorando de Entendimento: de acordo com as estimativas, são necessários 7 mil milhões de EUR até 20 de julho e mais 5 mil milhões de EUR até meados de agosto [i.e. “adiar e fingir”, aqui em nova versão]. A Cimeira do Euro reconhece a importância de assegurar que o Estado soberano grego possa pagar ao FMI e ao Banco da Grécia os montantes em atraso e honrar as suas obrigações de dívida nas próximas semanas, a fim de criar condições que permitam uma conclusão ordenada das negociações. Se as negociações não forem concluídas rapidamente, será a Grécia a suportar todos os riscos [i.e. uma vez mais, pedem que a vítima assuma a culpa no lugar do vilão]. A Cimeira do Euro convida o Eurogrupo a debater urgentemente estas questões.
Atendendo aos graves desafios com que se depara o setor financeiro grego, o pacote total de um possível novo programa do MEE teria de incluir o estabelecimento de uma reserva de 10 a 25 mil milhões de EUR para o setor bancário a fim de responder às potenciais necessidades de recapitalização bancária e aos custos de resolução, sendo que 10 mil milhões desse montante seriam disponibilizados imediatamente numa conta separada no MEE [i.e. a troika admite que a recapitalização dos bancos em 2013-2014, que só necessitava no máximo de uns 10 mil milhões, foi insuficiente – mas, como é óbvio, põe as culpas… no governo do Syriza].
A Cimeira do Euro está ciente de que uma rápida decisão sobre o novo programa é uma condição para permitir a reabertura dos bancos, evitando assim um aumento do pacote de financiamento total [i.e. A troika fechou os bancos da Grécia para obrigar o governo do Syriza a capitular e agora grita pela sua reabertura]. O BCE/MUS procederá a uma avaliação completa depois do verão. A reserva global permitirá suprir os eventuais défices de capital na sequência da avaliação completa efetuada depois de o quadro legal ter sido aplicado.
Existem graves preocupações quanto à sustentabilidade da dívida grega [N.b. A sério? Ena!]. Isso deve-se ao afrouxamento das políticas durante os últimos doze meses, o que resultou na recente deterioração do enquadramento macroeconómico e financeiro a nível interno [i.e. não foram os “resgates” de adiar e fingir de 2010 e 2012 que, juntamente com a austeridade destruidora do PIB, que levaram a uma dívida a disparar – foi a pespetiva, e a realidade, de um governo que criticou os empréstimos dos “resgates” de Adiar e Fingir que… levaram à Insustentabilidade da Dívida!].
A Cimeira do Euro recorda que os Estados-Membros da área do euro têm adotado, ao longo dos últimos anos, um considerável conjunto de medidas para apoiar a sustentabilidade da dívida da Grécia, o que facilitou o serviço da dívida grega e reduziu significativamente os custos [i.e. o 1º e 2º programas de “resgate” fracassaram, a dívida disparou como tinha de disparar, já que o verdadeiro objetivo dos programas de “resgate” era transferir as perdas dos bancos para os contribuintes europeus]. Sendo este o pano de fundo, no contexto de um eventual programa futuro do MEE, e em consonância com o espírito da declaração do Eurogrupo de novembro de 2012 [i.e. uma promessa de restruturação da dívida aos anteriores governos gregos que nunca foi cumprida pelos credores], o Eurogrupo mantém-se disposto a ponderar, se necessário, possíveis medidas adicionais (eventual alargamento dos períodos de carência e dos prazos de pagamento) a fim de assegurar que as necessidades de financiamento brutas se mantenham a um nível sustentável. Estas medidas ficarão dependentes da aplicação integral das medidas a acordar num eventual novo programa, e serão ponderadas após a primeira conclusão positiva da avaliação [i.e. Uma vez mais, a troika deixará o governo grego trabalhar sob uma dívida impagável e quando, em consequência disso, o programa falhar, a pobresa aumentar ainda mais e os rendimentos caírem muito mais, aí podemos cortar parte da dívida – como fez a troika em 2012].
A Cimeira do Euro salienta que não podem ser efetuados cortes nominais da dívida [N.b. O governo do Syriza tem proposto, desde janeiro, uma restruturação moderada da dívida, com nenhum corte, maximizando o valor atual líquido previsto dos reembolsos aos credores – o que foi semrpe recusado pela troika porque o seu objetivo era, simplesmente, humilhar o Syriza]. As autoridades gregas reiteram o seu inequívoco compromisso de honrar de forma integral e atempada as obrigações financeiras que assumiram para com todos os seus credores [N.b. o que só poderá acontecer após uma restruturação substancial da dívida]. Desde que estejam reunidas todas as condições necessárias contidas no presente documento, o Eurogrupo e o Conselho de Governadores do MEE podem, em conformidade com o artigo 13.º, n.º 2, do Tratado MEE, conferir mandato às Instituições para negociar um novo programa do MEE, se estiverem reunidas as condições prévias do artigo 13.º do Tratado MEE com base na avaliação referida no artigo 13.º, n.º 1. Para apoiar o crescimento e a criação de emprego na Grécia (nos próximos 3 a 5 anos)[N.b. Após destruírem o emprego e o crescimento nos últimos cinco anos…], a Comissão trabalhará em estreita colaboração com as autoridades gregas para mobilizar um montante que poderá ascender a 35 mil milhões de euros (ao abrigo de vários programas da UE) para financiar o investimento e a atividade económica, incluindo o investimento nas PME [i.e. Usará a mesma ordem de grandeza dos fundos estruturais, mais algum dinheiro a fingir, como o que esteve disponível em 2010-2014]. Como medida excecional e atendendo à situação única da Grécia, a Comissão irá propor um aumento de mil milhões de euros do nível de pré-financiamento para dar um impulso imediato ao investimento, a analisar pelos colegisladores da UE [i.e. Dos tais 35 mil milhões anunciados, leiam-se estes mil milhões como dinheiro a sério]. O Plano de Investimento para a Europa também proporcionará oportunidades de financiamento para a Grécia [i.e. o mesmo plano que a maioria dos ministros da zona euro chamam um programa fantasma].
Por InfoGrécia

O pacote do primeiro-ministro Tsipras

Um acto de traição contra o povo grego

por Michel Chossudovsky
Cartoon de Michael Kountouris. Depois de ter lançado um Referendo a fim de refutar e recusar o acordo de salvamento externo (bailout) preparado pela Troika, o primeiro-ministro Tsipras juntamente com o seu recém empossado ministro das Finanças, saiu-se quatro dias depois com um pacote de austeridade muito semelhante àquele que em Junho fora rejeitado pelo governo grego.

Esta meia-volta foi cuidadosamente engendrada. O povo grego foi iludido e enganado. O Referendo foi um absoluto "ritual de democracia".

Tsipras fez um acordo com os credores. Ele era desde o princípio favorável à aceitação das exigências dos credores.

Tsipras efectuou a campanha do "NÃO" tendo já decidido que no rastro do Referendo ele diria SIM aos credores e se dobraria às suas exigências. Isto equivale a um Acto de Traição.

Não houve tentativa por parte do governo Tsipras, na sequência imediata do Referendo, de renegociar ou estender o prazo final em nome do povo grego em resposta ao Voto NÃO.
Na manhã de segunda-feira, no dia seguinte ao Referendo, Yanis Varoufakis, que havia liderado as negociações com Troika, resignou como ministro das Finanças. Será que ele resignou por vontade própria ou foi "demitido" para facilitar um acordo com a Troika?

Sabe-se que os credores influenciam nomeações para postos ministeriais chave (exemplo: Coreia do Sul, Dezembro de 1997 na altura da Crise Asiática, o ministro das Finanças e o governador do Banco Central são demitidos por ordens de Washington).

Varoufakis foi apressadamente substituído por Euclid Tsakalotos, que tomou posse segunda-feira de manhã. Sua nomeação como ministro das Finanças e negociador chefe (a qual deve ter sido conhecida bem antecipadamente) foi amplamente saudada pelo establishment político e financeiro da UE.

O primeiro-ministro Alexis Tsipras juntamente com o seu novo ministro das Finanças efectuaram então reuniões na segunda-feira tanto com o Syriza como com a oposição. E no fim do dia, uma "declaração conjunta" foi rapidamente assinada "por quase todo o espectro político em apoio aos seus esforços para procurar um novo acordo por parte dos credores do país".

Tsipras disse depois ao Parlamento que o seu governo fora forçado a dobrar-se às exigências dos credores. Ele também disse que o referendo não autoriza o governo a encarar o Grexit, nomeadamente uma saída da eurozona.

O que ele deixou de mencionar é que o Voto NÃO lhe dera um mandato político para renegociar o acordo em nome do povo grego tendo em vista pelo menos aliviar os impactos mortais das medidas de austeridade propostas.


Na quinta-feira, um documento de 13 páginas contendo reformas concretas e medidas de austeridade foi enviado à Troika. A iniciativa destinava-se, segundo informações dos media, a "actuar como fundamento para libertar um novo pacote de três anos de bailout de 53,5 mil milhões de euros para salvar a nação da bancarrota".

Gregos queimam a bandeira do Syriza em praça pública. Estas propostas esboçadas no documento de 13 páginas explicitavam o desastre grego.

Elas envolviam aumentos maciços de impostos, uma redução drástica nos salários do sector público, cortes em pensões incluindo um aumento na idade de reforma para 67 anos, a privatização de activos do Estado incluindo empresas de utilidade pública e infraestrutura: "O governo procurará liquidar activos do Estado e por em andamento a privatização da rede da companhia de electricidade, aeroportos e portos regionais incluindo Pireu e Salónica".

Neoliberalismo e "remédios económicos" mortais postos em prática por um partido "de esquerda". Abaixo alguns destaques destas propostas (negritos acrescentados):

As propostas incluem uma grande quantidade de aumentos de impostos incluindo uma taxa de 23 por cento de IVA sobre restaurantes e catering, uma taxa reduzida de 13% sobre alimentos básicos, energia, hotéis e água e uma assim chamada taxa "super reduzida" de 6% sobre coisas como produtos farmacêuticos, livros e teatro – talvez apropriada para um país que foi o pioneiro na tragédia. Os novos níveis de impostos arrancarão em Outubro próximo. [Estes aumentos de impostos matarão a indústria turística e desencadearão bancarrotas de restaurantes e hotéis locais]

Além disso, reduções especiais de impostos para as ilhas do país – pontos de atracção turísticos – serão liquidadas. Só as ilhas mais remotas conseguirão manter as cobiçadas isenções fiscais.

Os gastos militares serão cortados em 100 milhões de euros este ano e o dobro disso em 2016. Os impostos sobre as empresas aumentarão de 26 para 28% e os agricultores perderão seu tratamento fiscal preferencial e os subsídios de combustível. [Isto desencadeará bancarrotas de agricultores]

O governo está à procura de reformas que em 2015 tragam poupanças permanentes de 0,25% a 0,5% do produto interno bruto e de 1% do PIB em 2016 e além. Medidas destinadas a atingir estes números incluem desencorajar a reforma antecipada e padronizar a idade de reforma nos 67 anos em 2022 – excepto para aqueles que desempenham "trabalhos árduos" e mães que criem crianças com uma deficiência. [atrasar a idade de reforma também contribui para aumentar o desemprego juvenil]

Pensões sociais serão melhor direccionadas, ao passo que fundos de pensão suplementares serão financiados por contribuições dos próprios empregados. Benefícios tais como um fundo de solidariedade serão gradualmente cancelados e contribuições de saúde para pensionistas saltarão em média de 4 para 6%. Mais reformas terão início para fazer o sistema de pensões mais sustentável, incluindo uma revisão de contribuições de pensões para todos os auto-empregados. [A redução drástica de benefícios sociais desencadeará pobreza em massa]

As autoridades modelarão os salários do sector público para assegurar que estejam numa trajectória descendente em 2019 e que se ajustem à "qualificação, desempenho e responsabilidade" do pessoal. [Destruição do sector público]


Correcções nas leis de insolvência terão como objectivo conseguir que devedores reembolsem empréstimos, enquanto consultores ajudarão a tratar de maus empréstimos. Serão também tomados passos para conseguir que investidores estrangeiros despejem o seu dinheiro em bancos gregos.

O governo abrirá profissões restritas tais como de engenheiro, notário e oficial de justiça. Ele formulará leis destinadas a livrar-se de burocracia e a tornar mais fácil obter licenças de negócios, assim como reformando o mercado do gás.

O governo procurará vender activos do Estado e começará a privatizar a companhia proprietária da rede eléctrica, aeroportos e portos regionais incluindo Pireu e Salónica. [Uma prenda para investidores estrangeiros, os quais adquirirão as empresas de serviços públicos e a infraestrutura do país]
O que não é explicitamente mencionado no documento de 13 páginas é a lógica do "investimento abutre", que leva à morte final do "capitalismo grego" incluindo sua indústria bancária, comercial e de estaleiros navais.

(Os elementos essenciais tanto da declaração conjunta como do documento de 13 páginas foram sem dúvida redigidos antes do Referendo).

Quem são os actores principais?

A Troika está a actuar por conta das instituições credoras. Eles não dão as ordens. O BCE é integrado por indivíduos que estão em estreita ligação com os principais interesses da banca incluindo JP Morgan Chase, Deutsche Bank e Goldman Sachs.

Analogamente, o FMI (que é essencialmente uma burocracia para a arrecadação de dívida) faz parte do chamado Consenso de Washington, com ligações ao Tesouro dos EUA, a think tanks económicos de Washington e naturalmente à Wall Street.

Houve divisões dentro da equipe negociadora do governo Tsipras. O que tem de ser enfatizado é o facto de que nenhumas concessões foram aceites pelos credores em qualquer etapa das negociações.

Em Fevereiro, o antigo ministro das Finanças Varoufakis havia insinuado que a Grécia cumpriria suas obrigações de dívida mas não seria capaz de obedecer às drásticas medidas de austeridade exigidas pelos credores, incluindo despedimos maciços de empregados do sector público, reforma de pensões e segurança social, etc.

Estas reformas não exacerbarão apenas a crise económica e social, a resultante estagnação económica também contribuirá para aumentar a dívida soberana. E é disso que os credores estão à procura.

O desemprego segundo estatísticas oficiais é actualmente da ordem dos 26%. O desemprego juvenil está nos 50%. A taxa real de desemprego é significativamente maior do que o número publicado pelo governo.

Condicionalidades da dívida

O que deve ser entendido é que credores não estão necessariamente fixados no reembolso de dívida soberana. Muito pelo contrário. O seu objectivo é fazer a dívida avançar através do chamado reescalonamento de dívida, o qual basicamente lhes permite emprestar mais dinheiro ao devedor. A nova moeda facilita então o processo do serviço da dívida. "Nós lhe emprestaremos o dinheiro e com o dinheiro que lhe emprestámos você nos pagará de volta". Novos empréstimos reembolsam velhas dívidas.

Este procedimento tem sido aplicado rotineiramente durante mais de trinta anos como parte do programa de ajustamento estrutural (PAE) do FMI-Banco Mundial. O fardo da dívida ascende. O país fica cada vez mais num colete de força. Os credores dão as ordens sobre reformas macroeconómicas.

Quanto ao novo pedido de Tsipras, este é para a concessão de uma pacote de 53,5 mil milhões de euros, a maior parte do qual será utilizado para o serviço da dívida. A maior parte do dinheiro não entrará no país. Este dinheiro será concedido a credores da Grécia em troca de um dramático pacote de reformas.

Dívida em economia real

O que tem de ser tratado é o relacionamento entre a arrecadação de dívida em termos monetários e a economia real.

Os credores usarão os muitos milhares de milhões de obrigações de divida da Grécia como meios para impor reforma macroeconómicas mortais as quais servirão para desestabilizar a economia nacional e empobrecer ainda mais a população. Estas são mencionadas pelo FMI como "políticas de condicionalidade", as quais permitirão aos credores ditar o essencial da política económica e social.

Os credores estão muito interessados em adquirir riqueza real dentro da economia nacional, nomeadamente a aquisição de instituições bancárias nacionais da Grécia, suas empresas públicas, sua terra agrícola, etc.

As 13 página do documento de Tsipras soletram o desastre: um novo processo de empobrecimento, a tomada dos activos públicos e da infraestrutura do país, bancarrota de agricultores e pequenos negócios, o influxo de investidores estrangeiros que comprarão a riqueza do país a preços de saldo.

A substância da proposta de Tsipras foi endossada na sexta-feira 10 de Julho pelo parlamento grego numa votação de 251 a favor, 32 contra e 8 abstenções. Houve um movimento significativo contra a proposta vinda do Syriza.

O documento de 13 páginas que esboça propostas de reforma do governo e de austeridade destina-se a ser utilizado nas negociações com credores da Grécia durante o fim-de-semana.

O que está em causa no pacote de reformas proposto é um processo engendrado de empobrecimento, a morte de programas sociais e uma bancarrota de facto destinado a levar empresas nacionais e regionais à bancarrota.

A aceitação pela Grécia das exigências dos credores é o equivalente a abandonar a sua soberania como estado nação.

As consequências económicas e sociais provavelmente serão devastadoras.
11/Julho/2015
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, julho 01, 2015

O ataque da Europa à democracia grega, por Joseph Stiglitz

Devemos ser claros: quase nenhum do enorme manancial de dinheiro emprestado à Grécia foi verdadeiramente para lá. Foi canalizado para pagar aos credores do setor privado – incluindo bancos alemães e franceses. O que a Grécia obteve foi uma ninharia, mas pagou um elevado preço para preservar os sistemas bancários desses países. Artigo de Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia.
Prémio Nobel da Economia Joseph Stigliz na Universidade de Columbia. Foto de Abhisit_Vejjajiva/Flickr
O crescimento exponencial de disputa e conflitualidade no seio da Europa pode parecer a quem está de fora como sendo o resultado inevitável do amargo fim do jogo entre a Grécia e os seus credores. Na verdade, os líderes europeus estão finalmente a revelar a verdadeira natureza da disputa da dívida em curso, e a resposta não é agradável: é sobre poder e democracia muito mais do que dinheiro e economia.
Claro, a política económica por detrás do programa que a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) tem impingido à Grécia há cinco anos tem sido abismal, resultando num declínio de 25% do PIB do país. Não consigo pensar em nenhuma depressão que alguma vez tenha sido tão deliberada e que tenha tido tais consequências catastróficas: a taxa de desemprego entre os jovens da Grécia, por exemplo, já ultrapassa os 60%.
É surpreendente que a troika se tenha recusado a aceitar a responsabilidade por alguma coisa destas ou admitir o quão maus tenham sido as suas previsões e modelos. Mas, o que é ainda mais surpreendente é que os líderes europeus não tenham sequer aprendido. A troika ainda exige que a Grécia alcance um excedente orçamental primário (excluindo o pagamento de juros) de 3,5% do PIB em 2018.
Economistas de todo o mundo condenaram essa meta como punitiva, porque exigi-la resultará inevitavelmente numa recessão mais profunda. Na verdade, mesmo que a dívida da Grécia seja reestruturada para além de qualquer coisa imaginável, o país permanecerá em depressão se os eleitores se comprometerem com a meta da troika no referendo, a ser realizado sob pressão este fim de semana.
No que respeita a transformar um grande défice primário num excedente, poucos países fizeram algo parecido com o que os gregos alcançaram nos últimos cinco anos. E, embora o custo em termos de sofrimento humano tenha sido extremamente elevado, as propostas recentes do governo grego fizeram um longo caminho para serem atendidas as exigências dos seus credores.
Devemos ser claros: quase nenhum do enorme manancial de dinheiro emprestado à Grécia foi verdadeiramente para lá. Foi canalizado para pagar aos credores do setor privado – incluindo bancos alemães e franceses. O que a Grécia obteve foi uma ninharia, mas pagou um elevado preço para preservar os sistemas bancários desses países. O FMI e os outros credores “oficiais” não precisam do dinheiro que está a ser exigido. Num cenário business-as-usual, o dinheiro recebido, provavelmente, serviria para ser novamente emprestado à Grécia.
Mas, novamente, o que interessa não é o dinheiro. É sobre usar "prazos" para forçar a Grécia a ceder e aceitar o inaceitável - não apenas medidas de austeridade, mas outras políticas regressivas e punitivas.
Mas por que é que a Europa está a fazer isto? Por que é que os líderes da União Europeia estão a resistir ao referendo e a recusar-se a estender, por alguns dias, o prazo de 30 de junho para o próximo pagamento da Grécia ao FMI? Não foi a Europa toda formada em cima da ideia da democracia?
Em janeiro, os cidadãos da Grécia votaram por um governo comprometido em acabar com a austeridade. Se o governo estivesse simplesmente a cumprir as suas promessas eleitorais, já teria rejeitado a proposta. Mas queria dar aos gregos uma hipótese para refletirem sobre esta questão, tão determinante para o bem-estar futuro do seu país.
Esta preocupação com a legitimidade popular é incompatível com a política da zona euro, que nunca foi um projeto muito democrático. A maioria dos seus governos não procurou aprovação do seu povo quando entregou a soberania monetária ao BCE. Quando a Suécia o fez, os suecos disseram não. Entenderam que o desemprego subiria se a política monetária do país fosse estabelecia por um banco central que incidisse única e exclusivamente sobre a inflação (e também que houvesse uma atenção insuficiente para com a estabilidade financeira). A economia sofreria, porque o modelo subjacente à zona euro se baseou em relações de poder desfavoráveis aos trabalhadores.
E, com certeza, o que estamos a ver agora, 16 anos após a zona euro ter institucionalizado essas relações, é a antítese da democracia: muitos líderes europeus querem ver o fim do governo de esquerda do primeiro-ministro Alexis Tsipras. Afinal de contas, é extremamente inconveniente ter na Grécia um governo que é tão contrário aos tipos de política que tanto fizeram para aumentar a desigualdade em muitos países avançados, e que é tão empenhado em reduzir o poder desenfreado da riqueza. Parecem acreditar que podem, eventualmente, derrubar o governo grego forçando-o a aceitar um acordo que viola o seu mandato.
É difícil aconselhar os gregos a como votar a 5 de julho. Nenhuma alternativa – aceitação ou rejeição dos termos da troika – vai ser fácil, e ambos carregam enormes riscos. Um voto sim significa depressão quase sem fim. Talvez um país empobrecido – que já vendeu todos os seus ativos e cujo povo jovem brilhante emigrou – poderá finalmente conseguir um perdão da dívida; talvez, depois de se ter transformado numa economia de rendimento médio, a Grécia poderá finalmente receber apoio do Banco Mundial. Tudo isto pode acontecer na próxima década, ou talvez na década seguinte.
Por contraste, um voto não abre, pelo menos, a possibilidade de a Grécia, com a sua forte tradição democrática, pegar no destino pelas suas próprias mãos. Os gregos poderão ganhar a oportunidade de moldar um futuro que, embora não tão próspero quanto o passado, é muito mais esperançoso que a inconcebível tortura do presente.
Eu sei como votaria.
Esquerda.net

“Chantagem financeira não pode substituir-se à democracia”

Bloco de Esquerda afixa outdoor diante do edifício do FMI, em Lisboa, para denunciar o papel das instituições financeiras que atacam e fazem chantagem à Grécia.
A Democracia contra o medo e a chantagem. Foto de Paulete Matos
A Democracia contra o medo e a chantagem. Foto de Paulete Matos
O Bloco de Esquerda afixou um outdoor em frente ao edifício do FMI, em Lisboa, com os dizeres: “A democracia contra o medo e a chantagem – Solidariedade Grécia”. No entender de Catarina Martins, porta-voz, do Bloco, “não podemos deixar que em nenhum lugar a chantagem das instituições financeiras se substitua à democracia”.
Cavaco Silva foi o único chefe de Estado europeu que falou na hipótese de a Grécia sair do euro.
A deputada denunciou que Portugal está numa situação particular, porque Cavaco Silva foi o único chefe de Estado europeu que falou na hipótese de a Grécia sair do euro.
“Isto é de uma irresponsabilidade e de uma leviandade que não pode ficar sem resposta. Quando Cavaco Silva diz que se a Grécia sair do euro, em vez de 19 ficam 18, está muito enganado”, recordando que uma eventual saída da Grécia colocará Portugal “na linha da frente do ataque dos especuladores, como diz toda a imprensa económica internacional”.
Esquerda.net