segunda-feira, julho 21, 2014

Professores recusam ser carrascos dos seus colegas porque uma profissão também se constrói com solidariedade!

A prova alegadamente destinada a avaliar conhecimentos e capacidades de docentes que reúnem os indispensáveis requisitos legais – científicos e profissionais – para exercerem a profissão está, de novo, no terreno, tal é a obstinação do governo em a impor aos docentes.

Esta prova foi criada para reduzir professores da profissão, mas anunciada como servindo para avaliar a sua adequação à mesma, argumento perfeitamente absurdo, não apenas tendo em conta o teor conhecido da prova já realizada, mas também pelo facto de pretender submeter à sua realização profissionais com um percurso académico positivo e que corresponde às exigências impostas pelo MEC para o exercício de funções docentes, para além de muitos deles já exercerem funções há muitos anos, tendo sido avaliados com menções de Bom, Muito Bom e Excelente.
Mas, como a obstinação é maior que o discernimento, o MEC avançou com a realização da prova de uma forma que releva um comportamento política e eticamente reprovável e inaceitável, para além de ilegal. Por exemplo:
- De acordo com o decreto regulamentar 3/2008, a data de publicitação da realização da prova deverá anteceder em 20 dias a sua primeira componente, o que não acontece;
- A prova tem duas componentes, sendo que a designada “componente específica a cada grupo de recrutamento” foi agora deixada cair pelo MEC o que reforça a opinião de quantos consideram que, afinal, o objetivo do ministério não é mesmo  avaliar o grau de conhecimentos dos docentes e a sua adequação à profissão;
- Afirma o despacho que esta prova se destina a docentes que comprovadamente por motivos alheios à sua vontade não a realizaram antes, esclarecendo que são esses docentes que constam das listas… onde estão as listas?
- Não existindo listas, como poderão os candidatos controlar o juízo da administração sobre os critérios utilizados para averiguar o cumprimento dos princípios da igualdade e imparcialidade?
- E qual o conceito de “comprovadamente”? Estende-se a quem estava doente ou em licença de parentalidade? À gravidez de risco? E quando se apresenta o “comprovativo”, à entrada para a prova? Hoje ou na segunda-feira?
Para a FENPROF, este procedimento do MEC viola claramente o princípio da boa-fé, pois de forma inesperada e sem justificação e objetivo atendível marcou a realização da prova para o período de férias dos docentes e apenas com 5 dias de antecedência. Ora, nos termos da lei, os 5 dias não são para anunciar a realização da prova (neste caso, são 20), mas apenas o local da sua realização.
Mas o desrespeito do MEC não foi apenas pelos professores que deverão sujeitar-se à prova, mas também pelos diretores e pelas escolas. Atente-se no facto de, ainda ontem, apesar de todo o trabalho que decorre nas escolas e envolve os seus diretores, o MEC decidiu, às 7 horas da manhã, convocar para Lisboa (Caparide) os diretores (ver convocatória) das escolas / agrupamentos em que a prova se realizará, estivessem eles em Lisboa, em Bragança ou em Faro.
Por fim, e caricato também, o MEC, para garantir que não seriam colocados em causa os prazos que decidiu adotar neste processo, publicou em 17 de julho o Despacho que fixa a data de realização da prova para 22 de julho (despacho 9316-A/2014, de 17-07) mas nele referindo que os efeitos seriam… à véspera de ser publicado, o que é extraordinário.
Como aconteceu em 18 de dezembro, os professores dos quadros não aceitam ser carrascos dos seus colegase naquela data os professores aderiram massivamente à greve então decretada – mais de 95% de adesão – e a prova realizou-se em parte, apesar da elevadíssima adesão à mesma, porque algumas escolas violaram os procedimentos estabelecidos, com as vigilâncias a serem feitas de forma irregular, os horários a não serem cumpridos, as turmas a serem fundidas e colocadas em grandes espaços… isto é, tudo valeu para conseguir que a prova se realizasse e, mesmo assim, metade dos professores não a realizou.
Em jeito de ameaça, o MEC apela agora aos professores dos quadros que vigiem os seus colegas porque se aqueles não realizarem a prova seriam, alegadamente, prejudicados. É falso. O MEC não poderá usar esta prova para os concursos que já decorrem e no próximo ano, felizmente, já a atual equipa ministerial foi posta fora levando consigo a sua prova. Recorda-se que todos os partidos da oposição, através dos seus secretários-gerais ou coordenadores (PS, PCP e BE) consideraram esta prova uma inutilidade manifestando a sua oposição à mesma.
Combatendo, mais uma vez a realização da PACC, a FENPROF, de forma autónoma ou em convergência com outras organizações sindicais (ASPL, SEPLEU, SINAPE, SIPE, SIPPEB e SPLIU), está a promover diversas ações. Assim, durante a manhã, já entraram nos tribunais providências cautelares, tendo a primeira sido apresentada logo às 7.45 horas. As providências foram apresentadas nos TAF de Porto, Coimbra, Lisboa e Beja. Entretanto, estão já a ser distribuídos flyers nas escolas em que a prova se realizará (conjunto das organizações sindicais), bem como as convocatórias para a realização de reuniões sindicais, nessas escolas, no próximo dia 22 de julho, a partir das 9.00 horas.
Tal como em dezembro, os professores que não têm de realizar a PACC recusam, por larga maioria, ser carrascos dos seus colegas. É assim, uma profissão também se constrói com solidariedade!
O Secretariado Nacional da FENPROF
18/07/2014 

segunda-feira, julho 14, 2014

BE Algarve vai a votos

A Comissão Coordenadora Distrital (CCD) de Faro do Bloco de Esquerda vai a votos.
Ao ato eleitoral, que terá lugar no próximo dia 19 de julho, sábado, apresentaram-se duas listas candidatas.
A lista A, com a moção "Uma alternativa radical e socialista para o Algarve", é encabeçada por João Vasconcelos, professor do ensino secundário, e conta com mais quinze elementos bloquistas. Com a moção "Mais Bloco, mais distrito, uma alternativa", apresenta-se a lista B, liderada por Pedro Tavares, também professor, e outros quatro membros.
A "implementação da Região Administrativa do Algarve, o que potenciará mais democracia e qualidade de vida para as populações" é uma das principais bandeiras da moção da lista A. Por seu turno, a lista B pretende "criar uma equipa para auscultar os aderentes do distrito acerca dos candidatos a apresentar às próximas legislativas".
Ressalva-se que em ambas as candidaturas à CCD de Faro se encontram questões transversais à política do BE para a região, tais como: requalificação da EN 125, suspensão imediata das portagens na Via do Infante - A22, modernização da linha ferroviária, combate à privatização da água e uma luta intransigente em defesa do Serviço Nacional de Saúde.
As listas candidatas e as moções apresentadas podem ser consultadas aqui e aqui.

sexta-feira, julho 11, 2014

Protesto contra fecho da maternidade do hospital de Portimão reuniu uma centena

grávidasAna Duarte, 34 anos, residente em Monchique, está grávida de seis meses e a sua é uma gravidez de risco, porque vai ter duas meninas gémeas. Já com uma barriga bem visível, ela e a sua colega Vera Duarte, 33 anos, grávida de sete meses, participaram no protesto que esta tarde reuniu uma centena de pessoas à porta do Hospital do Barlavento Algarvio, em Portimão, contra o eventual fecho da sua maternidade.
Ana, abrigada à sombra para escapar aos mais de 35 graus que se faziam sentir, manifestou-se «indignada» com a intenção de fechar a maternidade portimonense, já admitida pelo presidente do Centro Hospitalar do Algarve (CHA), devido a alegada falta de médicos para assegurar a manutenção do serviço.
«Tenho uma gravidez de risco, porque são gémeos, sou de Monchique, por isso levo mais de uma hora até Faro, o médico que está a tratar-me está aqui no hospital de Portimão, por isso não faz sentido ter que ir para Faro, para um apartamento que nem sei onde é, sabe-se lá com quem, longe da família», disse Ana ao Sul Informação.
«E a gente nem tem direito a apartamento em Faro, foi o que nos disseram. Só têm [as grávidas que residem] a partir dos 100 quilómetros [de distância do hospital de Faro] e Monchique fica a 90 de Faro. Mas demoramos mais de uma hora na estrada», acrescentou a sua colega Vera, também residente no concelho serrano.
«Isto tudo faz-nos ficar nervosas, com stress, não nos faz nada bem», comentou Ana Duarte.
protesto_3Por seu lado, Célia Silva cujo filho nasceu no antigo Hospital de Portimão, foi à manifestação com um carrinho de bebé que transportava um boneco com um cartaz onde se lia: «Obrigado mãe por me fazeres nascer em Portimão».
Para esta manifestante, o possível fecho da maternidade de Portimão acontece «porque temos aqui um ditador. Não quer dizer que ele [Pedro Nunes, presidente do concelho de administração do CHA) não receba ordens de lá de cima, do Governo, mas podia ser mais moderado. Portimão já tem aqui uma hospital com maternidade há tanto tempo, não há direito de nos tirarem isto». «Faro não chega para as grávidas de Odeceixe a Vila Real!», defendeu.
Margarida Tengarrinha, ex-deputada comunista portimonense e lutadora pelos direitos das mulheres, sublinhou que o encerramento do serviço de Obstetrícia em Portimão «resulta da política geral do Governo. Porque é que vão fechar as escolas? É por uma questão de economicismo. Na Saúde, o pessoal que se lixe!».
«Pergunte às grávidas de Odeceixe ou da outra ponta do Algarve quantos quilómetros é que têm de andar para ter os seus filhos. E pergunte quantos partos é que se vão dar, como já se estão a dar no interior do país, nas ambulâncias?», desafiou Margarida Tengarrinha.
«É isto que nós não queremos que aconteça em Portimão. Temos uma boa maternidade, que funciona bem, com serviços perfeitamente equilibrados. Vão fechá-la e depois vão mandar as mulheres, episodicamente, para uns apartamentos em Faro. Mas que apartamentos são esses?», interrogou.
protesto_1Entre os manifestantes que protestaram esta tarde sob um sol forte, estavam algumas grávidas, muitas mães cujos filhos nasceram no hospital de Portimão e diversas avós.
O protesto contou ainda com os líderes do Movimento de Cidadãos pela Defesa dos Serviços Públicos de Saúde do Algarve (João Vasconcelos) e da Comissão de Utentes do Serviço Nacional de Saúde (Damião Sequeira), com o presidente da União dos Sindicatos do Algarve (António Goulart de Medeiros), bem como com a presença fugaz de Isilda Gomes, presidente da Câmara de Portimão, e da vereadora Ana Figueiredo.
No final, do protesto foi submetida a votação e aprovada por unanimidade, pelos manifestantes, uma moção a exigir uma «maternidade continuamente aberta» e «a demissão do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Algarve».
«Mães do Barlavento têm direito à maternidade», «Apartamentos para grávidas? Pedro Nunes está louco», «A Maternidade faz falta», «Não à destruição do SNS», eram algumas das palavras de ordem inscritas nos cartazes empunhados pelos manifestantes».

Vanda Duarte, grávida de risco, de Monchique: Isto tudo faz-nos ficar nervosas, com stress, não nos faz nada bem
Damião Sequeira, responsável pela Comissão de Utentes do Serviço Nacional de Saúde, defendeu que é «inadmissível» a proposta do diretor da Pediatria do Centro Hospitalar do Algarve para encerrar maternidade do Hospital de Portimão, argumentando com a falta de pediatras.
Por seu lado, João Vasconcelos, líder do Movimento de Cidadãos pela Defesa dos Serviços Públicos de Saúde do Algarve, disse temer que o encerramento temporário já admitido pelo presidente do CHA signifique, «na prática, o fecho definitivo da maternidade».
protesto_2O possível encerramento transitório daquele serviço, por falta de pediatras, anestesiologistas e obstetras, foi sugerido pelo diretor de Pediatria do Centro Hospitalar do Algarve (CHA) em carta enviada a 2 de julho ao conselho de administração.
Aquele responsável sugeria o fecho temporário da maternidade durante a noite, no mês de julho, e no período diurno em oito dos 31 dias deste mês. O problema, argumentava, é que só existe um pediatra por cada período de 12 horas.
Pedro Nunes, presidente do Conselho de Administração do CHA, disse que não vai aceitar a proposta, mas admitiu a falta de pediatras, dizendo que a maternidade só se mantém aberta devido à «boa vontade» dos médicos de Portimão, que têm que trabalhar mais horas, e dos de Faro, que lá vão ajudar quando é necessário.
O Movimento de Cidadãos já classificou como «hipócritas» as declarações de Pedro Nunes, defendendo que esta posição «diz tudo sobre o pensamento» do administrador do CHA. «Ou seja, se a maternidade não encerra de uma maneira, encerrará de outra! Esta intenção esteve sempre na mira de Pedro Nunes. Como sabe que a sua ordem direta de encerramento seria alvo de uma enorme contestação, tanto por parte dos utentes, como da parte dos profissionais de saúde, tudo vai fazendo, tal como vai fazendo o governo, para que a maternidade “morra de morte natural”».

Clique aqui para ver mais fotos do protesto.

quinta-feira, julho 10, 2014

quinta-feira, julho 03, 2014

Utentes da Via do Infante voltam a protestar junto às casas de férias de Passos e Cavaco

A comissão adianta que deverá ser lançada em breve uma nova petição à Assembleia da República.

ENRIC VIVES-RUBIO

A Comissão de Utentes da Via do Infante (CUVI) anunciou nesta quarta-feira que vai repetir, este verão, acções de protesto na Festa do Pontal e junto às residências de férias de Passos Coelho, na Manta Rota, e de Cavaco Silva, na Praia da Coelha, Albufeira.
Em comunicado, a comissão sublinha que este é o terceiro ano consecutivo em que são organizados protestos junto às casas onde o primeiro-ministro e o Presidente da República habitualmente passam férias, na Manta Rota e na Praia da Coelha, Albufeira.
Os utentes afirmam que a intenção dos protestos, previstos para agosto, em data a designar, é pedir “contas” àqueles governantes pelas “consequências da imposição de portagens no Algarve”, antevendo que ambos continuem a passar férias na região.
“Embora sejam declaradas e consideradas ‘personas non gratas’, certamente que os principais responsáveis pelas portagens não irão fugir, continuando a passar as suas férias na região”, lê-se no comunicado.
Também no mês de agosto, a comissão de utentes estará presente, à semelhança do ano passado, na Festa do Pontal, que se realiza habitualmente em Quarteira e que marca a “rentrée” política do PSD.
Para este mês está prevista uma marcha lenta pela Estrada Nacional 125, no dia 12, entre Faro e Loulé, e a participação no desfile de encerramento da concentração internacional de motos de Faro, no dia 20.
A comissão adianta ainda que deverá ser lançada em breve uma nova petição à Assembleia da República para a suspensão imediata das portagens na Via do Infante (A22).
O calendário de protestos contra as portagens no Algarve agendados para o verão foi enviado para a Comunidade Intermunicipal do Algarve e outras entidades regionais, convidadas a aderir às iniciativas, concluem.
As portagens na Via do Infante foram introduzidas em Outubro de 2011.

A luta contra as portagens no Algarve continua no Verão de 2014

  02/07/2014

Depois de dois anos e meio da introdução de portagens na Via do Infante pelo atual governo e com a continuação da crise, o Algarve persiste em debater-se com um dos seus piores momentos em termos sociais e económicos e sem fim à vista - dezenas de milhares de desempregados, inúmeras falências de empresas, a fome e a miséria teima em alastrar como bola de neve e os acidentes de viação na EN 125 sucedem-se diariamente, diversos com feridos e vítimas mortais. Nestes primeiros meses do ano aumentou o número de acidentes no Algarve, registando-se em média 18 acidentes por dia, a maioria dos quais na EN 125. No Verão, com o grande aumento de tráfego, o número de acidentes dispara exponencialmente, o que perfaz mais de 600 acidentes por mês e mais de 7300 acidentes por ano! Um autêntico estado de guerra e uma verdadeira tragédia na região com, infelizmente, muitas famílias destroçadas! Tudo por culpa do governo PSD/CDS que teima em manter as portagens da desgraça e da morte na A22!
Por outro lado, a requalificação da EN 125 nunca mais recomeça, pese embora as muitas promessas dos responsáveis, verificando-se a última na campanha para as eleições europeias de que a requalificação iria reiniciar-se em breve. A Algarve está farto de promessas e quer ações concretas.
Também é do conhecimento público que a PPP da Via do Infante se encontra envolta em mistério e é deveras muito ruinosa para os contribuintes, mesmo com a cobrança de portagens, apresentando-se deficitária  em muitas dezenas de milhões de euros por ano. Não deixa de ser muito estranho e duvidoso, quando no contrato da Via do Infante o “Anexo 16 – Tarifas” é um carimbo, “CONFIDENCIAL”. Se a página se encontra em branco, o cenário deverá ser negro.
A opção que se apresenta ao Algarve é a continuação da luta pela suspensão das portagens. Essa luta vai intensificar-se neste Verão de 2014. Reunida em Loulé, a Comissão de Utentes da Via do Infante agendou um conjunto de ações anti-portagens a desenvolver durante os meses de Julho, Agosto e Setembro:
- no dia 12 de Julho uma marcha lenta de viaturas pela EN 125 entre Loulé e Faro, com partida junto ao Monumento Duarte Pacheco, em Loulé, pelas 17.30 h, passando pelo aeroporto de Faro.
- no dia 20 de Julho participação na concentração/desfile de motards em Faro, organizado pelo Moto Clube de Faro.
- em Agosto, em datas a confirmar, a Comissão de Utentes irá deslocar-se pelo terceiro ano consecutivo, às residências de férias de Passos Coelho, na Mantarrota, e de Cavaco Silva, na Aldeia da Coelha, pedir-lhes contas pelas consequências da imposição de portagens no Algarve. Embora sejam declaradas e consideradas personas non gratas, certamente que os principais responsáveis pelas portagens não irão fugir, continuando a passar as suas férias na região.
- ainda em Agosto, também em data a confirmar, a Comissão de Utentes fará mobilização e estará presente, tal como no ano anterior, na Festa do Pontal. As portagens no Algarve serão um bom tema para os responsáveis políticos presentes abordarem nos seus discursos.
- brevemente irá ser lançada uma nova Petição à Assembleia da República para a suspensão imediata das portagens na A22. Esta Petição irá incidir, fundamentalmente, sobre os aspetos ruinosos que envolvem a Parceria Público-Privada dessa via.
- a Comissão de Utentes irá informar oficialmente a AMAL e outras entidades regionais sobre o calendário de luta pela suspensão das portagens, convidando-as a aderir a essas iniciativas. O Fórum anti-portagens ocorrido em Loulé já vai há mais de três meses e o Algarve não pode esperar mais tempo. A CUVI continua totalmente disponível para a constituição de uma ampla plataforma regional anti-portagens e, apoiará, todas as ações a favor da anulação das portagens propostas pela AMAL, ou qualquer outra entidade. Acima de tudo estão os interesses do Algarve.
A Comissão de Utentes apela à participação dos utentes e outros cidadãos nas suas ações de luta contra as portagens.

Por Comissão de Utentes da Via do Infante

quarta-feira, junho 18, 2014

Câmara de Portimão vai recorrer da decisão negativa do Tribunal de Contas sobre o Vai e Vem

  A Câmara Municipal de Portimão vai recorrer da decisão do Tribunal de Contas que acaba de recusar o visto prévio ao Processo 94/2014 relativo ao contrato-programa entre o município e a empresa municipal Portimão Urbis, para vigorar no período de 2014-2019, para a “gestão do sistema de transporte coletivo de Portimão – exploração de rede urbana”, vulgarmente conhecido como «Vai e Vem».
Em comunicado, a autarquia portimonense sublinha que «as possíveis implicações desta primeira decisão [do TC] afiguram-se gravosas para a população do concelho de Portimão», pelo que, «independentemente de uma análise mais cuidada» por parte dos juristas da Câmara aos «fundamentos da decisão ora proferida», o município «já decidiu que recorrerá da decisão do Tribunal de Contas».
Segundo a Câmara, com esta recusa do visto por parte do TC, «está em causa a continuidade do sistema de transportes urbanos conhecido como Vai e Vem, que serve anualmente milhares de pessoas, assegurando a mobilidade de uma parte significativa da população de Portimão».
O comunicado adianta que «a recusa do visto assenta fundamentalmente em duas questões», das quais «a primeira resulta do entendimento do Tribunal de Contas de que a empresa Portimão Urbis EM SA não cumpriu, durante os anos de 2010, 2011 e 2012, os critérios da lei, no que diz respeito à necessidade de as receitas próprias da empresa representarem pelo menos 50% das receitas totais, e que por esse motivo deveria ter sido extinta ainda durante o mandato anterior», e, por isso, nem sequer deveria estar agora a estabelecer contratos-programa com a Câmara.
No entanto, sublinha a nota pública, «a Câmara Municipal de Portimão contactou o Revisor Oficial de Contas (ROC) da sociedade, entidade externa que certifica legalmente as contas da empresa, à data dos factos», tendo sido «reafirmado pelo ROC um entendimento diverso do Tribunal – ou seja, a empresa cumpriu todos os critérios a que estava obrigada por lei».
Deste modo, continua a autarquia, «independentemente da decisão política relativa à manutenção ou extinção» da Portimão Urbis, o recurso da decisão a apresentar pela Câmara «será no sentido de refletir e reafirmar a posição do ex-ROC» da empresa municipal.
O segundo motivo para a recusa do visto por parte do Tribunal de Contas prende-se, salienta a Câmara, com «a inexistência de fundos disponíveis por parte da autarquia, obrigatoriedade que decorre da “lei dos compromissos e pagamentos em atraso”, questão que só poderá ser ultrapassada com a aprovação e constituição do Fundo de Apoio Municipal (FAM)», processo que o comunicado salienta que está «neste momento em curso».

Câmara de Portimão alertou primeiro-ministro Passos Coelho
Entretanto, a Câmara de Portimão decidiu dar conhecimento da decisão do Tribunal de Contas ao primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, «alertando para as consequências práticas da “Lei dos compromissos e pagamentos em atraso” e da sua inaplicabilidade para municípios em situação de desequilíbrio financeiro estrutural, como é o caso de Portimão».
Em declarações ao Sul Informação, Isilda Gomes, presidente da Câmara de Portimão, explicou que o objetivo foi «alertar o primeiro-ministro para a necessidade urgente de o FAM ser aplicado, caso contrário municípios como o nosso ficam impossibilitados de fazer seja o que for e mesmo de cumprir as suas obrigações mais básicas».
Na sua nota pública, a autarquia garante que «o sistema de transportes públicos de Portimão Vai e Vem continuará a funcionar em plena normalidade, até que o recurso seja apreciado pelo Tribunal de Contas e que a decisão que daí resulte transite em julgado».
«A Câmara Municipal de Portimão está a trabalhar e a desenvolver todos os esforços para reverter esta decisão», conclui o comunicado.

sábado, junho 07, 2014

Coordenadores do Bloco escrevem "Carta às Esquerdas"

João Semedo e Catarina Martins reafirmam a necessidade de um diálogo aberto entre os que têm participado na luta contra a austeridade, tendo por objetivo a construção de uma alternativa. Leia aqui a "Carta às Esquerdas".
Foto José Coelho/Lusa
Os resultados das eleições europeias de 25 de Maio convocam toda a cidadania à esquerda para uma reflexão urgente sobre o futuro de Portugal e da Europa, o aumento da abstenção e as próprias escolhas de quem se pronunciou. Em Portugal, um dos países europeus mais atingidos pelas políticas de austeridade, a resposta social foi insuficiente para enfrentar a troika e, agora, nas eleições, a polarização à esquerda do descontentamento popular ficou aquém da gigantesca abstenção verificada. As forças da esquerda, em que o Bloco de Esquerda só atinge a eleição de uma deputada, não somam um quinto dos votos. Este tempo apela assim à reflexão sobre o futuro.
Na luta pelo poder entretanto aberta no PS, a crispação entre os dois protagonistas não ilude o compromisso de ambos com as políticas da UE e a aceitação, resignada ou entusiasta, do Tratado Orçamental que impõe mais cortes, promove o desemprego, acentua o declínio nacional e a pressão para o êxodo dos jovens. Quem aplicar esta estratégia governa contra o país e não tem uma política de esquerda.
No caminho para as eleições de 2015, uma esquerda que pretenda protagonizar um caminho efetivamente alternativo para Portugal tem, na nossa opinião, duas obrigações irrecusáveis perante o país: primeira, não dar qualquer apoio a um governo, mesmo que dirigido pelo PS, que prossiga políticas de austeridade como as impostas pelo Tratado Orçamental; e, segunda, construir um amplo campo de recusa das imposições da União Europeia e de concretização de um programa de transformação social fundado no primado dos direitos constitucionais e na universalidade dos serviços públicos. Sobre essa base, é possível uma oposição convergente e reforçada, capaz de afirmar-se como alternativa e de triunfar sobre a alternância estéril.
Ao apreciar os resultados eleitorais na sua Mesa Nacional, o Bloco sublinhou a necessidade de um diálogo aberto entre partidos e forças que lutam contra a austeridade, que saiba juntar energias e envolver cidadãos independentes, ativistas e movimentos sociais, indispensáveis ao esforço para a construção de uma alternativa alargada.
Essa convergência é possível, como ficou à vista nas mobilizações de rua dos últimos três anos, na ação parlamentar comum dos partidos de esquerda, noutras iniciativas várias como os fóruns e ações promovidos pelo movimento sindical. Convergência, também, nas propostas de rejeição do memorando e do Tratado Orçamental e pela reestruturação da dívida, desde o Congresso Democrático das Alternativas até ao Manifesto dos 74 pela reestruturação da dívida.
Pela nossa parte, estamos empenhados nesse percurso de pensamento e articulação com vista a formas de convergência de oposição e de proposta em torno de bases programáticas claras que, gerando mobilização e entusiasmo, permitam ganhar força política, social e eleitoral. A dimensão dos problemas que o país enfrenta exige uma grande convergência das esquerdas. Julgamos que só esse caminho permite abrir um horizonte de esperança a quem não desiste de Portugal.
Catarina Martins e João Semedo
Coordenadores do Bloco de Esquerda

Sobre o/a autor(a)

Esquerda.net 

segunda-feira, maio 26, 2014

Catarina Martins confirma eleição de Marisa Matias

Com a contagem dos votos praticamente terminada, Catarina Martins confirmou a eleição de Marisa Matias. Ainda que sublinhando que o “resultado obtido não foi aquele pelo qual lutámos”, a coordenadora nacional do Bloco frisou que "a representação que a Marisa fará no PE enche-nos de orgulho". A dirigente bloquista felicitou ainda a CDU, PS e MPT pelos resultados alcançados.
 
Foto de Paulete Matos.
“O resultado do Bloco de Esquerda, como sabem, não foi aquele que desejámos e pelo qual lutámos – não elegemos dois eurodeputados – mas elegemos a Marisa Matias. E enche-nos de orgulho a representação que a Marisa fará no Parlamento Europeu (PE)”, avançou Catarina Martins.
“A Marisa Matias foi, é e continuará a ser no PE uma voz convicta, determinada em todas as lutas. Nas lutas contra os mercados financeiros e uma austeridade que tem criado pobreza e desemprego em toda a Europa. Nas lutas pelas liberdades na Europa, em Portugal, em todo o mundo. Na luta pelos direitos humanos, pela cidadania plena para todos e todas. Sabemos que tem sido essa a voz do Bloco no PE, sabemos que com a Marisa Matias assim continuará a ser”, avançou a dirigente bloquista.
A coordenadora nacional do Bloco fez questão de “felicitar os partidos que tiveram bons resultados nestas eleições – o PS, a CDU e o MPT”.
Durante a sua intervenção, Catarina Martins frisou ainda que o Bloco "contará com o contributo de todos e todas” no debate sobre o balanço destas eleições europeias.
Esquerda.net

“Continuaremos a dar muito trabalho à direita no PE”

Marisa Matias diz que o Bloco de Esquerda conseguiu o seu principal objetivo, ao manter a representação no Parlamento Europeu, mas reconhece que não teve um bom resultado por não ter conseguido a eleição do segundo eurodeputado. O Bloco manifestou preocupação com o crescimento da extrema-direita na Europa, mas congratulou-se com o crescimento do Partido da Esquerda Europeia.
Continuaremos o nosso trabalho, sem traições, disse Marisa Matias. Foto de Paulete Matos
Continuaremos o nosso trabalho, sem traições, disse Marisa Matias. Foto de Paulete Matos
A cabeça de lista do Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu, Marisa Matias, disse na Fórum Lisboa, onde o partido realizou a sua noite eleitoral, que, ao garantir a manutenção da representação no Parlamento Europeu, com a eleição de um eurodeputado, o partido conseguiu o seu principal objetivo e, neste sentido, agradeceu a todos os militantes e eleitores que continuaram a depositar a sua confiança no Bloco de Esquerda.
“Quem votou em nós e em nós confiou sabe que vamos continuar o nosso trabalho, sem nos desviarmos, com muitas propostas e sem traições”, disse a reeleita eurodeputada, garantindo que “vamos continuar a dar muito trabalho à direita e a combater as políticas de austeridade no Parlamento Europeu”.
Não foi um bom resultado, reconheceu Marisa Matias, porque o Bloco não conseguiu o seu segundo objetivo, que era eleger João Lavinha e assim manter a mesma representação que antes. Em resposta a uma pergunta sobre as causas desse resultado, Marisa Matias disse que há vários fatores, nomeadamente o surgimento de forças políticas que ocuparam espaços que estavam vazios. Mas a eurodeputada disse-se convicta de que o Bloco levantou as discussões que tinha de levantar nesta campanha.
Marisa Matias sublinhou também que em termos europeus o Bloco vê com preocupação a subida da extrema-direita, mas também festeja o grande crescimento do Partido da Esquerda Europeia.
Esquerda.net 


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domingo, maio 18, 2014

COMITIVA BLOQUISTA NA FEIRA DAS VELHARIAS DE PORTIMÃO
 
A comitiva bloquista portimonense em campanha para as eleições europeias, neste domingo, na Feira das Velharias de Portimão.
 

COMITIVA BLOQUISTA NA VILA DA MEXILHOEIRA GRANDE
 
Comitiva bloquista portimonense de apoio à candidatura "DE PÉ", de Marisa Matias, visitou este sábado a Vila da Mexilhoeira Grande onde contactou com a população e distribuiu materiais de campanha. Também passou pelas Associações locais da Mexilhoeira Grande.
O voto certo no dia 25 de maio é no Bloco de Esquerda, uma Esquerda de Confiança! Uma grande votação no Bloco de Esquerda contribuirá para a derrota deste governo PSD/CDS, que destruíu o país às ordens da troika e que agora concorre com o nome de Aliança Portugal. Votar no PS de Seguro é votar novamente no Sócrates de má memória - aí o temos de novo. PS, PSD e CDS meteram-nos na crise, chamaram e governaram com a toika e quem nos meteu na crise não nos tira dela!
E já agora: onde vão votar os apoiantes de "Servir Portimão"? Agora não têm em quem votar! Acredito que a esmagadora maioria desses eleitores não irá votar na Aliança Portugal do governo PSD/CDS devido às suas políticas de desastre nacional. Certamente também não irão votar no PS de Seguro, Assis e Sócrates. Uma boa alternativa é votarem no Bloco de Esquerda, uma força política de confiança e que cumpre o que promete.

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Que se Lixe a Troika: "Saída limpa, a grande fraude"

O movimento Que se Lixe a Troika (QSLT) ilustra, num vídeo divulgado este domingo na sua página de facebook, o que significou para Portugal três anos de austeridade. Segundo João Camargo, um dos representantes deste movimento, o anúncio da saída limpa é “uma farsa” com caráter “eleitoralista”, classificando de “destruição histórica” o efeito do programa de ajustamento em Portugal.
“Dia 17 de maio, governo, FMI, BCE e Comissão Europeia aliaram-se aos poucos vencedores da crise para comemorar a 'Saída' da Troika. Explicamos aqui brevemente o que significou para Portugal três anos de austeridade. Para a semana já cá estão. Sabemos que não se vão. Nem eles, nem as suas políticas, nem os seus capatazes locais. A luta continua. Que Se Lixe a Troika!”, avança o movimento.
No vídeo, o QSLT lembra que, três anos depois ,“a dívida pública está maior do que nunca", passando de 97,4% para mais de 130% do PIB. Segundo a troika, a dívida não subiria acima dos 108,6% em 2013, tendo a mesma ultrapassado esse valor logo em 2011. O QSLT refere ainda as discrepâncias entre as estimativas sobre o défice avançadas pela troika e a realidade, assinalando que o défice de 2013 só foi cumprido depois de duas revisões. Por outro lado, para que o défice se fixasse nos 4,9%, o PIB sofreu uma redução de 2,58%.
O movimento questiona ainda o chamado “milagre económico”, assinalando que, na realidade, não se verificou um aumento exponencial e inesperado das exportações, mas sim um decréscimo significativo das importações. Na realidade, as “maiores exportações” são outras: a exportação de pessoas, com as políticas de austeridade a “expulsar” 350 mil pessoas do país, e a fuga de capitais.
O vídeo aponta ainda que o número de multimilionários em Portugal tem vindo a aumentar, e que 870 pessoas concentram nas suas mãos mais de 75 mil milhões de euros. Muitas destas fortunas foram alimentadas pelos investimentos nas Parcerias Público Privadas e pela privatização de setores estratégicos e rentáveis como a EDP, ANA, REN e CTT.
“O que não se podia cortar nos juros, tinha de se cortar no Estado Social”, frisa o QSLT, lembrando que a Educação sofreu cortes de 500 milhões e a Saúde de 1630 milhões, e que os cortes nos salários e nas pensões equivalem a 50% do valor total de todas as medidas de austeridade.
“Portugal é o país com os salários mais baixos da zona Euro”, assinalam.
Para além dos cortes, foi promovida a flexibilização, ainda maior, do mercado de trabalho, que se traduziu no aumento desmesurado do desemprego, com a perda de quase 400 mil postos de trabalho. 300 mil pessoas deixaram, entretanto, de ser contabilizadas como população ativa.
“Esta situação criou uma nova miséria histórica”, avança o QSLT, sublinhando que, em janeiro de 2013, 72% dos portugueses não conseguiam pagar as suas contas e que 2 milhões de portugueses vivem com menos de 409 euros por mês.
“E, talvez mais grave, o significado das palavras mudou”, lamenta o movimento, referindo-se ao facto de, perante as sucessivas mentiras do governo e dos credores internacionais, já nada ter qualquer validade ou credibilidade.
“Depois de três anos de mentira, só mesmo uma fraude épica serviria”, remata o QSLT, em alusão à tão propalada “saída limpa".
A 'saída limpa' é “uma farsa” e “uma ficção”
No final de uma conferência de imprensa, promovida este sábado, sobre a saída da troika, o representante do QSLT João Camargo afirmou, em declarações à Lusa, que esta partida é “uma farsa” e “uma ficção”.
“A troika estará cá a partir da próxima semana e, nas visitas regulares que continuará a fazer, agora de seis em seis meses e não de três em três, como até então”, frisou.
Segundo o ativista, estamos perante “uma manobra eleitoral”, já que, “na prática, não há qualquer saída da troika”.
Sobre o programa de ajustamento aplicado a Portugal, João Camargo afirmou que este se traduziu numa “destruição histórica e catastrófica que se cifra na maior migração de que há registo e na maior taxa de desemprego”.
“Esta saída, não só não é uma saída como, a ser, seria tudo menos uma limpa, já que se traduziu na maior transferência da riqueza do país, pelo menos da sua história recente, E tudo isto enquanto aumentaram as grandes fortunas”, vincou.
Esquerda.net

quarta-feira, maio 14, 2014

Ação de campanha Europeias 2014 do Bloco de Esquerda no centro da cidade de Portimão. Uma cidade completamente descaracterizada e a viver uma profunda crise, fruto de décadas de gestão ruinosa do PS e da governação extremista e anti-nacional do PSD/CDS, às ordens da troika maldita. Votar nos candidatos destes 3 partidos será perda de tempo, pois têm sido a desgraça de Portimãoi e do país.
A alternativa é votar Bloco de Esquerda - uma Esquerda de Confiança!
(6 fotos)

Candidatura bloquista "DE PÉ! nas ruas de Portimão.
Continua o contacto com as populações e a distribuição de material de campanha.
A luta continua! Dia 25 vale a pena votar Bloco de Esquerda!
(5 fotos)

domingo, abril 27, 2014



Evocar o 25 de Abril de 1974

Discurso de Pedro Mota, deputado municipal, em nome do Bloco de Esquerda/Portimão


Senhor Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Portimão
Senhora Presidente da Câmara Municipal de Portimão
Senhora Vereadora e Senhores Vereadores
Senhoras e Senhores Membros Assembleia Municipal
Senhores Presidentes das Juntas de Freguesia
Ilustres convidados - Cidadãs e Cidadãos do concelho de Portimão

40 anos passaram desde o dia que marcou o fim de uma ditadura fascista que submeteu todo um povo ao atraso,
à repressão e a uma brutal guerra colonial onde acabou por despoletar a revolta que culminou no 25 de Abril que hoje celebramos em liberdade.
A possibilidade de estarmos aqui, a defender livremente as nossas opiniões e propostas, por muito diferentes e contraditórias que sejam, é consequência desse acto grandioso que em 1974 restituiu a Liberdade e a Democracia ao Povo Português. O que daí resultou a conquista dos direitos explanados na nossa constituição, nos avanços, nas vidas de um Povo que estava amordaçado, oprimido, privado de dignidade e de um futuro.
40 anos passados desde 25 de Abril de 1974, o Povo Português vive, o seu momento mais crítico e difícil.
As conquistas de abril são postas em causa, travadas pelo tribunal constitucional, suprimidos os seus direitos, são impostos sacrifícios incompreensíveis, impondo-se-lhe o pagamento de uma dívida que não contraiu, vive-se num clima de chantagem, de incerteza e de enorme injustiça social, logo estamos perante um retrocesso histórico.
A divida, sufoca milhões de portugueses e portuguesas de todas as idades e com diferentes formações, muitos deles obrigados a deixar o país, tal como os seu pais e avós haviam feito no tempo do antigo regime (Estado Novo).
Ao celebrar mais um aniversário de Abril, importa não esquecer esses tempos tristes e cinzentos, que os atuais poderes internos e externos, parecem querer ressuscitar.
Já não existem hoje a PIDE/DGS e os milhares de presos políticos, submetidos à tortura como forma regular de interrogatórios, por vezes até à morte.
Não existe hoje a censura de lápis azul, mas existe a manipulação das massas por via audiovisual, de forma a formatar o cidadão, que, querem eles, sirva apenas para pagar e obedecer aos desígnios dos senhores do poder.
Em 1974, os direitos à educação, à saúde e à protecção social não eram universais, mas restritos a uma minoria com dinheiro para os pagar. Estamos a regressar a passos largos a esses tempos.
A taxa de analfabetismo baixou significativamente, mas nos tempos que correm e com as restrições e dificuldades que vão sendo constantemente impostas aos portugueses, são difíceis os tempos que se aproximam, mais parecendo que se quer voltar aos tempos de há 40 anos atrás, não no plano dos conteúdos, mas na voragem com que se vão fechando turmas, salas e escolas.
Não era isto que se queria em Abril de 1974 nem é isto que queremos para os nossos filhos.
Com abril desenvolveram-se direitos do trabalho, generalizaram-se os subsídios de férias e de Natal, o subsídio de desemprego e outros mecanismos de protecção social. Direitos, esses, que o novo regime, vai eliminando uns atrás dos outros, com a austeridade que mergulhou o país na recessão e no aumento do desemprego e da dívida.
Aumentam os cortes no Estado Social, no Serviço Nacional de Saúde, na educação, (um pais que não investe na educação nunca sairá da crise e da mão de especuladores), que a somar a mais de um milhão de desempregados, farão disparar a taxa de desemprego para a números que só nos podem envergonhar aos quais de juntam cortes cegos e sucessivos no subsídio de desemprego e nas prestações sociais e o aumento brutal dos impostos.
O Poder local democrático, independente do Poder Central, levou à redução das desigualdades sociais e territoriais entre o campo e a cidade, o litoral e o interior.
Nos dias de hoje, novo ataque ao poder local está em curso, isto é, vão se encerrando organismos públicos tais como centros de saúde, tribunais, repartição de finanças, conservatórias, os concelhos ficam mais pobres sem poder; isto leva a supor o próximo alvo será a junção de muitos municípios, com prejuízo para as populações, e a própria democracia fica em declínio ascendente.
O espírito do 25 de Abril convoca-nos de novo a lutar contra o fatalismo, contra estas “receitas” que, em vez de curarem, aceleram e agravam a doença. Tal como em 1974, é urgente voltarmos a comandar as nossas próprias vidas e a construir alternativas às políticas de empobrecimento.
Para terminar, o Bloco de Esquerda reafirma que estará sempre ao lado de todas e todos os que, ao celebrarem o 25 de Abril e o fim do fascismo em Portugal, se propõem lutar pelos valores e ideais que marcaram aquela data.
Portimão tem estado desde a primeira hora na linha da frente das comemorações dos ideais de Abril, assim nos saibamos manter e com isso saibamos resistir aos ataques que dia a dia nos vão ameaçando.
Só assim vale a pena evocar e celebrar o 25 de Abril.
Não como data de um passado ainda recente, cheia de promessas não cumpridas, mas como realidade sempre presente e capaz de projetar-se no futuro.
O Bloco de Esquerda, homenageia todos os portimonenses que lutaram por abril e aos que combateram na guerra do ultramar, para todos eles um bem-haja.

VIVA O 25 DE ABRIL!
VIVA A PORTIMÃO!

Pedro Mota
Membro da Assembleia Municipal do Bloco de Esquerda

sábado, abril 26, 2014

S Versão para impressão
25 abrilSem o S de socialismo não se entenderiam as paixões e a acesa luta de classes de 74/75 e as referências culturais que transformaram mentalidades antes, durante e depois da revolução dos cravos.

Artigo de Luís Fazenda

"O MFA propõe ao Povo Português o caminho para o Socialismo. E desde logo define o socialismo como o sistema político no qual os meios de produção, a riqueza criada pelo trabalho estão ao serviço das classes trabalhadoras. E sem ambiguidades afirma que a liberdade do indivíduo apenas é possível no socialismo. A liberdade no socialismo. E recusa o sistema capitalista, de exploração do homem pelo homem, incluindo na sua forma mais enganadora, a democracia burguesa, que procurou, através da alienação dos valores humanos, prosseguir essa exploração, recuperando o sistema."
(excerto da declaração da Assembleia do MFA, na noite de 11 para 12 de Março de 1975)

A revolução de 74, e o 75 da luta do povo, não se confinaram, como se apregoa com insistência, aos três D's, de democratizar, descolonizar e desenvolver. Ousou-se ir mais longe, mesmo que muitos o procurem reduzir a um episódio menor ou um acidente de percurso, e o S, de Socialismo, esteve no caminho dos nossos passos.
Sem acentuar este aspeto o 25 de Abril que marcou decisivamente os últimos vinte anos da vida portuguesa ficaria incompreensível.
O Mistério Constitucional
Não se entenderia como se passou de uma Constituição fascista de 33, inspirada numa versão reformista de Mussolini, para uma versão reformista de Marx. Não se entenderia porque a burguesia impôs a via capitalista no quadro dum capitalismo extremamente dependente do capital internacional, desde 76 por três vezes já negou a "carga socialista" da Constituição, em outras tantas "revisões", se prepara para fazer a 4ª revisão, e não desarmará enquanto não impuser uma nova Constituição, inspirada numa versão reformista de um qualquer Popper temperada com encíclicas papais.
Sem o S de socialismo não entenderiam as paixões e a acesa luta de classes e  as referências culturais que transformaram mentalidades antes, durante e depois da revolução dos cravos.
Anestesia
Não se tenciona nestes apontamentos fazer história, apenas dizer alto lá aos corifeus do regime que embrulham o fio do tempo e dos factos num nevoeiro de análises pretensamente científicas, de facto vulgares, destinadas a arranjar desculpas pelos "excessos" de Abril, a anestesiar a participação popular. Eis um exemplo do revisionismo histórico: "Nascida sob o signo de uma revolução sem sangue, a III República portuguesa não pode furtar-se ao legado de quase cinco décadas de totalitarismo e isolamento internacional, nem escapar à influência das clivagens que então rigidamente opunham, de cada um dos lados do muro de Berlim, duas mundividências, dois sistemas, duas visões da Constituição, da lei e da justiça." "Tendo nascido separadas Constituição e Europa puderam tornar-se siamesas, embora com a precisa feição transformada que ambas têm 20 anos depois de 74". Este texto não é de nenhum dador de sangue do Tarrafal ou das colónias, mas de um dos revisores oficiais das letras constitucionais, José Magalhães, atira as "culpas" do radicalismo da Constituição de 76 para Salazar e a URSS, exalta as revisões sem sangue e de bisturi em punho antecipa já o futuro: "De facto nem a Comunidade Europeia é hoje o ser que despontava no Tratado de Roma, nem o ouvido mais apurado conseguirá distinguir no éter os hinos  que em 2 de Abril de 1976 saudaram na Constituição a Magna Carta de um socialismo português. Este facto, ignorado por diversos discursos constitucionais, só por ventura explicável pela persistente fixação a um modelo comunitário já superado (e porventura a uma Constituição já inexistente) e por uma perigosa distância em relação à feição real do ente comunitário". Impante, o autor adivinha (?) uma 'constituição europeia' e um 'foral para portugal' com p pequeno.
Como se pode esquecer a guerra de libertação das colónias que apodrecia o exército do colonial-fascismo? Como podemos esquecer o apoio da NATO a Salazar e Caetano? Como se pode esquecer as conquistas populares de Abril, turbilhão onde "o povo é quem mais ordena", que obrigam a ala esquerda do MFA a sancionar nacionalizações, reforma agrária, comissões de trabalhadores, órgãos populares de base? Como se pode esquecer que a Constituinte legislou sob pressão popular?
O primeiro ensaio da luta pelo socialismo, o S que faltou ao programa do MFA, não foi produto de nenhum arcaísmo pelo isolamento e atraso português, ou a uma imposição do leste. Para democratizar, descolonizar e desenvolver, as massas populares que pretendiam uma sociedade nova confrontaram-se com monopolistas e latifundiários, que eram o esteio do fascismo e do colonialismo, puseram em causa o seu poder e propriedade. A marcha a trás desse processo, operado desde o 25 de Novembro de 75, deve-se, em primeira mão, à matriz ingénua do socialismo dos capitães e, em segunda mão, ao isolamento internacional, incluindo da URSS, a que foi votada a revolução portuguesa, sob ameaça de golpe fascista ou ocupação estrangeira, que pesou na vacilação e entrega dos reformistas civis e militares ao imperialismo de Brandt ou Kissinger.
Tempos e Modos
Hoje vários historiadores procuram fundamentar que o fascismo não era fascismo. Teria sido uma 'ditadura branda', quase 'familiar', autoritarismo vá lá, 'ruralizante',  o totalitarismo do ignóbil e apelidado Estado Novo estaria limitado pelo catolicismo protector da pessoa humana.
Contudo não explicam como a Constituição de 1933,  o Estatuto do Trabalho Nacional, a legislação corporativa (para a "conciliação" do capital e do trabalho) e colonial foram quase decalcados de Mussolini. Preferem ignorar que o fascismo é uma ditadura terrorista do capital financeiro, independentemente da sua forma juridicidade, dimensão e longevidade. Banqueiros e industriais, colonialistas, foram o suporte do salazarismo onde a PIDE e a Censura eram as traves do regime. "Mandadores sem lei" foram os émulos de Salazar e Caetano, a classe dominante. Um povo e um país exilado nele próprio sofreu o capitalismo de miséria e uma opressão contínua. Salazar chamava-lhe a 'democracia orgânica' mas a largura do desejo de eleições livres era do tamanho da 'orgânica de Caxias'. Os cultores do regime incensavam o chauvinismo do império colonial e da raça.
A resistência clandestina, especialmente no pós-guerra, aderiu ao socialismo. O neo-realismo (de facto realismo socialista) moldou a intelectualidade e a cultura de resistência. Catarina Eufémia pode ser um símbolo, tanto quanto os "Esteiros" de Soeiro. O republicanismo e o liberalismo perdiam progressivamente peso na oposição democrática tanto como as correntes culturais descomprometidas do modernismo, surrealismo e outras. Estava criado o cadinho político e cultural, catalizado pelo Maio de 68, nas franças da emigração política, que haveria de sorrir em Abril de 74, com a geração da Inter, dos milicianos e do Zeca.
Passado ou Futuro?
Há quem diga, como Eduardo Lourenço, que "o PREC foi uma revolução póstuma". Segundo o ensaísta afamado, o socialismo teria já perdido a sua aura na Europa e outra Cuba na Finisterra era um anacronismo histórico. Não pensaram assim as potências europeias que tudo fizeram para esmagar no ovo o dito PREC e abriram a porta da CEE logo em 76 por razões exclusivamente políticas. Nesse tempo Portugal estava quotidianamente em toda a imprensa europeia e o exemplo da revolução dos cravos animava a esquerda europeia, desiludida com a social-democracia e com o pseudo-socialismo de Brejnev. Curiosamente, hoje só na imprensa desportiva encontramos referências habituais a Portugal e a crise mais esquerdina que aí se topa é o drible canhoto de Futre.
A revolução não foi póstuma no sentido em que impôs um figurino democrático, mesmo no capitalismo, que é o mais avançado da Europa. E apesar do regime político ser já uma sombra do passado, faz ainda a inveja de toda a esquerda europeia.
A revolução não foi póstuma no sentido em que foi a última grande mobilização nacional, em que os dias eram curtos para a participação nos "impossíveis do futuro". Nada era anónimo, das ideologias às pessoas, das milhentas siglas sabidas de cor, a consciência da necessidade não era virtual, todas as classes falavam a sua linguagem, jogavam tudo na luta. O que Portugal tem de moderno, em padrões 'ocidentais', sindicatos livres, abertura de costumes, igualdade na lei entre sexos, informação mundial, espírito pacifista e democrático, muitíssimo acima dos americanos ou alemães, deve-o ao PREC. Basta pôr o pé no estado espanhol para ver a diferença. Porque a liberdade não se dá, conquista-se. De então para cá, a burguesia nem com o 'mito do sucesso', ou com os sucessivos 'desafios europeus', conseguiu levantar as energias populares numa torrente de transformação.
A revolução foi antes de mais uma revolução antifascista e anticolonial vitoriosa. A revolução foi, depois de tudo, premonitória. O poder que Caetano não queria "que caísse na rua", e Spínola bem soube o que isso era, é sempre um poder frágil quando exercido contra os interesses populares. O PREC foi premonitório de uma vaga de revoluções europeias. A começar pela portuguesa. Vinte anos são apenas um soluço no tempo de incubação de novas energias. Porque será que na França, onde se recolheu Eduardo Lourenço, o espectro do Maio de 68 paira de novo e a palavra anti-fascismo tornou a ter sentido?
O PREC foi premonitório de uma cultura popular, da música e do jornalismo à pintura, do teatro à alfabetização, do jogo popular e do desporto, num múltiplo de registos de "expressão sem condição", de um designo de emancipação social. O fado cantou-se em cima de tractores, Trás-os-Montes foi cinema, Siza fez riscos nos monturos das barracas onde "a cantiga era uma arma contra a burguesia". A guitarra de paredes fez-se ao Mundo.
O país conheceu uma "normalização" prolongada de um regime tecnocrático-burguês. A burguesia fez-se corresponder na lei, sempre com atraso, as diferentes fases: afastamento dos militares democratas da área do poder, o fim das nacionalizações irreversíveis, a submissão da ordem jurídica interna à legislação da União Europeia.
Pequenos Passos
A ficção política agradável à classe dominante tem sido a da estabilidade das instituições. Correspondendo à fraqueza estrutural do capitalismo português extremamente dependente dos oligopólios europeus, o processo político português tem guinado à direita pelo método dos pequenos passos.
Numa primeira fase do jogo parlamentar entre o PSD, o CDS e o PS. Numa fase ulterior, de governamentalização laranja, sempre espaldados no consenso europeu e na vigilância da NATO. Teorizou-se o "Governo ao centro", sempre mais à direita, arrastando a social-democracia para patamares de compromisso também mais à direita. O cavaquismo, por todos os Pachecos e epígonos, teoriza o governo forte, esvaziando a inter-dependência das instituições democráticas prevista no suposto semi-presidencialismo da Constituição. Chega, actualmente, mesmo a sugerir um sistema de eleição indirecta de um Presidente quase sem poderes, e um sistema eleitoral onde na prática ¼ da população, contando com a abstenção, ganharia uma maioria de mandatos na AR. Nem sequer é inédito, desde sempre a burguesia portuguesa fez tradição de governos fortes, nunca foi estruturalmente parlamentarista como a Inglaterra, ou presidencialista como a América dos States.
Vive-se, todos os sentem, o esgotamento do modelo político coincidindo com o modelo económico exportador posto em marcha desde 76. A política à portuguesa, a avaliar pelos jornais, é uma novela de cordel de feira de vaidades dos partidos maiores, onde a resistência da esquerda, a crítica social, as manifestações populares, a crise estrutural, são displicentemente tratadas como marginalidades ou "disfunções" do sistema. O pragmatismo das conveniências da direita e os consensos a qualquer preço da social-democracia, a par com as incertezas duma Europa em aceleração de contradições nacionais e sociais, deixa à generalidade da opinião pública a sensação de falta de futuro e de um jogo de poder viciado que como denunciou há alguns anos Maria Velho da Costa não passa de "marcelismo ácido".
Mais uma vez o subterrâneo cultural prenuncia a ruptura. A última década foi a entrada em cena e em força da aculturação por TV, em geral medíocre, estrangeirada, A elite erudita da direita cultivou o intimismo, o pos-modernismo, e outras variantes de arte mais ou menos cosmopolita, onde o provincialismo mais parolo esquece o país e a sua gente, faz a usura política dos intelectuais e o mecenato de fachada. A direita mais conservadora venera Agustina.
Redescoberta
Mas no mesmo período, acentua-se a redescoberta da portugalidade, na literatura, com Saramago entre outros, na investigação histórica, na movimentação em defesa do património, no enriquecimento da etnografia, na música jovem, na pintura da paisagística, no ensaio, no cinema, no artesanato, na arquitectura. Essa redescoberta da portugalidade, difusa, heterodoxa, é anti-chauvinista, pontapeia complexos e questiona tabus da guerra colonial, da jactância dos fidalgotes que sempre se abastaram das mesas do orçamento, confronta a razão e religião, rapa dos porquês das emigrações forçadas ou da hipocrisia do "ciclo do dinheiro" por que passamos.
Essa cultura que se vai fazendo, desalinhada e aos solavancos, que não tomou ainda a Escola, é a seara nova duma alternativa à 'normalização burguesa' que entope pelo seu pró-imperialismo servil.
Vinte anos depois já se pode ver um novo S, que entretanto aprendeu com o mundo e com o Portugal no sue triângulo atlântico, virá das entranhas da sociedade, não já pelas colónias que mataram o ser, o pão e a vontade, mas pela Europa que aliena a união dos povos e trunca as liberdades.
É escusado retorquir que não passa de um sonho ou bandarrismo gratuito: desafiam-se os analistas que já têm o 'fim da história' na barriga a desnudar as contradições da sociedade portuguesa. Serão capazes?
Luís Fazenda
publicado originalmente no número comemorativo "Abril 20 anos" da revista
Pespectiva. 5 (abril 1994) 10-13.

Ser e não ser – Notas sobre a Revolução portuguesa de 74/75 no seu 40º aniversário

A democracia política em Portugal não foi uma outorga do poder. Foi uma conquista imposta ao poder. O mesmo quanto à democratização social, o direito à greve, a liberdade sindical, o salário mínimo, as férias pagas, a redução do horário do trabalho e os fundamentos de um sistema universal de segurança social. 
Artigo publicado no nº 5 da revista Vírus.
Foto Victor Valente/Direitos reservados.
  1. O movimento militar vitorioso a 25 de Abril de 1974 deu origem, desde o próprio dia, à explosão de um movimento revolucionário de massa, um verdadeiro abalo telúrico que subverteu a ordem estabelecida a todos os níveis da sociedade. Ele tentou criar e articular novas formas democráticas de organização e expressão da vontade popular em milhares de empresas, nos bairros populares das periferias das cidades, nos campos do sul, nas escolas, nos hospitais, nos órgãos locais e centrais do Estado e até nas Forças Armadas. Um movimento revolucionário de massas que no seu processo, nos seus distintos períodos ofensivos, ocupou fábricas, as terras do latifúndio, as casas de habitação devolutas, descobriu a autogestão e o controlo operário, impôs a nacionalização da banca e dos principais sectores estratégicos da economia, saneou patrões e administrações, criou Unidade Coletivas de Produção para a Reforma Agrária e geriu a vida de milhares de moradores pobres de Norte a Sul do país. Um movimento que no seu ímpeto impôs na rua, pela sua própria força e iniciativa, como conquistas suas, as liberdades públicas, a democratização política do Estado, a destruição do núcleo duro do aparelho repressivo do anterior regime e a perseguição dos seus responsáveis, o direito à greve, a liberdade sindical, as bases de uma nova justiça social. Um mundo voltado de pernas para o ar, os 19 meses em que o futura era agora, um curto e raro instante em que as mulheres e os homens comuns, o povo do trabalho e da exploração, sonhou poder tomar o destino nas suas próprias mãos. A isso se tem chamado, e a meu ver bem, a Revolução portuguesa de 1974/1975.
  2. Esta Revolução tem uma primeira e essencial particularidade a que normalmente se dá pouca atenção. É que ela é detonada por um golpe militar de características singulares na longa história dos golpes militares dos séculos XIX e XX em Portugal. Um movimento militar fruto do cansaço da guerra colonial que se arrastava há 13 anos, sem vitória possível e com graves derrotas à vista, travada contra os ventos da história, injusta e a prazo breve ruinosa. Num país impedido pela ditadura de se expressar e decidir livremente sobre este assunto, o descontentamento contra a guerra, numa dessas ironias em que a história é fértil, vai ser interpretado pelos jovens oficiais que a conduzem no terreno, os capitães e majores que comandavam as companhias, unidades matriciais da quadricula da ocupação militar colonial. Ou seja, não é um complot de generais, almirantes e coronéis (até ao fim fiéis ao regime e ao esforço de guerra, salvo raras exceções. É um movimento de oficiais intermédios a que, no processo, aderirão oficiais subalternos e milicianos. Uma conspiração que, no contexto de descontentamento popular crescente e no ambiente político e ideológico da época, rapidamente evolui dos objetivos corporativo-profissionais (que, aliás, o Governo satisfaz em Outubro de 1973) para um propósito político subversivo: de Setembro a Dezembro de 1973, dos plenários de oficiais de Évora ao de Óbidos, o movimento assumira claramente a consciência da necessidade de derrubar o regime. Sem democratização não haveria solução política para acabar com a guerra.
  3. A rápida extensão e politização da conspiração dos oficiais intermédios, o seu controlo ou neutralização da maioria das principais unidades operacionais dos três ramos das FA no país, criava, assim, uma situação não imediatamente percetível mas decisiva: privava drasticamente o Estado e a hierarquia de força militar, ou seja, transformava-a, na realidade, e ao seu juramento de obediência ao regime, numa patética e inútil “brigada do reumático”. Numa cabeça sem corpo e sem consciência de o não ter. Mas retirava esse poder operacional, também, aos raros generais dissidentes convencidos que tinham na mão um golpe militar. As primeiras horas do “25 de Abril” e do seu rescaldo foram uma amarga surpresa tanto para os comandantes hierárquicos como para o general Spínola e os oficiais que o seguiam.
  4. Disto decorre uma segunda característica central: a neutralização/anulação do papel tradicional das FA. A vitória do movimento dos oficiais intermédios, na realidade, rompe a cadeia hierárquica de comando das FA, subtrai-as ao controlo tradicional do Estado e das chefias por ele designadas, dessa forma paralisando a função das FA como órgão central da violência organizada do Estado. Nesse sentido, em rigor deixa de haver FA, sucedendo-lhe – o que era coisa bem distinta -, o MFA, que a breve trecho controlará o essencial do poder militar operacional mais relevante através do COPCON. Neste inicial período spinolista, até à sua derrota em 28 de Setembro de 1974, quando muito, há a luta desesperada dos restos da velha hierarquia (aliás largamente saneada na “noite dos generais” pelos oficiais do revoltosos, logo a 6 de Maio) para eliminar o MFA. A derrota do spinolismo consagra assim essa espécie de anulação das FA como espinha dorsal da violência do Estado.
  5. Convém acrescentar que essa circunstância tem ainda uma outra consequência relevante: a paralisação, pulverização e enfraquecimento geral do poder e autoridade do Estado. O que emerge do golpe militar é um poder poliédrico de competências conflituantes e debilitadas: uma Junta de Salvação Nacional sem poder real nas FA, um Governo provisório sem poderes sobre as FA e com as forças policiais e ministérios paralisados, um Conselho de Estado de competências largamente retóricas e, fora desta lógica institucional (ainda que representada no Conselho de Estado), a Coordenadora do Programa do MFA, única sede de poder efetivo, mas em forte disputa com a fação spinolista nas FA e nos demais órgãos. O velho poder caíra, já não ameaçava ninguém, e deixava um campo indefinido e vulnerável a uma drástica alteração da relação de forças no plano social e político.
  6. Finalmente, assunto que não desenvolverei aqui, o processo que se vem descrevendo tem um outro efeito: a cessação a curto prazo da guerra colonial nas três frentes e a formação, quer nos contingentes em África, quer na opinião pública portuguesa, de um forte movimento recusando novos embarques de tropas para as colónias, exigindo a litoralização do dispositivo militar e o regresso das tropas, pressionando pela imediata abertura de negociações com os movimentos de libertação nos termos por eles apresentados, ou, nas zonas de guerra, substituindo o combate pela confraternização com o “inimigo”. O exército colonial e a opinião pública recusavam-se a continuar a guerra. A descolonização irá ser negociada pelo MFA e o Governo Provisório, sem opinião pública, sem FA e sem apoio internacional para algo que não fosse a autodeterminação e a independência para os povos das colónias.
  7. A conjugação dos fatores acima indicados (o apagamento da função das FA como garante central da “ordem” e a deliquescência do poder do Estado) com a forte tensão política e social acumulada no período final do regime marcelista, origina a explosão revolucionária. O movimento de massas, largamente espontâneo, por virtude de um desses “mistérios” que caracterizam as situações revolucionárias maduras para a ação, teve, na própria manhã do golpe – o emblemático desenlace do confronto na Rua do Arsenal terá tido nisso o seu papel1 – a dupla intuição que podia e devia tomar a iniciativa. A intuição do momento e a intuição da força própria: “é agora, porque agora somos mais fortes do que eles”. A compreensão quase intuitiva de que a correlação de forças, naquele momento indesperdiçável, era favorável à iniciativa popular. E de espectador, o movimento de massas passa a actor principal. Antes do golpe militar, por si só, não obstante a sua força e radicalidade, não conseguiria derrubar o regime. Mas agora agarrava a oportunidade que esse particular movimento militar lhe facultava, entrando de rompante pelas “portas que Abril abriu”. O golpe, ao contrário do que pretendeu a tentativa de A. Cunhal o recuperar para a velha narrativa do “levantamento nacional”2, não era a expressão armada da “insurreição popular” (inicialmente quereria mesmo evitá-la…), não era a explosão revolucionária, todavia, pelas suas características particulares, contribuiria decisivamente para a desencadear.
  8. Na sua imparável dinâmica inicial, entre Maio e Setembro de 1974, o movimento popular revolucionário conquista na rua, nas fábricas, nos bairros populares, nas escolas, nas zonas rurais, muito do essencial: os fundamentos da democratização política, as liberdades fundamentais, a liquidação dos órgãos de repressão e censura política e das milícias fascistas, muito antes de tudo isso ter consagração legal. A democracia política em Portugal não foi uma outorga do poder. Foi uma conquista imposta ao poder. O mesmo quanto à democratização social, o direito à greve, a liberdade sindical, o salário mínimo, as férias pagas, a redução do horário do trabalho e os fundamentos de um sistema universal de segurança social. O movimento de massas fez tudo isso enfrentando com os seus órgãos de vontade popular eleitos em plenários de fábricas ou assembleias de moradores, a oposição sistemática da Junta de Salvação Nacional (JSN), do Governo Provisório (GP) e do PCP e da Intersindical nessa fase investidos em guardiões da “ordem democrática” contra o “esquerdismo irresponsável” (ao jeito da I República, chegaram a convocar manifestações contra as greves). No entanto, foi a força desse movimento que se mostrou decisiva na derrota da 1ª tentativa contra-revolucionária do spinolismo, em Setembro, de alguma forma impondo o MFA como força político-militar hegemónica no processo
  9. A partir de Outubro de 1974, a crise económica, o encerramento ou a pilhagem de muitas empresas pelos patrões em fuga, o disparar do desemprego, alteram e radicalizam os padrões de ação: os trabalhadores ocupam as empresas, e, a partir de Janeiro, as herdades dos agrários alentejanos e do Baixo Ribatejo, experimentam a autogestão ou exigem a intervenção do Estado ou do MFA, ensaiam várias formas de controlo operário e fazem-no através de Comissões de Trabalhadores ou de moradores por si eleitas. Manter as empresas a funcionar, derrotar a sabotagem económica, assegurar o emprego, cedo coloca a questão da nacionalização dos sectores estratégicos da economia (a começar pela banca). O propósito é conquistado no rescaldo da derrota da segunda tentativa contrarrevolucionária dos spinolistas, em 11 de Março de 1975. Aprova-se a nacionalização da banca (na prática dos grandes grupos financeiros) e legaliza-se a Reforma Agrária já em curso. O controlo operário está na ordem do dia. O processo revolucionário parecia dar um passo em frente. Na realidade, era o último.
  10. Efetivamente, o heteróclito campo da revolução iria sofrer, nos meses seguintes, três derrotas sucessivas e determinantes. A primeira, com as eleições de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte. Não são só os modestos resultados do PCP (12,5%), do MDP (4,1%) e da UDP (0,7%): é alteração do critério legitimador do poder em redefinição. Na realidade, com as eleições de Abril 1975 legitimidade eleitoral impõe-se definitivamente sobre a legitimidade revolucionária. E a verdade é que o PS vencera as eleições constituintes com 37,8% dos votos. A revolução não tivera nem a capacidade de as adiar/anular como na Rússia de 1917 (o que era difícil num país onde a oposição fizera das eleições livres a sua bandeira de sempre), nem a força de as ganhar (como o chavismo venezuelano dos nossos dias). É precisamente a partir daqui, desta crise de legitimidade que nem a retórica tutelar do I Pacto MFA/Partidos consegue minimizar, que se inicia a rotura dos sectores intermédios com o processo revolucionário, argumentando contra a hegemonia totalizante que nele tendia a assumir o papel do PCP. Rompe-se o Governo Provisório com a saída do PS e do PSD (unicidade sindical, caso República) e explicita-se a crescente e já indisfarçável desagregação do MFA. A extrema-direita terrorista passa à ação em todo o país contra as sedes e militantes de esquerda e a hierarquia católica distancia-se do PREC a pretexto da ocupação da Rádio Renascença. Inicia-se a mobilização de massa contra o processo revolucionário com os grandes comícios e manifestações convocados pelo PS a favor de uma democracia parlamentar e “europeia” e as concentrações de apoio ao episcopado no Norte e Centro do país. Na realidade, em Julho de 1975, com a formalização do “Grupo dos 9”, está constituído, tendo como eixo os “Nove” e o PS, um campo político-militar de oposição e alternativo ao dividido campo revolucionário que lhe vai disputar, palmo a palmo, as posições-chave no aparelho militar e no Governo, como primeiro passo para o derrotar no plano da mobilização social. Um campo apoiado abertamente pela direita política e dos interesses, por sectores maoistas que reificavam o perigo de um regime tutelado pelo PCP e, mais na sombra, pelas, sabemos hoje melhor, largas ramificações da extrema-direita fascista e terrorista do ELP/MDLP e grupos afins.
  11. Precisamente, a segunda derrota do campo da revolução socialista, em Agosto/Setembro de 1974, é o afastamento generalizado da “esquerda militar”, sobretudo da mais próxima de Vasco Gonçalves e do PCP, não só da liderança do Governo provisório como das fortes posições detidas no aparelho militar: é encerrada a v Divisão, Vasco Gonçalves é afastado de 1º Ministro e impedido de assumir o cargo de CEMGFA, Eurico Corvelo é demitido da chefia do RMN, os “gonçalvistas” são colocados em minoria no Conselho da Revolução perdendo 9 conselheiros, são readmitidos os conselheiros do “grupo dos 9”, o VI Governo é uma clara guinada à direita. Sobram Otelo e o COPCON, mas o cerco a este último núcleo do revolucionarismo militar começa de imediato. O que sai deste embate é uma substancial alteração da correlação de forças a nível político e militar: nas chefias e no Governo, instalam-se agora opositores ao curso revolucionário. Não era o fim, mas era o prefácio do fim
  12. Com o processo revolucionário em curso, deter as cúpulas do poder político e até das chefias militares não era resolver a situação. Havia um movimento de massas disposto a lutar pelo que tinha conquistado. A “contra ofensiva das lutas populares”, como lhe chamará o PCP, será forte e prolongada, mas representa já, não obstante a sua capacidade de mobilização entre Setembro e Novembro, um processo claramente defensivo contra o “avanço da reação” e a iminência de um golpe militar, na realidade, em preparação a partir do “grupo dos 9” e desde a” limpeza” desse Verão. Considerar essa radicalização terminal, quase desesperada e sem orientação clara, como o “momento insurrecional” ou o “assalto final” ao poder do Estado3, parece-me ser uma abordagem que nada tem a ver com a realidade. As importantes mobilizações desse período, de uma forma geral, não colocavam a questão da tomada do poder: reclamavam as posições perdidas (demissão de Corvacho, desativação do CICAP, silenciamento à bomba da Renascença, atentados bombistas…), denunciavam os planos político-militares, esses, sim, ofensivos, do campo contra-revolucionário, em suma, estavam à defesa e tentavam segurar o que tinham obtido. Isso não é incompatível, na ausência de um movimento de massas unificado e de uma direção política clara, com o deixar-se arrastar para a aventura golpista incipiente protagonizada pelos paraquedistas e as unidades do COPCON da Região Militar de Lisboa (RML) com o apoio de certos sectores sindicais afetos ao PCP e da militância da extrema-esquerda (ocupação das bases aéreas, de alguns pontos estratégicos da capital, da RTP e da EN). A 25 de Novembro, isso constituiu o pretexto há muito esperado para se desencadear o contra-golpe militar a sério. O que precisamente é revelador neste contexto é a surpreendente facilidade com que, praticamente sem resistência (excetuando o breve confronto na Polícia Militar), o Regimento dos Comandos subjugou, uma a uma, as unidades rebeldes. As escassas centenas de pessoas que as "defendiam" dispersaram e os seus chefes, disciplinadamente, se foram entregar ao Palácio de Belém. A terceira derrota era, agora, definitiva para o processo revolucionário.
  13. O novembrismo está para a contra-revolução, como o movimento militar de 25 de Abril estive para a revolução. Ele não era a contra-revolução, mas a alteração da correlação de forças que impôs, abriu o campo a que ela paulatina, progressiva e constitucionalmente se instalasse como política dominante da situação pós-revolucionária. Dissimulada e prudente ela entrava pelas portas que Novembro abrira. A 25 de Novembro, o golpe ordena a prisão de 118 militares, saneava da RTP e da EN 82 trabalhadores e demitia as administrações e direções da imprensa estatizada, substituídas por gente do PS e PSD ou militares afins. Ao contrário do que pretendiam a extrema direita e certos sectores da direita, não houve prisões massivas de “vermelhos”, anulação das liberdades públicas, dissolução de partidos ou encerramento de sindicatos ou das suas publicações, O PCP manteve-se no Governo Provisório e a Constituição de 1976 consagraria o objetivo do socialismo, a irreversibilidade das nacionalizações, a Reforma Agrária, o controlo operário e o papel das CT.
  14. Na realidade, o Grupo dos 9 negociara discretamente com o PCP uma contenção pactuada do processo revolucionário (o PCP travara no terreno os ativistas sindicais, os militantes civis e os militares arrastados para a aventura iniciada pelos paraquedistas) o que resultaria num processo obviamente distinto de uma clássica e violenta resposta contra-revolucionária. Um acordo que fazia a economia de uma contra-revolução sangrenta, mas em que os vencedores alteravam as regras do jogo em dois aspetos cruciais: impunham a consagração da legitimidade eleitoral sobre a legitimidade revolucionária e, sobretudo, liquidavam o MFA, repunham a hierarquia tradicional dos FA e, nesse sentido, anulavam a aliança essencial com esse braço armado de que dispusera o movimento popular no processo revolucionário. Regressavam as FA como espinha dorsal da violência legal do Estado. É certo que a revolução terminava. Mas deixava na democracia parlamentar que lhe sucedia a marca genética das suas conquistas políticas e sociais, dos direitos e liberdades que arrancara na luta revolucionária e cuja continuação impusera e defendia na nova situação política. É por isso que a equiparação esquemática que por vezes se faz entre a contra-revolução e a democracia parlamentar4 desconhece que, no caso português, ela é fruto do compromisso com um processo revolucionário que profundamente a marcou. Ao contrário do que afirma a direita política e historiográfica – em curiosa aproximação com o citado ponto de vista – a democracia política não existe em Portugal apesar da revolução, mas porque houve a revolução.
  15. Há, portanto, e um ser e um não ser na revolução portuguesa de 1974/75. Ela teve a força de subverter a ordem estabelecida atingindo os fundamentos do próprio sistema capitalista, mas não conseguiu segurar e, menos ainda, aprofundar essas aquisições num poder socialista durável. Foi travada a meio caminho e perdeu boa parte das suas conquistas mais avançadas na contrarrevolução mansa que se estabeleceu com a “normalização democrática”. Ou seja, foi derrotada pelas formidáveis reações que despertou tanto nacional como internacionalmente. O que conduz à necessidade de tentar analisar, ainda que sumariamente, algumas das suas principais dificuldades de fundo.
  16. Em primeiro lugar, a situação de “duplo poder” criada pelos milhares de órgãos de vontade popular eleitos nas empresas, nos bairros e nos campos do Sul pelos trabalhadores e moradores, nunca se constituiu numa organização nacional una e articulada. Muito menos, na sua dispersão, assumiu maioritariamente uma orientação política clara ou se colocou a questão da tomada do poder. Ao contrário do que acontece nos sovietes da Rússia de 1917 ou na revolução conselhista alemã de 1918/19, não há na revolução portuguesa um “poder popular” paralelo unificado, por isso se não colocou nunca, na prática, a questão de “todo o poder aos órgãos de vontade popular”. Até Julho de 1975 o PCP e a sua estrutura sindical opõem-se às CT e, antes e depois disso, cada grupo político da esquerda radical tem as “suas” CT e CM, as “suas” estruturas de articulação parcial, frequentemente guerreando-se entre si e com as que o PCP cria, finalmente, nesse Verão.
  17. Em segundo lugar, na revolução portuguesa, os órgãos de vontade popular não estão armados, novamente num contraste essencial com as citadas experiências soviética e conselhista. Eles são apoiados por um aliado externo a si próprios, um movimento militar, ou parte dele, ou até por algumas unidades dessa parte, à medida que a esquerda do MFA se vai dividindo e subdividindo. Não há operários, camponeses e soldados em armas como alguns sectores da esquerda radical reclamavam. Aliás, o PCP e as organizações radicais de esquerda mantiveram organizações nas FA mais para influenciar os oficiais do MFA do que para promover o insurrecionalismo dos soldados. Nestes termos, há um processo revolucionário dos trabalhadores externamente apoiado, quando foi, por um movimento de oficiais crescentemente dividido e debilitado. A vulnerabilidade era evidente: se e quando a reação ao processo revolucionário lograsse reenquadrar o MFA na cadeia de comando das FA, eliminando-o, o movimento de massas, mesmo se se mantivesse, perdia a sua indireta expressão armada e subversora, retomando a natureza de movimento reivindicativo sem capacidade de colocar a questão do poder. Passava à defesa. Foi precisamente isso o que aconteceu
  18. Em terceiro lugar, o campo político da revolução estava profundamente dividido sobre a natureza do poder a construir e os caminhos para lá chegar. E não houve, nem uma força claramente hegemónica susceptível de marginalizar as demais, nem a capacidade de encontrar uma plataforma mínima de ação comum (a própria FUP, Frente de Unidade Popular, constituída em 25 de Agosto de 1975 entre o PC e outros 7 grupos, já com propósitos claramente defensivos e sem parte dos maoistas, começa a desfazer-se 3 dias depois com a saída do PCP). A divergência central seria entre a estratégia cunhalista de progressiva ocupação do aparelho civil e militar do Estado, do MFA, das direções dos sindicatos e dos jornais/rádio/RTP, das autarquias, etc… quase sempre à margem de qualquer escrutínio democrático, de “cima para baixo”, e a orientação comum à esquerda radical de criar na luta de classes um “poder popular” capaz de partir ao assalto revolucionário do Estado. Mas mesmo no subcampo da extrema-esquerda, a guerra dos sectarismos em torno da “pureza” revolucionária era generalizada. E tudo isso, claro está, se reflete em cheio na coesão do MFA mais à esquerda, já em rotura com o “Grupo dos 9”.
  19. Na realidade, uma das singularidades da revolução portuguesa que o preconceito ideológico de boa parte da historiografia sobre este período tende a ocultar, é que a extrema-esquerda, mesmo pulverizada e em guerra interna, teve a força social e política suficiente para impedir a hegemonia político-ideológica do PCP no processo, sem, todavia, lograr impor um caminho alternativo. Este impasse no campo da revolução abriu uma guerra no seu seio onde a violência sectária, frequentemente, não foi só verbal, dando lugar a agressões, saneamentos, manipulações e até a repressões massivas na tentativa de eliminar politicamente o campo maoista mais hostil ao PCP5 Este conflituoso bloqueio afastou, naturalmente, aliados sociais instáveis ou desiludidos, evidenciou impotência na resposta, exprimiu desunião e fraqueza, isolou o campo em si mesmo, e nele se hão-de buscar algumas das razões que levam à incapacidade de resistir com sucesso a contra-ofensiva no Verão de 1975 e ao que se lhe seguiu.
  20. Concluindo, pode dizer-se com segurança que a revolução portuguesa não foi um assunto encerrado pelo novembrismo de 1975. A força telúrica que explodiu nesse “dia inicial inteiro e limpo” não bastou para vencer, mas permitiu-lhe, todavia, recuar lutando e condicionar fortemente o que se seguiu. É a partir da defesa, consolidação e alargamento desse património que ainda hoje se define a esquerda portuguesa.

Artigo publicado na revista Vírus nº 5
  • 1. Na manhã do dia 25 de Abril de 1974, na Rua do Arsenal, em Lisboa, tanques da Escola Prática de Cavalaria, de Santarém, aderente ao movimento militar, enfrentou os da Cavalaria 7, comandados pelo brigadeiro Junqueira dos Reis, fiel ao regime. Depois de várias tentativas de conversações, o brigadeiro dá ordem de fogo contra o capitão Salgueiro Maia que comandava a força do RC7. O alferes que chefiava a guarnição do tanque recusa-se a obedecer e recebe voz de prisão. O cabo que, em seguida, recebe ordem idêntica, também desobedece. Parte da força passa-se para os revoltosos e os outros voltam para trás. Tornou-se claro que o regime não tinha força militar que o defendesse.
  • 2. Cf. Álvaro Cunhal, A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (a contra-revolução confessa-se), ed Avante, Lx, 1999, pag. 101 e segs
  • 3. Cf. Raquel Varela, História do Povo na Revolução Portuguesa (1974-1975), Bertrand editora, Lx, 2014, pag. 421 e segs e pags 496 a 498.
  • 4. Ibidem, pag. 482 e segs.
  • 5. A 28 de Maio de 1975, forças do COPCON, sob proposta dos oficiais mais próximos do PCP no MFA, ataca as sedes do movimento maoista MRPP na Região Militar de Lisboa e prende várias centenas de militantes e ativistas, encerrados nas cadeias de Caxias e Pinheiro da Cruz onde serão sujeitos a um tratamento brutal, denunciado pela opinião pública. Serão libertados progressivamente até 18 de Julho de 1975.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, historiador, professor universitário.