sexta-feira, novembro 22, 2013



Portimão, 21 de Novembro de 2013


          ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE PORTIMÃO

 Moção

Repúdio pela retenção de verbas dos Municípios


Considerando que:

  1. A ANMP considera que se verifica no Orçamento de Estado para 2014, em relação às transferências do Estado para os municípios em 2013, uma redução de 50,9 milhões de euros nas transferências para o Fundo de Equilíbrio Financeiro, e uma redução de 17.6 milhões de euros no quadro do IRS.
  2. Ainda de acordo com a ANPP, ficou desde o início da alteração à Lei das Finanças Locais subjacente a manutenção do valor transferido para os municípios, tendo este princípio sido assumido pelo governo.
  3. A Lei do Orçamento de Estado para 2014 prevê a retenção, pelo Estado, de 0,1 % do Fundo de Equilíbrio Financeiro (FEF), constituindo esta retenção uma receita própria da DGAL, não competindo aos municípios o financiamento e o funcionamento dos organismos da administração central, consistindo, por isso, numa grosseira violação da autonomia do poder local democrático.
  4. A verba retida representa uma importante fatia na quebra de receitas do Município com origem no Orçamento de Estado, afectando o equilíbrio das contas e reduzindo a capacidade de investimento municipal.

A Assembleia Municipal de Portimão, reunida em sessão ordinária no dia 21 de Novembro de 2013, delibera o seguinte:

a)      Manifestar o seu forte repúdio contra as gravosas medidas de retenção de verbas dos municípios, incluídas no Orçamento de Estado para 2014, que condicionam fortemente a aplicação do princípio da estabilidade orçamental e do equilíbrio financeiro das autarquias locais, em claro prejuízo da sua capacidade de investimento.

b)      Exigir, tendo em conta que o Orçamento de Estado vai ser submetido a aprovação na especialidade, que sejam suprimidas todas as medidas que reduzam a transferência de verbas para os municípios.

c)      Depois de aprovada, enviar esta moção ao Presidente da República, ao 1º Ministro, aos Grupos Parlamentares da Assembleia da República, à ANMP, à AMAL e aos órgãos de comunicação social.


O Grupo Municipal do Bloco de Esquerda

Pedro Mota
Marco Pereira
Elvira Meco

Observação: Moção aprovada por unanimidade.




Portimão, 21 de Novembro de 2013


ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE PORTIMÃO

Moção

                              Conduta indigna do Presidente do Conselho de Administração do CHA



Considerando que:
           
1.      A constituição do Centro Hospitalar do Algarve pelo governo PSD/CDS significou mais uma degradação do SNS para o Algarve, prejudicando em particular os utentes de saúde de Portimão e de toda a zona Barlavento.

2.      Tal degradação e prejuízo, sob o impulso do Conselho de Administração do CHA, poderá conduzir ao desmantelamento do Hospital do Barlavento Algarvio com o encerramento de serviços e especialidades médico-cirúrgicas na urgência, com o fim da cirurgia ortopédica, de diversas urgências (oftalmológica, otorrino, ortopédica, psiquiatria, gastro), diminuição dos especialistas na urgência pediátrica e levar, a médio prazo, ao encerramento da Maternidade no Hospital de Portimão.

3.      O fecho de diversos serviços no Hospital de Portimão provoca a deslocação diária, deveras cansativa de muitos dos seus funcionários e pessoal médico para Faro, podendo mesmo conduzir a despedimentos inaceitáveis, o que, a verificar-se, agravará e muito as suas condições de vida.

4.      Atualmente vive-se um clima de grande descontentamento, medo e de verdadeiro terror psicológico entre os trabalhadores e funcionários do Hospital de Portimão, pois além da degradação das suas condições de trabalho, vivem na incerteza da deslocação para Faro, ou do desemprego.

5.      Um dos principais responsáveis pela situação acima descrita é o Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Algarve, que tudo indica ter ainda a intenção de encerrar a Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital do Barlavento, de acordo com a denúncia, vinda a público, do contrato para esta Unidade com a Administração Regional de Saúde.

6.      Sobre a morte de uma criança, o senhor Pedro Nunes, Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Algarve, emite um comunicado onde, de forma indigna e caluniosa, afirma que os culpados da morte da criança, são todos aqueles que se têm oposto às suas políticas de destruição do Hospital do Barlavento, conforme se passa a citar: “A haver culpados são todos aqueles que não perdem uma oportunidade para denegrir a imagem do hospital vilipendiando todos os abnegados funcionários públicos que nele trabalham. A haver culpados estes são todos aqueles que por interesses económicos, de evidência social ou da mais rasteira política, não hesitam em lançar a desconfiança, o medo e o desespero nas pessoas. São todos esses que nunca perdem uma oportunidade para atingir os seus fins os verdadeiros, mas indirectos, culpados pela tragédia. Que lhes pese na consciência!”.

De acordo com os considerandos acima expostos, a Assembleia Municipal de Portimão, reunida a 21 de Novembro de 2013, delibera o seguinte:

a)      repudiar, de forma veemente e inequívoca, as declarações contidas no comunicado emitido pelo Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Algarve.

b)      considerar que com tal comunicado indigno, a acrescentar à sua gravosa atuação anterior, o senhor Pedro Nunes perdeu quaisquer condições para continuar a presidir ao CHA e solicitar, por conseguinte, que se demita do cargo.

c)      depois de aprovado, este documento deverá ser enviado aos Presidentes de Câmara do Algarve, ao presidente da AMAL, aos Grupos Parlamentares da Assembleia da República, ao Ministro da Saúde e ser divulgado pela comunicação social.



O Grupo Municipal do Bloco de Esquerda

Pedro Mota
Marco Pereira
Elvira Meco

Observação: Moção aprovada por maioria, com 15 votos a favor (3 BE, 3 CDU e 9 PS), 4 votos contra (PSD) e 4 abstenções (CDS/Servir Portimão).

terça-feira, novembro 19, 2013


Foto de Bloco de Esquerda Algarve.

domingo, novembro 17, 2013

PROPOSTAS BE-PTM NA REUNIÃO DE CÂMARA (1)




Na reunião de Câmara que teve lugar no passado dia 12 de Novembro de 2013 o Vereador eleito pelo Bloco de Esquerda apresentou três propostas cujo conteúdo apresentamos a seguir assim como os resultados das respectivas votações. Como se verifica, os bloquistas de Portimão já meteram mãos à obra rumo ao cumprimento das promessas feitas em campanha eleitoral. Podemos constatar que, no essencial, os partidos do arco da troika estão unidos nas questões mais importantes, contra os interesses das populações que deveriam defender.
                              Proposta sobre a taxa do I.M.I. a aplicar no ano de 2014
Considerando que:
           
1.   A manutenção de taxas elevadas, ou o aumento destas, contribui para agravar dramaticamente a qualidade de vida da generalidade dos munícipes do concelho, já a braços com uma profunda crise que eles próprios não provocaram.
2.   Quer a redução de verbas a atribuir ao poder local por parte da administração central, quer os financiamentos pretendidos pela Câmara Municipal, não podem servir de justificativo para esta continuar a impor taxas pesadas sobre os seus munícipes.
3.  O governo retirou a cláusula de salvaguarda ao IMI no Orçamento para 2014, implicando que o IMI vai subir para chegar ao valor actualizado nas recentes avaliações de imóveis, aumentando ainda mais as dificuldades de quem comprou casa e se viu confrontado com um imposto muitas vezes superior ao esperado.
4.   Muitas Câmaras Municipais, nomeadamente do Algarve, cobram valores de I.M.I. muito mais reduzidos em relação àqueles que se praticam no Concelho de Portimão e ainda, aplicam valores de majoração ou de minoração sobre determinadas áreas, neste último caso como forma de combate ao isolamento e à desertificação.
5.   Uma diminuição da taxa do I.M.I., mesmo pequena que seja (face aos compromissos assumidos pelo Município), significará aliviar as dificuldades das famílias e dos cidadãos portimonenses, em particular os de menores recursos. Por outro lado, esta medida permitirá estimular a economia local e, consequentemente, as pequenas empresas, reduzindo a carga fiscal que se apresenta bastante onerosa.
6.  A diminuição da taxa do I. M . I. ainda mais se impõe, tendo em conta a situação muito difícil em que vivem as famílias no actual contexto de crise, com a elevada carga fiscal a que já foram submetidas e que vai ser brutalmente acrescida para o próximo ano, com mais cortes nas pensões e nos salários por parte do governo PSD/CDS.
Com base nestes pressupostos propõe-se, para os prédios urbanos localizados no Município de Portimão, a redução das taxas de 0,8% para 0,7% e 0,5% para 0,4%, respetivamente, para os imóveis enquadrados na alínea b) e c), do nº 1, do artigo 112º, do anexo I, do Decreto – Lei nº 287/2003, de 12 de Novembro – Código do Imposto Municipal sobre Imóveis, a partir de 1 de Janeiro de 2014.
O Vereador do Bloco de Esquerda
João Vasconcelos
Observação: Proposta reprovada, com 3 votos contra (PS, PSD e CDS) e  2 votos a favor (BE e CDU). A troika a funcionar em Portimão.
                                                  Por um Algarve Livre de Portagens
Considerando que:
  1. Passados quase 2 anos sobre a introdução das portagens na Via do Infante, pelo governo, a 8 de Dezembro de 2011, os resultados desta medida trágica estão à vista de todos: agravamento dramático da crise social e económica no Algarve (uma região que vive quase exclusivamente do turismo), com inúmeras falências e encerramentos de empresas e cujo desemprego já atinge cerca de 80 000 pessoas; perda acentuada da competitividade da região em relação à vizinha Andaluzia; a mobilidade na região regrediu cerca de 20 anos, voltando a EN 125 a transformar-se numa via muito perigosa, com extensas e morosas filas de veículos e onde os acidentes de viação se sucedem, com diversos feridos graves e vítimas mortais; as portagens também violam tratados internacionais sobre cooperação transfronteiriça, como o Tratado de Valência, assinado entre Portugal e Espanha e de onde deriva a Euroregião Algarve-Alentejo-Andaluzia;
  2. Por outro lado, o tráfego na Via do Infante sofreu uma quebra drástica, com uma redução à volta de 70%, elevando-se os prejuízos para a Estradas de Portugal em muitos milhões de euros;
  3. Outra situação inaceitável são as obras de requalificação da EN 125 que se encontram paralisadas, não se sabendo quando recomeçarão;
  4. Também é do conhecimento público que a Via do Infante foi construída como uma via estruturante para combater as assimetrias e facilitar a mobilidade de pessoas e empresas, com vista ao desenvolvimento económico e social do Algarve.
  5. A Via do Infante não apresenta características técnicas de auto-estrada e foi construída fora do modelo de financiamento SCUT, em que maioritariamente foi financiada com dinheiros da comunidade europeia.
6.      O concelho de Portimão, as suas populações e empresas também estão a ser duramente atingidas pela imposição das portagens, particularmente os utentes da Via do Infante e que se deslocam para outras paragens. Muitos turistas deixaram de frequentar a cidade e outros locais do concelho, com manifesto prejuízo económico, social e cultural.
De acordo com o exposto, o Executivo da Câmara Municipal de Portimão, reunido no dia 12 de Novembro de 2013, aprova o seguinte:
a)      Reprovar a decisão da introdução de portagens na Via do Infante, visto constituir um grave erro histórico muito negativo e que está a contribuir poderosamente para onerar os contribuintes e para o desastre económico e social do algarve, (incluindo o concelho de Portimão), estrangulando o seu desenvolvimento.
b)     Exigir ao Governo que anule esta ruinosa Parceria Público Privada e que proceda à suspensão imediata da cobrança de portagens na Via do Infante.
c)      Apelar à AMAL, autarcas, associações empresariais, sindicais, cívicas e outras forças vivas do Algarve, para que constituam e reforcem uma ampla plataforma da sociedade civil do Algarve pela suspensão imediata das portagens.
d)     Enviar esta moção ao 1º Ministro, ao Ministro da Economia, ao Presidente da República, ao Presidente da AMAL, aos Grupos Parlamentares da Assembleia da República e divulgá-la pela comunicação social.
O Vereador do Bloco de Esquerda
João Vasconcelos
Observação: Proposta aprovada por unanimidade (3 PS, 1 PSD, 1 CDS, 1 BE e 1 CDU).
                                            Criação de uma Plataforma de Emergência Social
Considerando que:
  1. A grave crise que atualmente assola o país atinge, muito em particular, as pessoas de menores recursos e mais indefesas, assim como as micro e pequenas empresas.
  2. As políticas da troika e do atual governo provocaram novos pobres e agravaram de forma dramática as dificuldades económicas e a exclusão social de muitos milhares de famílias e que não param de aumentar.
  3. O agravamento das dificuldades económicas e da exclusão social tem a ver, em grande parte, com o elevado aumento do desemprego, com o corte de salários e de pensões, com a retirada do RSI a milhares de famílias e do abono de família a centenas de milhares de crianças e jovens (46 mil famílias perderam o direito ao rendimento social de inserção em 2011, 30 mil em 2013, e 500 mil crianças e jovens ficaram sem abono de família entre 2009 e 1012).
  4. O OE para 2014 é a continuação, para pior, do brutal aumento da austeridade, recaindo esta em 82% sobre as famílias, salários e pensões e apenas em 4% sobre a banca e os grandes grupos económicos.
  5. Devido às políticas acima referidas, muitas famílias correm sério risco de pobreza no concelho de Portimão. Muitas outras vivem já na pobreza e na exclusão social, com dificuldades de toda a ordem: alimentar, a nível de medicamentos, de habitação, endividamento, de emprego, etc. E a tendência é de agravamento destas dificuldades.
Perante o exposto, torna-se necessário combater, com urgência, a situação de calamidade social que também atinge o concelho de Portimão. Assim, o Executivo da Câmara Municipal de Portimão, reunido no dia 12 de Novembro de 2012, aprova:
a)       a criação, urgente, de uma Plataforma Contra a Exclusão, passando pela constituição de um Gabinete de Emergência Social que responda às situações sociais mais prementes, envolvendo a Câmara, as Juntas de Freguesia, as escolas, as IPP’s e outras instituições que compõem as redes sociais do concelho.
b)     a criação, urgente, de Refeitórios Sociais Municipais nas diversas freguesias do concelho, como forma de combate à carência alimentar e à exclusão social.
O Vereador do Bloco de Esquerda
João Vasconcelos
Observação: Proposta retirada, visto a Presidente de Câmara afirmar que o assunto já estava em andamento, nomeadamente uma rede de emergência social e que incluía refeitórios sociais. Vamos estar atentos o que acontece nos tempos mais próximos.

“A esquerda pode e deve neste século XXI tornar-se a primeira força na Europa” Versão para impressão
alexistsiprasHoje, quando a crise resolve tudo, considero que não existe quadro capitalista neoliberal único no qual os nossos adversários tentem submeter aos mercados o direito social ou qualquer relação social de forma metódica e sistemática. Eles não têm plano estratégico mas sim um único objectivo: a salvação dos bancos.

Artigo de Alexis Tsipras, líder do SYRIZA.

Assistimos nos últimos tempos a um movimento inédito e entusiasta de solidariedade com o nosso combate contra as políticas ultra austeritárias na Grécia. As forças do Partido da Esquerda Europeia (PEE) e, em particular, a direcção e os militantes da Front de Gauche em França, uniram-se para ajudar o SYRIZA nesta batalha difícil, crucial e histórica que atingiu o seu auge no decurso dos dois escrutínios eleitorais de Maio e Junho de 2012.
À medida que a atenção e as esperanças se viraram para a Grécia e para o resultado histórico do SYRIZA, muitos camaradas continuavam a perguntar-nos como tínhamos conseguido atingir este resultado entusiasmante. Desejo trazer aqui algumas reflexões, não para propor um "modelo de sucesso" acabado, mas para estimular o diálogo sobre o presente e o futuro das forças que compõem o PEE e sobre as estratégias nacional e europeia.
No fundo, o SYRIZA sublinhou aquilo que nós já tínhamos tido em conta desde há anos.
Muito poucos se tinham até então verdadeiramente interessado pelo "fenómeno" SYRIZA. Todavia, em alguns meses, conseguimos marcar a história política contemporânea. Porquê? Na minha humilde opinião, foi porque nos consagrámos às lutas sociais, porque de forma constante seguimos uma orientação fundada na análise da realidade económica, política e social, mas também porque tivemos a coragem de ultrapassar as mentalidades e os conceitos estabelecidos, inclusive os nossos.
Nestas últimas décadas, a esquerda grega passou por provas extremamente difíceis e dolorosas. Uma esquerda grega que, desde a queda do muro de Berlim e do "socialismo real" tinha passado mais tempo a digladiar-se que a estabelecer convergências para contra atacar a ofensiva capitalista. Porém, desde o começo desta ofensiva sem precedente, envolvemo-nos nas lutas sociais, quer nas espontâneas quer nas organizadas.
A hegemonia não se ganha num domingo de eleições. Ela conquista-se na e através da luta social. Os resultados eleitorais na Grécia estão profundamente ligados às evoluções sociais. Se não conseguimos tornar-nos ideológica e politicamente hegemónicos nos espaços sociais, não seremos capazes de obter resultados positivos.
Desde a derrocada do "socialismo real", a esquerda foi historicamente classificada como uma força crítica do capitalismo. E bem, em minha opinião. Mas isso não basta. Duma força crítica, devemos igualmente tornar-nos uma força com uma perspectiva alternativa.
Ao longo destes dois anos, fizemos valer e pôr em evidência de maneira persistente na Grécia, uma proposta alternativa de caminho e de conjugação para a construção de uma transição política. Falámos de um "bloco do poder" composto por forças que existem no quadro mais largo da esquerda progressista e radical, "da esquerda da social-democracia à esquerda da esquerda", com o objectivo comum de destruir os ataques neoliberais. Logo que lançámos esta ideia, fomos tratados com desdém e desprezo, porque as sondagens de opinião mostravam que se tratava de uma opção marginal e utópica. Persistimos, apesar de tudo, porque esta era, para nós, a única alternativa. À medida que a ofensiva do capital se mostrava cada vez mais dura e desumana, aquilo que ontem parecia utópico e louco, tornou-se realista.
Pela primeira vez, desde 1974, não éramos nós que determinávamos a nossa estratégia em função das dos nossos adversários, as da social-democracia e da direita tradicional, mas eram eles que estabeleciam as deles em função da nossa. Por outras palavras, o elemento crucial que nos tornou capazes de representar as classes e os grupos sociais "politicamente órfãos" (aqueles cujos interesses sociais não são representados pelos dois "partidos do poder") foi o apoderarmo-nos de uma força de contestação para transformá-la numa força que trabalha para a mudança.
Antes de falar sobre a nossa estratégia, a estratégia nacional e europeia da esquerda para enfrentar a ofensiva capitalista e vencer a crise, algumas palavras sobre a estratégia dos nossos adversários.
Coloquemos a questão: os nossos adversários têm uma estratégia? Depois da 2ª Guerra Mundial, as forças capitalistas que desejavam manter as contradições na base dos modos de produção capitalistas, tinham um plano: a reconstrução da Europa, a regulamentação, a criação de estruturas de protecção social e de desenvolvimento, mas também a manutenção do antagonismo entre capital e trabalho. No curso dos anos 90, quando o neoliberalismo prevaleceu, também se podia identificar uma estratégia: a de entregar e submeter todas as estruturas políticas e instâncias de decisão ao poder dos mercados.
Hoje, quando a crise resolve tudo, considero que não existe quadro capitalista neoliberal único no qual os nossos adversários tentem submeter aos mercados o direito social ou qualquer relação social de forma metódica e sistemática. Eles não têm plano estratégico mas sim um único objectivo: a salvação dos bancos.
Vê-se bem que os centros de decisão ultrapassam os quadros nacionais e regionais. E não sei se podemos falar duma estratégia capitalista comum que seria definida pela senhora Merkel ou pelo presidente dos Estados Unidos, quando existem agências de notação e instituições financeiras – aquilo a que chamamos o capitalismo financeiro – que tomam as decisões e têm mais poderes que as nações. Há um ano, por exemplo, uma delas desvalorizou a nota dos Estados Unidos. Tratou-se de mostrar quem manda hoje. Neste sentido, poderíamos dizer que o capitalismo financeiro mundial tem uma estratégia. Mas para quem é dos Estados ou das entidades regionais, como a União Europeia (UE), parece que os nossos adversários não têm uma estratégia clara, mas que são movidos apenas pelo pânico.
À medida que a crise se agrava, a UE é levada a dissolver-se na mesma proporção e confronta-nos com este oximoro: somos nós, a esquerda europeia, a força que faz a crítica estrutural dos tratados europeus, da UE, do tratado de Maastricht e da arquitectura da União monetária; somos nós a força que procura manter a Europa viva, enquanto os nossos adversários fazem o melhor possível para a dissolver!
O principal argumento contra o SYRIZA, quer no interior quer no exterior do país, sobretudo durante a segunda campanha eleitoral, era que, se tomássemos o poder, isso conduziria a Grécia para fora da zona euro e, eventualmente, iria mesmo destruir a zona euro. Na verdade, se havia uma esperança para a Grécia, mas também para a zona euro e para a Europa, era que fosse o SYRIZA a trazê-la. Era a única esperança de provocar um choque criativo salutar na Europa não apenas para os Gregos mas para todos os povos europeus. Pois se fôssemos a uma cimeira da UE seria para recusar a austeridade e levar a cimeira a decidir por uma estratégia alternativa de saída da crise em vez de perseverar no impasse actual.
A capacidade do SYRIZA de ir contra o problema real da Europa foi bloqueada por ofensivas inéditas. Quando Slavoj Zizek (2) veio apoiar-nos, usou uma bela imagem ao comparar-nos a Tom e Jerry. Para ele, o SYRIZA é o rato que irrita constantemente o gato que anda pelos ares até que o rato aparece: este indica-lhe que não há chão debaixo dos seus pés e então o gato cai a pique. Eis no que se tornou a Europa. Ela anda pelos ares; as forças dominantes recusam reconhecer que as suas medidas a conduzem à ruína. Nós seríamos assim o rato que revela ao gato selvagem do capitalismo europeu que as suas políticas são ineficazes.
Mas então, se os nossos adversários não têm estratégia, como podemos batê-los? Seguindo-os? Não. Copiando-os? Também não. A esquerda europeia não se deve limitar à crítica legítima, mas conceber uma estratégia alternativa e um plano e determinar a agenda (a ordem do dia).
Não se trata de regressar a 2007, antes do estalar da crise do crédito imobiliário nos Estados Unidos, pois esse modelo de produção e de consumo conduz à crise. Nós devemos ultrapassar esse modelo e oferecer uma visão, trazer uma sociedade que responda às necessidades sociais, discutir o socialismo sem medo nem culpa por tudo o que se passou nos ditos "verdadeiros regimes socialistas" que nada têm de comum connosco. Devemos falar em nome de um socialismo do século XXI, um socialismo contemporâneo de reconstrução dos modos de produção, de redistribuição social das riquezas no plano nacional e supranacional.
Vivemos uma época de guerra assimétrica. Esta guerra não é só dirigida contra os povos da Europa do Sul. Estes últimos não são senão as cobaias de uma crise internacional e europeia numa experiência que produz um modelo político europeu com objectivos universais. A crise vai atingir o coração da Europa e devemos tomar consciência, a partir da experiência grega, que o conflito vai ser muito difícil.
Devemos ser reactivos e eficazes na resposta à extensão dos prejuízos que os nossos adversários tentam criar, a fim de estimular a destruição social. O populismo tornou-se o melhor aliado do neoliberalismo. Não há maior mentira do que o preconceito dos "povos preguiçosos do Sul" que "viveram acima dos seus meios". Devemos desmontar esta mentira e difundir a mensagem: estamos todos debaixo de mira.
O exemplo grego mostra que é mesmo preciso esquecer o quadro legal burguês tal como o conhecemos. Os poderes legislativo, executivo e judiciário estão às ordens da mediocracia moderna, desses homens de negócios adulados pelo Estado em nome do "são espírito de empresa" que beneficiaram de fundos públicos durante todos estes anos, caso contrário, transferiam as suas empresas e fortunas para o estrangeiro. Um exemplo em pequena escala do que prevalece de forma idêntica em toda a Europa.
É por isso que é preciso que desde já promovamos uma estratégia alternativa que tenha em conta a insuficiência das formas e das ferramentas clássicas. A grave crise de representação significa que os movimentos sociais devem ser a nossa prioridade, não para os manipular, mas porque são elementos essenciais da nossa política que, em certos casos, pode ser dirigida por eles.
Enfim, sem acção coordenada no plano europeu, não poderemos ir em frente. O nosso sucesso na Grécia revelaria ser um fogacho se nos tempos mais próximos não se multiplicassem exemplos e experiências semelhantes através da Europa. Temos necessidade de grandes conquistas sociais e também de vitórias eleitorais na Holanda, em Espanha, na Itália, em França, na Alemanha... em todo o continente. Se não o conseguirmos, nós os Gregos passaremos a ser uma "aldeia gaulesa" isolada.
Temos necessidade de coordenação, de comunicação e de objectivos comuns e estou convencido de que no futuro poderemos dar vida ao slogan "SYRIZA por todo o lado", não como um modelo ou uma receita ideal para "copiar-colar", mas como uma experiência de cooperação plural, de união de diversas culturas políticas progressistas e de convergência em toda a Europa.
A esquerda pode e deve neste século XXI tornar-se a primeira força na Europa.

Prefácio de Alexis Tsipras ao livro "Maintenant Prenez le Pouvoir" de Pierre Laurent, secretário-geral do Partido Comunista Francês e Presidente do Partido da Esquerda Europeia
A Comuna

96 anos após a Revolução soviética de 1917 Versão para impressão
leninrussianrevolutionA revolução de 1917 concretizou a utopia dos explorados, tornou-se realidade. Outro mundo era possível, sem explorados, nem exploradores, em que o caminho para um 'mundo de pão e rosas' se abria como uma possibilidade real e um objectivo final, que parecia ao alcance de uma geração.

Artigo de José Casimiro
Marx com Engels ao elaborarem o "Manifesto do Partido Comunista", deram um contributo e exerceram uma influência decisiva no movimento operário e comunista embrionário de meados do século XIX, marcando uma época que atravessou os tempos. O socialismo científico e a luta de classes como o motor da história e a missão histórica do proletariado de derrube do capitalismo e de construção do socialismo.
O século XX, inicia-se praticamente, com o triunfo na Rússia da Revolução Socialista, sob a direção do Partido Comunista liderado por Lenine, foi há precisamente 96 anos, no dia 7 de Novembro de 1917.
A revolução triunfante em 7 de novembro, abriu uma nova época no mundo na história da humanidade. O socialismo tornou-se uma das contradições essenciais da época, ao lado da luta de classes entre o capital e o trabalho, do conflito entre o imperialismo e os povos e nações e das próprias contradições interimperialistas, de que resultaram as revoluções nacional-libertadoras dos povos colonizados, é o cunho que marca o século XX.
A Revolução de 1917 teve grande impacto político e ideológico, decisivo para a derrota do mais feroz inimigo da humanidade – o nazi-fascismo – e para a criação do que ficou designado como o «bloco socialista de leste», a revolução chinesa, cubana e vietnamita.
Ao comemorarmos mais um aniversário da Revolução Russa e do proletariado mundial, importa fazer uma "análise concreta de situação concreta" (Lenine)
A revolução de 1917 concretizou a utopia dos explorados, tornou-se realidade. Outro mundo era possível, sem explorados, nem exploradores, em que o caminho para um 'mundo de pão e rosas' se abria como uma possibilidade real e um objectivo final, que parecia ao alcance de uma geração.
Para os comunistas, a Revolução triunfante em 1917 será sempre uma fonte de inspiração nos combates que realizamos, sob novas condições, na resistência à feroz ofensiva do sistema capitalista contra os trabalhadores e os povos e para abrir caminho à nova luta pelo socialismo.
Em 1989, ruíu o antigo bloco soviético, assistiu à queda brutal do socialismo real e à vitória dos EUA e do capitalismo a nível mundial. A derrocada é o produto da derrota do socialismo face ao capitalismo, através de um longo processo de fossilização do marxismo, e de apodrecimento total das diferentes nomenklaturas dos outrora partidos comunistas e dos Estados socialistas.
Quem morreu com o socialismo real não foi o comunismo, nem o marxismo. Foi a sua fossilização pelo dogmatismo. E foi necessária a derrota, para que o debate de ideias e as transformações começassem nos comunistas, um pouco em todo o mundo.
A acensão do neoliberalismo e do imperialismo global
A crise económica mundial de 1973/5 trouxe no seu seio um capitalismo em profundas transformações assentes numa revolução técnico-científica, transformações  que visavam a superação da crise em que se encontrava atolado e, ao mesmo tempo, superar e derrotar o comunismo mundial.
O imperialismo global trouxe-nos um mundo dominado pela superpotência Estados Unidos, em tríade, com a União Europeia e o Japão. Emerge, entretanto, os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) que nada muda, sobre a evolução e o carácter do imperialismo global. Por ocasião da Cimeira de Copenhaga (2009), o G2 (China-EUA) consolida-se como novo eixo do imperialismo, com a deslocação do centro geopolítico e geoeconómico para o pacífico, a Europa perde posição no xadrez global.
A década de 80, trouxe-nos ainda, com a revolução informática, o início profundas transformações no mundo do trabalho nos países mais avançados do capitalismo. Duas décadas de grande salto tecnológico, com a automação, a robótica e a microelectrónica que elevam como nunca a produtividade, operando cada vez mais a substituição de trabalho vivo por trabalho morto.
A política neoliberal no comando veio acentuar a tendência para a individualização das relações laborais, para a segmentação e/ou estratificação dos trabalhadores, para a precarização laboral e mesmo para a marginalização do trabalho e do social. O movimento dos trabalhadores enfrenta uma profunda ofensiva ideológica, com convicções abaladas que urge superar; a perda momentânea de perspectivas de transformação social coloca novas dificuldades à tarefa de unir os trabalhadores.
A passagem progressiva dos padrões produtivos tayloristas e fordistas às formas flexíveis de produção estabeleceu novas formas de organização na empresa, possibilitando melhores condições de trabalho e um novo enquadramento do trabalhador, com conhecimentos ampliados. No entanto, no quadro da globalização capitalista, tais perspectivas são reduzidas à disponibilidade permanente do trabalhador e a sua subordinação aos valores da "cultura de empresa". Uma classe trabalhadora mais jovem, com maior capacidade intelectual e potencialidades para compreender a exploração a que é sujeita, está em melhores condições de reforçar a sua centralidade no processo produtivo.
As alterações no mundo laboral têm-se vindo a acelerar, em resultado da internacionalização dos processos produtivos, da divisão internacional do trabalho, da cooperação internacional e consequentes tendências de integração - marcas do desenvolvimento civilizacional mas também de uma forte polarização social.
Afirmar a centralidade e unidade do trabalho em que o proletariado se amplia e produz novas formas de criação do valor, é uma tarefa dos comunistas na luta pela transformação social e o socialismo. È fundamental caminhar para a fusão do movimento das ideias socialistas, com o movimento espontâneo do proletariado, em que o partido comunista é a sua materialização, para as necessárias, novas respostas revolucionárias.
Vivemos em dias da "barbárie" do capitalismo austeritário, de uma brutal exploração do trabalho e de uma tranferência, sem precedentes, dos rendimentos do trabalho para o capital, assumidos pelo governo PSD/CDS e pela troika.
96 anos após a Revolução soviética de 1917 e 163 anos após o "Manifesto Comunista" a luta do proletariado pela afirmação do socialismo científico e a luta de classes como o motor da história, pelo derrube do capitalismo e a construção do socialismo, permanece perfeitamente atual.
Com o seu modestíssimo contributo, a UDP – AP vai prosseguir na sua tarefa, "quer faça sol, quer faça chuva!", indispensável para o Bloco de Esquerda: a sua existência e a sua identidade própria de corrente comunista que promove o resgate, o aprofundamento e atualização permanentes do marxismo, através da revista "A Comuna" e de outros instrumentos de divulgação. A atualização das teses sobre o imperialismo, a crise do capitalismo, a revolução, o Estado de direito socialista e o pensamento marxista sobre as várias contradições sociais e as lutas emancipatórias são tarefas coletivas a prosseguir.
A Comuna

segunda-feira, novembro 04, 2013

OIT defende aumento do salário mínimo e reforço do RSI

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em total contraste com as políticas adotadas pelo governo português e recomendadas pela troika, defende o aumento do salário mínimo nacional e o reforço do Rendimento Social de Inserção (RSI), como medidas para o combate à crise, à pobreza e ao desemprego em Portugal.
Para a OIT é fundamental adaptar os benefícios da proteção social, o que passa por reforçar a dotação do Rendimento Social de Inserção (RSI) e o aumento do salário mínimo nacional. Foto de Paulete Matos
A Organização Internacional do Trabalho, num relatório divulgado nesta segunda-feira em Lisboa, defende diversas medidas contra-cíclicas, que em tudo contrariam as orientações do Governo português e da troika.
Desde 2008, com o inicio da crise, um em cada sete empregos foram destruídos em Portugal, sendo os jovens e as famílias com crianças mais pequenas os mais afetados. A organização afeta à ONU defende que com a mobilização de alguns recursos do erário público, que rapidamente seriam compensados num curto prazo, a economia portuguesa poderia recuperar o crescimento económico e a criação de emprego, se adotar uma outra receita.
Para a OIT é fundamental adaptar os benefícios da proteção social, o que passa por reforçar a dotação do Rendimento Social de Inserção (RSI) e o aumento do salário mínimo nacional.
Diz a organização que “reforçar o RSI significaria alterar a tendência recente de reduções no orçamento atribuído a esta política de combate à pobreza e à exclusão social extremas, reforçando-se sobretudo a atenção dada aos agregados familiares com crianças. Poderá ser eventualmente considerada a articulação do RSI com os programas já existentes de proteção social para crianças".
No tocante ao salário mínimo, a OIT diz que “poderia ser considerada a atualização do salário mínimo nacional de modo a evitar um novo aumento das desigualdades salariais e, indiretamente, das desigualdades de rendimento. Do mesmo modo, o IAS (Indexante de Apoios Sociais) deveria ser atualizado no mesmo sentido.”
O relatório também sublinha a importância da valorização da negociação coletiva a fim de “construir um ambiente que permita que os salários e as condições de trabalho evoluam em linha com a produtividade, ao mesmo tempo que favorece a recuperação do emprego”.
Neste sentido, critica a reforma laboral de 2011 que provocou “uma redução geral da cobertura das convenções coletivas, aumentando assim a pressão para a redução dos salários e contraindo ainda mais a procura interna”.
A falta de acesso ao crédito das pequenas e médias empresas também é assinalado pela organização, que destaca que “mais de um quinto das pequenas e médias empresas referem que o acesso ao crédito é o seu problema mais premente – daí resultando menores oportunidades para a criação de emprego -, e, quando obtêm novo crédito, veem-se obrigadas a pagar sobre esses financiamentos taxas de juro que rondam os 5,5%, comparativamente com os 2% o que são cobrados na Alemanha e noutros países da zona euro”.
A fim de facilitar a criação de emprego e reduzir o desemprego, a OIT sublinha que devem ser aplicados mais meios e recursos para a promoção de políticas ativas no mercado de trabalho. Neste âmbito, é assinalado que estas medidas dependem somente de vontade política, que passaria por diminuir a taxa de juro em 1,5%, o que permitiria estimular o consumo e o investimento. O que segundo cálculos apresentados criaria 64 500 empregos e reduziria o desemprego em 1,2% até finais de 2015.
Uma outra segunda medida passa pela promoção de meditas ativas de emprego, que estimulariam a criação de 43 500 empregos e reduziriam a taxa de desemprego em 0,8%. No curto prazo esta medida aumentaria a despesa e o défice fiscal, no entanto, relembra a OIT “à medida que o desemprego for estabilizando e posteriormente diminua, as despesas com subsídios de desemprego diminuirão e a base fiscal aumentará”.
Segundo a organização esta propostas permitiriam “uma diminuição do rácio da dívida pública/PIB .
A OIT deixa ainda uma crítica às orientações políticas gerais do governo e alerta para a insipiência do aumento recente das exportações e do crescimento económico momentâneo: "a política orçamental tem sido orientada para uma rápida redução dos défices, os quais haviam atingido proporções alarmantes. As medidas de reestruturação do sector público contribuíram diretamente para o desemprego. Os cortes nos salários e nas prestações sociais, combinados com certos aumentos fiscais, desgastaram os rendimentos das famílias e a procura interna. Também as empresas foram afetadas pelas condições macroeconómicas excecionalmente apertadas que prevaleceram desde 2011."
Esquerda.net

sábado, novembro 02, 2013

8 DE NOVEMBRO

26 de novembro será Dia Nacional de Indignação,Protesto e Luta

O Secretário Geral da CGTP-IN, Arménio Carlos, anunciou na jornada do 1º de novembro, em São Bento, a realização de uma manifestação para o próximo 26 (uma terça-feira), de novo frente à Assembleia da República, dia da votação final global do Orçamento do Estado para 2014. Será um Dia Nacional de Indignação, Protesto e Luta", com greves, paralisações e concentrações em todo o país. Recorde-se que esta ação foi decidida pelos participantes na jornada de 19 de outubro (Marchas de Lisboa e Porto), tendo reafirmado o enérgico protesto dos trabalhadores "contra o roubo dos feriados" (caso do 1º de novembro, dia de "Todos os Santos"), "contra o roubo na retribuição e no descanso compensatório".
A CGTP-IN sublinha a necessidade de combater a proposta do Orçamento de Estado/2014, que destrói o emprego, rouba salários e pensões, corta na saúde, na proteção social e na educação, aumenta a austeridade, a recessão e a dívida, hipoteca o futuro do país e condena a sociedade ao empobrecimento.
O Governo está em rota de colisão com a Constituição da República Portuguesa, alerta a Central,que acrescenta que não é a CRP que tem de se ajustar à ditadura dos mercados ou de se subjugar aos ditames do memorando da troika, mas sim o Governo e o Presidente da República que têm de respeitar e fazer cumprir a Lei Fundamental do país.
“Porque nós somos homens e mulheres de palavra, a CGTP-IN, nomeadamente, o seu conselho nacional reunido esta semana, decidiu propor a esta grande manifestação a realização de um dia nacional de indignação, protesto e luta para o dia 26 de novembro, com greves, paralisações e concentrações em todas as regiões”, referiu Arménio Carlos na tribuna improvisada.
Manifestantes oriundos de diferentes zonas do país, incluindo professores e educadores - viam-se bandeiras da FENPROF e dos seus Sindicatos -rejeitaram este Orçamento de Estado, pelo que ele contêm de medidas que são a continuação da ofensiva exploradora e de empobrecimento dos trabalhadores e reformados e pensionistas mas, também, de outras camadas da população, para além de constituir mais um passo no ataque às funções sociais do Estado, aos serviços públicos e ao Poder Local Democrático.
A continuação do protesto e da luta contra o roubo dos feriados, as medidas gravosas introduzidas no código do trabalho e a imediata reposição dos direitos roubados aos trabalhadores, que o Tribunal Constitucional declarou inconstitucionais e o prosseguimento do combate contra a política de direita, por uma política alternativa, exigindo a demissão do Governo e a convocação de eleições antecipadas, foram notas salientes nesta jornada do 1º de novembro, tanto nas palavras de ordem e nas intervenções ouvidas, como nas mensagens dos pano e cartazes empunhados pelos manifestantes.
Rejeitar o OE, exigir a demissão
do Governo


Para o dia 26 de novembro a CGTP propõe “a realização de uma grande jornada de luta, que ainda vai ser maior do que esta aqui, para dizer nesse dia que enquanto os deputados da maioria estão a aprovar o Orçamento do Estado, nós estaremos aqui para o rejeitar, para exigir a demissão do Governo e reclamar a realização de eleições antecipadas”,afirmou o sindicalista.
“Aprovando eles este Orçamento do Estado, hoje podemos assumir aqui um compromisso coletivo: mesmo com a aprovação na generalidade, vamos continuar a rejeitá-lo”, sublinhou Arménio Carlos.
O dirigente sindical apelou à intervenção do Presidente da República para que solicite a fiscalização preventiva do Orçamento junto do Tribunal Constitucional.
“É preciso que o PR ouça aquilo que os portugueses dizem e utilize todos os mecanismos ao seu dispor para assegurar a Constituição da República Portuguesa”, declarou Arménio Carlos.
O Secretário Geral da CGTP-IN deixou a garantia de que a CGTP não vai baixar os braços.. “Aqui vos garanto! Se o Presidente da República não solicitar a fiscalização preventiva, a CGTP-IN vai solicitar aos partidos da oposição para que avancem com a fiscalização sucessiva”, assegurou o líder da central sindical.
A proposta de Orçamento do Estado para 2014 foi aprovada na generalidade pela maioria PSD/CDS-PP, com votos contra de toda a oposição e do deputado do CDS eleito pela Madeira, Rui Barreto.
Fenprof

A propósito do guião sobre o programa de desmantelamento das funções sociais do Estado na vertente "Educação"

O dito guião da reforma do Estado terá de ser lido à luz das que têm sido as políticas do governo, as medidas que as concretizam, os programas eleitorais de PSD e CDS, o programa do governo, o memorando da troika, os últimos orçamentos do Estado e a proposta de OE para 2014. Tudo isto dá origem a uma mistura explosiva que poderá, a breve trecho, pôr em causa o futuro de Portugal. Já não apenas da Escola Pública ou da Administração Pública, mas do Portugal que resultou de Abril, daquele que se funda na CRP, do que permitiu construir um Estado com funções sociais importantíssimas para a generalidade da população.
Este “guião”, no que à Educação diz respeito, não poderia ser mais esclarecedor, logo no título, quanto aos seus objetivos – Educação: propostas de autonomia, liberdade de escolha e escolas independentes.
Ainda no que se refere a esta área, tal como às demais, as coisas começam a ficar muito claras logo nos capítulos introdutórios, seja no que se refere ao futuro da Escola Pública e ao papel do Estado na área da Educação, como às próprias condições de trabalho, sociais e laborais dos seus profissionais. Senão vejamos alguns exemplos:
1.2 Condicionantes da redução da despesa
“…não há qualquer possibilidade de superar a emergência financeira sem reduzir a despesa pública; e não há qualquer possibilidade de reduzir a despesa pública sem ter impacto nos salários das Administrações Públicas e nas aposentações do Estado” (pg 11);
“…não se vislumbra outra possibilidade de comprimir a despesa neste sector que não seja revendo, com proporcionalidade e em função dos rendimentos, os níveis salariais praticados” (pg 15).
E se estes excertos têm a ver com a situação salarial dos funcionários públicos, logo, diretamente dos docentes das escolas públicas e indiretamente do setor particular e cooperativo, outros aspetos há em que, segundo o atual governo, deveria existir um entendimento entre todos, ficando claro que esse entendimento se deveria orientar para um ataque forte aos trabalhadores e aos serviços públicos que eles servem. Eis alguns exemplos:
1.5 Consensos para uma política de Administração Pública
- A constitucionalização da chamada regra de ouro da disciplina orçamental que obrigará a políticas de austeridade para os trabalhadores a manter-se por um tempo que não tem fim à vista;
- Uma grande redução do número de funcionários públicos que, alegadamente, passariam a ser mais bem pagos;
- Flexibilização do vínculo do trabalhador em funções públicas com o Estado;
- Condução a um tempo infinito para que se possa, gradual e progressivamente, recuperar rendimento dos funcionários e aposentados do Estado;
- Criação de um programa permanente de rescisões por mútuo acordo;
- Cada vez maior promoção do trabalho a tempo parcial e da reforma a tempo parcial;
- Nova revisão dos modelos de avaliação dos funcionários públicos;
- Fixação de objetivos de contratação, não tanto numa lógica de carreira mas de postos de trabalho… (pgs 23 a 27)
Mais à frente, é confessado o objetivo “mudar de modelo” e, no conjunto de considerações sobre o conceito de reforma, podemos ler:
2.1 Mudar de modelo é diferente de cumprir metas
- Reformar o Estado é continuar a privatizar e, portanto, retirar o Estado de participações empresariais que não fazem parte das suas funções nucleares (pg 29). Todos sabemos que para o atual governo estas funções nucleares não incluem a Educação.
- Reformar o Estado, é reforçar a política de concorrência para garantir a função reguladora numa economia de mercado (pg 31)
- Reformar o Estado, é também democratizar a autonomia das escolas e reforçar a autoridade do professor no novo estatuto do aluno. Concluiu-se um regime descentralizado de gestão escolar e a rede escolar teve de ser reordenada, tendo em conta as contingências demográficas e territoriais. Fez-se uma opção pública pela exigência, com a instituição de exames nacionais no final dos ciclos escolares, reforço do Português e da Matemática nos currículos e densificação nas metas curriculares. Estabeleceram-se critérios de transparência na gestão dos recursos da ciência e de maior justiça no estatuto do bolseiro de investigação. (pg 33)
- Reformar o Estado é, na área social, desenvolver uma política de maior contratualização com as IPSS (pg 33)… que se prepare o Pré-Escolar para o ataque.
Ainda no plano geral, podemos ler o seguinte:
3.1 Nem estatização nem Estado mínimo
…a contratualização de uma oferta mais diversificada, a concessão de serviços e bens, a “gestão pela sociedade ou pelas comunidades” de novas responsabilidades, são alguns desses instrumentos que, com o devido enquadramento legal, podem e devem ser maximizados. (pg 44)
Ou ainda:
3.4 Agregar municípios, mais descentralização de competências
Preparar novo processo de transferência de competências da Administração Central para os municípios e as entidades intermunicipais (pg 51).
É, pois, neste contexto de definição de um novo modelo social, que assenta em políticas de matriz claramente neoliberal, que surgem as propostas concretas para a Educação. Estas, no essencial, confirmam o programa eleitoral do CDS-PP que o PSD acompanha sem esforço.
O que se advoga para a Educação é, numa só palavra, privatizar. Isso fica claro, como se afirmou atrás, na própria designação do capítulo sobre a Educação. Este capítulo inicia-se logo com uma afirmação hipócrita e cínica, como é timbre do MEC, decerto a sede em que foi escrito: “A função educativa do Estado é primordial e não está – nem estará – em causa. É, aliás, uma das mais importantes do ponto de vista da visão alargada do Estado Social, pois ajuda como nenhuma outra na construção de uma sociedade com oportunidades, superação de desigualdades sociais e qualificação dos jovens”. Tudo isto é verdade, mas as políticas que são desenvolvidas por quem escreveu tal afirmação negam em absoluto o texto. Depois, o que surge, como medidas concretas, afinal, limita-se a ser mais do mesmo mas em doses reforçadas:
- A Municipalização através de “verdadeiras concessões de escolas”. Temos aqui uma clara intenção de continuar a desresponsabilizar o poder central em matéria de Educação e de, através deste processo de municipalização (concessões de escolas), também desenvolver linhas de privatização, por contratualização dos municípios com empresas privadas, como, aliás, já acontece com as AEC.
- Avançar com um maior número de contratos de autonomia como outra forma de transferir responsabilidades, neste caso não para os municípios. mas para as próprias escolas. Como se sabe, não se trata de autonomia no plano pedagógico, pois nessa matéria o MEC não abdica de ditar as regras para constituição de turmas, autorização de projetos ou colocação de docentes e pessoal não docente.
- Criação de escolas designadas por independentes. No ano passado, o CDS promoveu debates internacionais sobre o assunto e até se provou que, afinal, os resultados dos alunos das escolas privadas não eram melhores do que os das escolas públicas. Se o MEC pretendesse que fossem os professores a gerir as escolas públicas, já teria adotado um regime de gestão democrática e não continuaria a afastar os professores da gestão das escolas e a desvalorizar os órgãos em que os professores participam, seja o Conselho Pedagógico, sejam as diversas estruturas intermédias de gestão. O que teríamos, se isto avançasse, seriam alguns “testas de ferro” em representação dos grupos empresariais que atuam no setor (GPS e companhia). Na verdade, o que o governo pretende é livrar-se das escolas e dos seus profissionais. Esta é matéria de duvidosa constitucionalidade, cuja fiscalização deverá ser por nós suscitada junto das instâncias adequadas, caso avance o projeto.
- O novo ciclo de contratos de associação, que só pode ser lido como o alargamento desta contratualização até que se esgotem as capacidades dos colégios. Quanto ao final deste ponto, é apenas mais uma mentira que: “Como é sabido, globalmente, as escolas com contrato de associação respondem bem nos rankings educativos”.
- Depois aparece a intenção de regulamentar e aplicar efetivamente o novo Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo. Ou seja, mais um parágrafo de preocupações com o privado. Deveremos, no que concerne a este estatuto (que, entretanto, o PR já promulgou), insistir junto dos grupos parlamentares para que requeiram a fiscalização sucessiva da sua constitucionalidade.
- Depois é a preparação da aplicação do chamado cheque-ensino. Outra mentira destes governantes. Ainda há 2 meses, quando se dizia, a propósito do estatuto do EPC, que se tratava da tentativa de implementar cheque-ensino, negaram e acusaram quem a isso se referia de estar a tentar enganar as pessoas. Aí está agora. A mentira vive na 5 de outubro e no Palácio das Laranjeiras (neste caso, duplamente).
- Há também a indispensável referência ao desenvolvimento do ensino profissionalizante e da sua vertente dual (aí está o modelo alemão) que culminará no novo ensino politécnico com cursos de ciclo curto. Teremos, provavelmente, os 40% de jovens, até 2020, com um diploma superior, não se esclarece é “superior a quê?”. O que António Nóvoa apontava como um erro que não deveria ser cometido parece estar em vias de se cometer: para o público fica a missão social – a tal grande escola profissional de segunda qualidade – e para o privado o acesso ao conhecimento. Reprovável esta opção.
Por fim, oposição tenaz e luta tremenda ao que este “guião” procura promover é o que podemos prometer, mas sem deixarmos que o “guião” retire clarividência na definição das prioridades da intervenção sindical. Sem dúvida que, neste momento, o OE para 2014 não poderá ser desvalorizado face a este “guião”, até porque se trata de um instrumento importante deste programa de desmantelamento da Escola Pública, sendo a que, no imediato, o governo, a maioria PSD / CDS-PP e o Presidente da República estarão mais empenhados em levar por diante.
Urge, da sociedade portuguesa, levar por diante uma forte luta em defesa das funções sociais do Estado. A FENPROF, assumindo as suas responsabilidades, continuará a divulgar profusamente a Carta Aberta que aprovou em defesa da Escola Pública e assume a responsabilidade de ajudar a unir vozes e a construir convergências em torno deste nobre objetivo.
Para uma leitura conjunta e cruzada, junta-se a tomada de posição sobre a proposta de Orçamento do Estado para 2014, bem como a Carta Aberta divulgada pela FENPROF.
O Secretariado Nacional da FENPROF
2/11/2013