sábado, julho 26, 2008

Rendimento Moderno Garantido

O excelentíssimo presidente do PP declarou ontem que "há um Portugal que trabalha" e que "depois há demasiada gente a viver do RMG (Rendimento Mínimo Garantido)". Lembrei-me logo daquele Janeiro de 1999 em que Paulo Portas teve um acidente com um Jaguar "para uso funcional" que custava aos alunos da Universidade Moderna centenas de contos por mês, esses alunos filhos do mesmo "Portugal que trabalha". Como é conhecido na altura havia "demasiada gente" na Moderna a viver da chulice pura e crua dos estudantes, dos filhos do "Portugal que trabalha". Que resultados dignos de uma universidade produziu a Moderna? Publicou quantos artigos científicos? Quantas empresas de ponta saíram da Moderna? Que contributo decente trouxe para a sociedade civil?

O caso Moderna provocou desemprego, danos financeiros gravíssimos para alguns estudantes que se viram obrigados a mudar para outra universidade e produziu diplomas com o carimbo Moderna que muitos licenciados hoje em dia têm vergonha de mostrar numa entrevista de emprego. É pena não ter estado presente no local um desses estudantes, filho do "Portugal que trabalha", no momento em que Portas tem a lata de fazer declarações deste calibre. Seria a ocasião ideal para um tomate podre bem arremessado.
In Klepsydra

Itália declara Estado de Emergência Nacional contra a Imigração

Imigrantes atravessam perigosamente o Mediterrâneo em frágeis embarcações
O Conselho de Ministros italiano aprovou nesta sexta feira a declaração de Estado de Emergência em todo o país, devido ao "persistente e excepcional afluxo de cidadãos estrangeiros não pertencentes à União Europeia". A proposta foi apresentada pelo ministro do Interior, Robert Maroni, que pertence à Liga Norte, o aliado de extrema-direita de Berlusconi.
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Esquerda.net

Tribunal trava ilegalidades na Quinta da Rocha criar PDF versão para impressão enviar por e-mail

Intervenções ilegais na Quinta da Rocha são contestadas desde 2005O Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé deu provimento à providência cautelar interposta pela Associação A Rocha para travar as ilegalidades que têm vindo a ser cometidas na Quinta da Rocha, uma zona protegida integrada na Ria de Alvor, junto a Portimão. O Grupo de Acompanhamento da Ria de Alvor divulgou um comunicado sobre o tema, considerando a decisão "histórica".

"Trata‐se de uma decisão histórica em termos de jurisprudência ambiental, uma vez que vem proibir um acto continuado de destruição e não uma decisão administrativa ilegal, como usualmente acontece", pode ler-se no comunicado distribuído pelo Grupo de Acompanhamento da Quinta da Rocha, que integra várias organizações de defesa do ambiente.

O documento hoje tornado público lembra que "desde a Primavera de 2005 que os novos proprietários da Quinta da Rocha têm vindo a ordenar intervenções que resultaram em enormes danos ambientais numa zona protegida pelos mais elevados estatutos de protecção ambiental, nacionais e comunitários. Destas intervenções resultaram a destruição de espécies e habitats prioritários, a destruição completa de um sapal com habitats protegidos, a remoção selectiva de bioindicadores de habitats protegidos e ainda um enrocamento não autorizado em zona costeira".

"Com esta providência cautelar, os proprietários ficam agora proibidos pelo tribunal de reiniciar qualquer tipo de actividade, obra ou trabalho nas áreas onde se encontram espécies protegidas, ou com incidência nessas áreas, sob pena de incorrerem em crime de desobediência".

O Grupo de Acompanhamento da Ria de Alvor tinha avançado no mês passado com uma acção no Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé, que agora lhe veio dar provimento. O Grupo de Acompanhamento integra as associações A Rocha, Almargem, Liga para a Protecção da Natureza, Quercus, Sociedade Portuguesas para o Estudo das Aves e GEOTA.

Esquerda.net

sexta-feira, julho 25, 2008

O ANARQUISMO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL

OS EXÓRDIOS DO ANARQUISMO PORTUGUÊS

Pier Francesco Zarcone


1. O contexto do século XIX

Pelo menos até aos anos '70 do século passado foi essencialmente agrícola a economia de Portugal e muito pobre a grande maioria da população - analfabeto, mantida debaixo de uma capa de superstição induzida por uma religiosidade feita de medo e credulidade em milagres imaginários: uma sociedade de classes que - durante todo o século XIX tinha no seu vértice a monarquia enfraquecida da dinastia Bragança, obtusa e parasita como a aristocracia local.

Portugal (e igualmente Espanha) não recuperou nunca da perda do seu grande império colonial e comercial no ultramar, que conseguiu criar através as grandes descobertas geográficas na África, Ásia e América e as navegações oceânicas dos séculos XV e XVI; império que os seus competidores e rivais de Inglaterra e Holanda corroeram progressivamente.

Nos dois Estados da península ibérica as classes dominantes fizeram lucros enormes pelas pilhagens no primeiro período das conquistas e depois pelos comércios e pela exploração dos recursos naturais e da mão de obra nativa e escrava nos territórios do ultramar; igualmente também pelo tráfico maciço de carne humana capturada em África que se prolongou por séculos.

Contudo, os enormes capitais realizados (por poucas pessoas) foram desperdiçados, quer na pompa e na vida luxuosa, quer na construção de obras monumentais, às vezes pouco utilizadas (como o palácio real e convento de Mafra financiado pelos metais preciosos extraídos no Brasil) ou inacabadas (como a basílica da Estrela em Lisboa).

Estes capitais, por outras palavras, não foram transformados em instrumentos para o desenvolvimento económico do país, e por conseguinte não houve nenhum processo de passagem da fase primitiva de acumulação a uma fase - embora inicial - de produção industrial.

Todos os gastos improdutivos da corte, da nobreza e dos ricos deram vantagem só aos produtores e comerciantes estrangeiros que vendiam as custosas mercadorias requeridas pelas oligarquias portuguesas: e foram estes produtores e comerciantes os que realmente extraíram daqui uma vantagem estrutural, usando aqueles lucros avultados para financiar o desenvolvimento industrial dos seus próprios países.

A consequência foi que, depois do fim do seu período de grande poder marítimo e comercial, Portugal ficou dominado pelo capital estrangeiro (ou seja, o britânico). Só no fim do século XVIII e no começo do século XIX houve um mínimo de actividade industrial, com todas as características do capitalismo quando não tem o contrapeso de um movimento operário forte: salários de fome e horários de trabalho penosos.

Por causa da situação geral do país, o processo de formação dum movimento operário desenvolveu-se muito devagar. Não se esqueça que a massa da população estava submissa a um cristianismo terrorista espalhado pelo clero católico e que até a 1821 operou em Portugal aquela ferramenta poderosa de controle social e das consciências - assimilável só à ditadura de Estaline - que respondeu ao nome de Santa Inquisição.

De qualquer maneira - e como em todas as sociedades rurais qualificadas de "arcaicas" - as populações rurais constituíram ao longo do tempo e sempre que possível, formas de ajuda mútua, como as "Irmandades", mais ou menos organizadas ou, às vezes, informais. O que, em concreto, criou na população certo um nível de sensibilidade social: pelo menos, no sentido de que, numa série de circunstâncias da vida (construção de uma casinha modesta, morte de um parente, trabalhos para a colheita, reparações após fogos ou tempestades, etc.) nas aldeias, a maioria dos habitantes do país podia contar com a ajuda dos vizinhos.

Uma sacudidela consistente à velha sociedade portuguesa - reaccionária, sonolenta, fechada em si mesma - veio da revolução francesa (embora as classes dominantes não tivessem percebido completamente as suas implicações) e se materializou por um contacto conflituoso e fecundo: a invasão napoleónica (1807-1811). Nã ostante o isolamento cultural e o atraso sócio-económico, as doutrinas liberais relativas aos direitos do Homem e à livre soberania dos povos, cruzaram as fronteiras, aportando a Portugal através de "estrangeiros" vários e de uma imprensa cada vez mais fugidia à censura oficial. E pogressivamente, o país entrou na órbita das grandes disputas europeias.

Depois da derrota francesa, os contrastes entre os reaccionários e os reformadores causaram logo uma guerra civil sangrenta entre absolutistas e liberais (1832-1834), ganha por estes últimos.

Por causa dos acontecimentos da guerra civil muitas pessoas de cultura acompanharam os movimentos das ideias na França e tiveram melhor conhecimento das ideias revolucionárias da época, com referência particular às ideias de Proudhon. Derivou deste conjunto de circunstâncias a formação, quer de uma camada de intelectuais progressistas e simpatizantes do socialismo, quer de militantes operários autodidactas que constituíram o núcleo fundamental da esquerda revolucionária em Portugal.

2. Os primeiros fermentos anarquistas

Na época proto-capitalista a primeira associação moderna de apoio mútuo entre os trabalhadores, foi fundada em 1839 pelo impulso de Alexandre Fernandes de Fonseca em Lisboa: a Associação Operária Mutualística Portuguesa. Em 1850 Sousa Brandão e Lopes de Mendonça começaram a publicar o periódico O ECO DO OPERÁRIO (3) veículo de difusão das ideias proudhonianas e fonte de impulso para o associativismo operário (tenha-se em conta a taxa de analfabetismo então existente no país).

Os dois grandes eventos revolucionários do século XIX na Europa - o nascimento da Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T.) em 1866, e a Comuna de Paris em 1871 - tiveram uma certa repercussão em Portugal (4) e também alguns entre os maiores intelectuais portugueses da época, influenciados por Proudhon (como Antero de Quental, de Eça Queiroz, Oliveira Martins e Teófilo Braga), manifestaram a sua preferência para com os protagonistas destes acontecimentos e com as suas ideias.

Tanto que, apesar do atraso cultural do país e da acção persistente do clero católico para aquietar as massas, o governo da época começou a ter preocupações sérias pelo aparecimento de ideias radicalmente subversivas. Quando a 16 de Março de 1871 a imprensa deu o anúncio dum programa de Conferências Democráticas de Antero de Quental, a começar a 12 do mês, as autoridades apressaram-se a proibi-las, originando protestos de muitos intelectuais (entre os quais Alexandre Herculano).

Com referência à difusão das teorias libertárias foram importantes: a publicação, em 1848, de O que é o Comunismo de Henrique Nogueira; a acção de Joaquim Maria Rodrigues de Brito, professor de filosofia do direito na universidade de Coimbra que adoptou como livro de texto A Mutualidade de serviços de Proudhon; a missão em Lisboa, em 1871, dos anarquistas espanhóis Francisco Mora, Tomás Gonzales Morago e Anselmo Lorenzo, para criar uma secção portuguesa da A.I.T. Para tal fim eles estabeleceram contacto com Antero de Quental e Jaime Batalha Reis: ao núcleo português aderiram, entre os outros, França de Nobre, Azedo Gneco, José Tedeschi e Sousa Monteiro.

Um ano depois da viagem destes três anarquistas, graças ao compromisso ardente de trabalhadores sinceros e honrados de categorias diferentes, Lisboa teve quase dez mil aderentes nas secções de resistência e Porto quase oito mil (5).

Em Janeiro de 1872 José Fontana foi o promotor duma Associação Fraternidade Operária que se fez representar pelo genro de Marx, Paul Lafargue, no congresso da Associação Internacional dos trabalhadores realizado em Haia. Esta reunião, em Setembro, foi teatro da ruptura entre os marxistas e os bakuninistas por causa da questão do autoritarismo e da sua aplicação organizacional: o partido operário pela conquista do poder estatal.

Nesta altura a influência do pensamento de Proudhon no seio da esquerda portuguesa era notável (junto com a de Owen e de Fourier) - depois sucedendo uma predominância assumida pela influência do pensamento de Bakunin (1814-1876) - ultrapassando os limites dos círculos intelectuais progressistas e introduzindo-se nos ambientes operários à beira duma expansão (em Lisboa e no Porto estava concentrada a recém-nascida indústria portuguesa, e assim será até ao final do regime salazarista).

O proletariado industrial que em 1852 contava poucos milhares de unidades passará a 455.000 unidades e mais em 1900 - todavia não mudando por isto a estrutura predominantemente agrícola da economia portuguesa, com pelo menos 3.500.000 pessoas ocupadas neste sector. Em 1872 as associações de trabalhadores contavam com mais de 10.000 sócios.

Um cunho proudhoniano permaneceu no anarquismo português e conferiu-lhe um certo carácter de positivismo libertário e isto explica a facilidade com que alguns componentes do anarquismo entraram em relação com o republicanismo simpatizante do socialismo de alguns sectores do movimento republicano.

O encontro entre pensamento socialista (num sentido amplo) e associativismo operário produziu a formação quer dum Partido Operário Português Socialista (POPS), em 1875 - mais reformista que revolucionário - quer dum movimento anarquista já muito vivo em 1887, que depressa demonstrou ser o mais forte e vital. Associações de classe e actividades culturais de ilustres expoentes da intelectualidade portuguesa foram os instrumentos apropriados para uma difusão do pensamento libertário que se arraigou mais extensamente do que o pensamento de Marx no país.

A vigorosa difusão das ideias anarquistas teve êxitos positivos também em relação ao desenvolvimento das associações de trabalhadores e dos instrumentos de divulgação do pensamento libertário e da luta de classes: entre 1886 e 1900 constituíram-se 12 grupos anarquistas em Lisboa (cidade com cerca de 300.000 habitantes), 4 no Porto (150.000 habitantes), 2 em Coimbra (17.000 habitantes) e 2 noutras localidades. Naquela altura editaram-se 8 jornais em Lisboa, 6 no Porto e 4 em Coimbra; sem falar da miríade de folhetos. E tão eficaz foi a propaganda anarquista que no Partido Socialista houve um abalo relevante na quantidade de aderentes. Não se pode esquecer o contributo importante para a formação do anarquismo português dado por Elisée Reclus, que visitou Lisboa e o Porto em 1886 (6).

Em Abril de 1887 constitui-se o Grupo Comunista-Anarquista de Lisboa, cuja Declaração de Princípios tinha já um conteúdo programático muito maduro e claro. Pouco depois constituiu-se no Porto um grupo análogo, e em Setembro saiu o primeiro número do jornal Revolução Social. Os elementos de relevo maior que actuaram no Norte foram Hermenegildo António Martins e J.M. Gonçalves Viana; e no sul João António Cardoso, Tiago Ferreira e José Bacelar.

Naquela altura o mundo ocidental não estava socialmente muito tranquilo, desendolvendo Estados e capitalistas una repressão selvagem contra o movimento operário. A Comuna de Paris, o suplício dos anarquistas em Chicago, são os acontecimentos mais conhecidos duma difusa situação de guerra social, dum clima que na França conduziu muitos anarquistas à escolha da acção directa ilegal, ou seja atentados à maneira de Ravachol e Emile Henri.

Nesta situação, Portugal não ficou isento e no meio operário geraram-se episódios de "propaganda ilegal pelos factos": por exemplo, o escritor e parlamentar Pinheiro Chagas foi espancado por causa dos insultos que ele tinha dirigido contra Louise Michel, a notável heroína da Comuna; em 1889 foi morto o industrial Cipriano de Oliveira e Silva; em 1890 uma bomba rebentou na sede do Consulado de Espanha, e outra bomba na casa do Conde de Folgosa em 1892; o Rei foi alvo de dois atentados respectivamente em 1893 e 1896; não falando das acções armadas do grupo clandestino chamado Carbonária Portuguesa, no qual estavam presentes muitos anarquistas (7).

O Estado, como é natural, reagiu emanando leis especiais (como a famigerada lei do 13 de Fevereiro de 1896) e recorrendo a uma enérgica repressão: muitos revolucionários e anarquistas foram deportados para Timor, Moçambique e Guiné. Apesar da repressão, as ideias anarquistas continuavam a difundir-se (8), e também as acções directas: a 1° de Fevereiro de 1908 membros da Carbonária - entre os quais o anarquista Alfredo Costa - na Praça do Comércio de Lisboa mataram o rei Dom Carlos e o Infante Dom Luís Filipe.

A 4 de Outubro de 1910 começou a revolução que derrubou a monarquia e o dia seguinte foi proclamada a República.

Nesta época, as lutas contra a monarquia, a repressão policial, o clericalismo, o domínio das instituições conservadoras constituíram uma espécie de "terreno comum" ponto de encontro para as acções concretas dos militantes anarquistas, socialistas e republicanos; as persistentes e respectivas diversidades ideológicas repercutiam-se nas diferentes escolhas operativas, como o abstencionismo eleitoral praticado pelos anarquistas.

(3) Por impulso de Lopes de Mendonça e Sousa Brandão.
(4) Sobre assunto é fundamental E. RODRIGUES, O despertar operário em Portugal (1834-1911), Lisboa 1980.
(5) A. LORENZO, Il proletariato militante, Catania 1978, p. 122.
(6) No período sucessivo foi publicada uma miríade de colecções de folhetos e brochuras com conteúdo anarquista: Biblioteca do Revoltado, Biblioteca do Grupo Anarquista Revolução Social, O Mundo Novo, Biblioteca dos Trabalhadores, Biblioteca Anarquista, Biblioteca dos Trabalhadores Anarquistas do Porto, etc. Em 1904 constituiu-se no Porto o Grupo de Propaganda Libertária que deu impulso à criação de centro sociais, actividades sindicais, e organizou manifestações de protesto pela condenação à morte de Francisco Ferre y Guardiã em Espanha.
(7) A organização Carbonária Portuguesa nasceu provavelmente entre 1896 e 1897, coexistindo com outras duas Carbonárias, a de Coimbra e a chamada "dos anarquistas": com essa última os confins não foram nunca muito nítidos. Á origem da Carbonária Portuguesa deu impulso Artur Duarte Luz de Almeida (1867-1939), e à esta aderiram pessoas de cada classe social: empregados, operários, estudantes, soldados de nível baixo e médio (mas um dos maiores chefes da revolução republicana de 1910, o almirante Cândido dos Reis, era carbonário).
(8) A história do anarquismo português é caracterizada por um proliferar contínuo de jornais e periódicos libertários, que desenvolveram uma acção notável como instrumentos de propaganda e luta. Alguns deles tiveram uma vida muito breve, outros mais longa, e alguns continuaram amiúde as publicações na clandestinidade. Lembramos os mais importantes: A Revolta (1892); A Propaganda (1894); O Agitador, O Lutador, Grito de Revolta (1895); A Ideia (1898); A Aurora (1900); O Proletário (1901); A Greve (1905); A Sementeira, O Despertar (1908); O Libertário, Paz e Liberdade, A Vida, A Manhã (1909), A Comuna (1920); O Argonauta (1929), etc.

(Continua)


Número de professores por turma: Que tal começar pelo princípio?


Os alunos do 2º ciclo do ensino básico deverão ter menos professores por turma a partir do próximo ano lectivo, de acordo com um despacho, publicado esta segunda-feira em Diário da República, que define novas regras para a distribuição de serviço aos docentes. O documento estabelece que cada professor deve leccionar à mesma turma mais do que uma disciplina, assegurando o ensino das áreas associadas ao seu grupo de recrutamento como Matemática e Ciências da Natureza ou Português e História.

Na verdade, se as boas práticas parecem recomendar que é prejudicial um número excessivo de professores no 2º ciclo, também é verdade que a monodocência no 1º ciclo é redutora e amiga da privatização de vastas áreas do currículo. E é de pequenino que se torce o pepino. Pelo princípio é que se começa....Estranha sensação esta que as boas medidas pedagógicas do ministério só são tomadas quando se conjugam com uma redução de custos.

A este propósito leia um post anterior, que inclui a opinião de Ramiro Marques:

Quantos professores deve ter um aluno?
Movimento Escola Pública

Governo português recusa condenar directiva do retorno

João Gomes Cravinho, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, garantiu que Portugal vai-se opor a qualquer resolução que condene a directiva do retornoNa Cimeira da CPLP o ex-presidente brasileiro Itamar Franco pediu uma condenação unânime à política de imigração da UE, nomeadamente à directiva do retorno que vem facilitar a expulsão e detenção prolongada de imigrantes, e que motivou o lançamento de um manifesto internacional de repúdio. Mas o governo português, pela voz do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, garantiu que Portugal vai opor-se a qualquer resolução nesse sentido.
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Esquerda.net

Liberación para Brahim Bara, miembro de Attac Marruecos y todos los detenidos de Sidi Ifni


El 7 de junio de 2008 ("Sábado Negro"), los habitantes de Sidi Ifni, una ciudad situada unos 160 km al sur de Agadir, fueron víctimas de una operación de represalias y de represión generalizada, incluyendo a las mujeres y los niños. Más de 4 000 agentes de policía y fuerzas auxiliares reprimieron violentamente el bloqueo del puerto, realizado por unos militantes la semana anterior para defender su legítimo derecho a obtener trabajo y posibilidades de una vida digna. Las fuerzas de represión también atacaron e invertieron hogares seleccionados al azar, aterrorizando a toda la ciudad y realizando torturas, saqueos y detenciones. Algunos incluso se hablaron de violacones y asesinatos.

A raíz de estos acontecimientos, 12 militantes fueron arrestados, entre ellos BRAHIM BARA, secretario general del grupo local de Attac en Sidi Ifni demandado por «formar una banda criminal, gente armada y por desobediencia civil»! Brahim Sebaa Ellil miembro del Centro Marroquí de Derechos Humanos fue condenado Julio 10 a 6 meses de cárcel y una multa de 50.000 dirhames por «difusión de falsa información».

Nosotros, firmantes de esta petición:

  • Denunciamos las intervenciones violentas de las fuerzas de represión contra la población de Sidi Ifni;

  • Ampliamos nuestra plena solidaridad con los ciudadanos de Sidi Ifni y el apoyo a su legítima movilización;

  • Exigimos la liberación inmediata e incondicional de Brahim BARA miembro de ATTAC Marruecos y todos los militantes detenidos y el abandono de cualquier procedimiento en su contra.


La peticion en espanol se puede firmar a partir de nuestra pagina web:

www.maroc.attac.org
Bloco Social Português

Comício em Viana do Castelo: Bloco denuncia verdadeiro embuste de Sócrates PDF Imprimir e-mail

Comício do BE em Viana do Castelo - Foto de Paulete Matos Na noite de Quarta-feira, em plena Praça da República de Viana do Castelo, cerca de duas centenas de pessoas assistiram ao comício de Verão em que Francisco Louçã falou da crise social que atravessa o país, denunciou a banca e os banqueiros que continuam a obter lucros fabulosos à custa do crescente endividamento das famílias portuguesas.

Louçã falou também do privilégio da banca e dos banqueiros pagarem menos impostos do que todas as restantes actividades empresariais e, nalguns casos, recorrerem à evasão fiscal e à fraude sobre os seus próprios accionistas, como as investigações à volta do BCP têm vindo a suscitar.

O comício teve início com a intervenção de Jorge Teixeira, deputado municipal do BE em Viana do Castelo, que abordou a luta que os cidadãos da região travam contra a intenção do governo vir a colocar portagens na A28, entre aquela cidade e o Porto. A introdução de portagens penalizaria gravemente as populações servidas por esta auto-estrada sem alternativa real. De facto, como referiu Jorge Teixeira, "a A28 não é uma mera opção, mas sim a única estrada de perfil não urbano no trajecto entre Porto e Viana do Castelo".

O coordenador da Comissão Política do BE saudou o movimento cívico que surgiu na contestação às portagens da A28 e referiu-se às "outras portagens que o governo quer impor aos portugueses". É a portagem do código do trabalho, que aumenta a precariedade, diminui os direitos e faz com que os patrões deixem de pagar horas extraordinárias, a portagem do desemprego que aumenta e afecta cada vez mais famílias e a portagem do aumento das taxas no Serviço Nacional e Saúde.

Francisco Louçã acusou o primeiro-ministro de com este código do trabalho estar a fazer precisamente o contrário do que tinha prometido e de nem sequer deixar passar as propostas anteriormente feitas pelo próprio PS a propósito do código laboral. "Isto sim, é um verdadeiro embuste", respondendo às críticas que José Sócrates tinha acabado de fazer aos que criticam o código do trabalho.

Francisco Louçã terminou com um veemente convite ao debate político, sobre as coisas que interessam na vida quotidiana de todos, que se fale alto e que não se tenha "tento na língua" no combate ao governo de Sócrates.

Bloco.org

quarta-feira, julho 23, 2008

O ANARQUISMO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL

PREMISSA


A 25 de Novembro de 1975 um golpe de estado militar - coniventes o Presidente Provisório da República, a igreja católica, a embaixada USA, os capitalistas locais, as direitas políticas e sectores da esquerda extrema para combater o Partido Comunista Português - acabava com a experiência, aparentemente pré-revolucionária, começada a 25 de Abril de 1974: a assim chamada "revolução dos cravos", que derrubou o governo católico/fascista do sucessor de Salazar, Marcelo Caetano.

Sem os êxitos esperados por uma parte grande do povo português e pelas esquerdas no estrangeiro, concluía-se assim uma temporada política de exaltação que - além da eliminação do regime fascista europeu de mais longa duração - suscitou esperanças tão entusiastas, quanto infundadas, de revolução social. Deste modo fechava-se em Portugal um longo ciclo de convulsões políticas e sociais sangrentas, iniciado em 1807, o ano da invasão napoleónica. Portugal podia juntar-se às democracias burguesas, mais o menos respeitáveis, da Europa ocidental.

O grande movimento de revolta social iniciado no século XIX e que notoriamente se propagou ao nível das massas na Península Ibérica, geralmente é conhecido como a grande epopeia anarquista e comunista libertária de Espanha. Poucos sabem que este fenómeno não deixou indiferente o outro, e não muito falado, Estado da mesma península, Portugal, uma das regiões mais atrasadas da Europa Ocidental, até hoje.
Contudo, no longo período de tempo que se estende desde o fim do século XIX, um papel absolutamente decisivo foi desenvolvido por algumas gerações de revolucionários autênticos, que - quer dentro, quer fora de Portugal - podemos justamente incluir no rol dos "esquecidos" da historiografia oficial: os anarquistas portugueses.

Na prática, três factores actuaram para que sobre o anarquismo português caísse um esquecimento quase completo:

  1. a posição muito isolada que Portugal acabou por assumir trouxe menos consideração de boa parte da Europa continental, desde o fim da sua hegemonia marítima (disputada com Espanha, Inglaterra e Holanda); talvez daí advenha que as pessoas de cultura média pouco ou nada saibam em relação a Portugal;
  2. a grande importância da epopeia anarquista espanhola na história das revoluções europeias do século passado que também fez concentrar, de modo absorvente, a atenção dos historiadores do movimento anarquista e libertário;
  3. a ocultação propositada, com fins propagandísticos, por parte de "leninistas" em relação às origens anarquistas do PCP; os seus intelectuais orgânicos re-escreveram e divulgaram uma história que não "confundisse" as massas (o mesmo aconteceu na Itália depois do 25 de Abril de 1945).

Assim, são bem poucos os que sabem que graças a estes "esquecidos", o anarquismo - pelo menos até aos anos '40 do século passado - foi a corrente ideológica predominante no meio da classe operária portuguesa. Isto, graças ao trabalho de mulheres e homens que dedicaram a sua vida e as suas melhores energias, físicas e psíquicas, a um ideal altruísta sem pedir nada para si (em conformidade com as suas próprias ideias), que conheceram as perseguições, as prisões e as deportações, a tortura, o exílio, a pobreza e a morte; nem sequer recebendo um "obrigado", caídos no esquecimento no seu próprio país (para os anarquistas é um hábito), mas cuja paixão ainda tem hoje gente devotada, igualmente desinteressada, numa situação geral bem mais difícil do que a da Espanha actual.

A memória do que estas "grandes pequenas" pessoas fizeram merece ser recuperada e mantida, porque se trata de nossos companheiros, dos quais não se pode dizer (usando a expressão de Miguel de Unamuno para estigmatizar a indolência do homem medíocre) que murieron sin haber vívido. Só alguns nomes (1): Adriano Botelho, Aurélio Quintanilha, José Correia Pires, Neno Vasco, Francisco Quintal, Jaime Brasil, António Pinto Quartim, Jorge Quaresma, Sebastião de Almeida, Fernando Barros, Adolfo Lima, Júlio Gonçalves Pereira, Armindo Sarilho, José Augusto de Castro, Augusto Godinho, Joaquim Moreira e Silva, António Dias Fontes, Mário Ferreira, Cristiano de carvalho, José Rodrigues Reboredo, Margarida Barros,, Virgínia Dantas, Luís Portela, Aníbal Dantas, Raul Zacarias, António Libório, Arnaldo Simões Januário, Deolinda Lopes Vieira, Clemente Vieira dos Santos, Miquelina Sardinha, Serafim Cardoso Lucena, Manuel F. Correia, Jaime Reselo, António José Ávila, Campos Lima, Darwin Castelhano, António Teixeira Júnior, Almeida Costa, José de Almeida, Adolfo de Freitas, José Vaz Rodrigues, Valentim Adolfo João, António Alves Pereira, Manuel Joaquim de Sousa, Germinal de Sousa, José Francisco, Américo Martins Vicente, Artur Modesto, Augusto Tiago Ferreira, Luís Redondo, Pedro Ferreira da Silva, Álvaro A. De Oliveira, Melena Gonçalves, Mário Azevedo, Soares Lopes, Abílio Ribeiro, João Silva, Miguel Correia, Alberto Dias, António Aleixo, José Marques da Costa, José António Machado, Alexandre Belo, Adriano Pimenta, Luísa Adão, Lígia de Oliveira, Eduardo Pereira, José Benedey, Mário Castelhano, Custódio da Costa, Álvaro da Costa Ramos, Pedro Matos Felipe, e muitos, muitos outros.

As páginas que se seguem podem ser vistas como a homenagem que lhes é devida. "Felizmente fica a história. Felizmente fica a memória" (2).



(1) Em boa parte tomados desde E. RODRIGUES, História do Movimento Anarquista em Portugal, www.agrorede.org.br/ceca/edgar/AnarPort.html
(2) I. PACO TAIBO II, Arcangeli, Milano 1998, p.195.

(Continua)

Pier Francesco Zarcone

O ANARQUISMO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL

ÍNDICE

Destacados intelectuais lançam manifesto contra a directiva do retorno


90 intelectuais, políticos e activistas sociais de quinze países americanos lançaram um manifesto contra a directiva do retorno, insurgindo-se frontalmente contra aquela lei aprovada pelo Parlamento Europeu que facilita a detenção prolongada e a expulsão de imigrantes indocumentados. Entre os subscritores encontram-se Adolfo Pérez Esquivel (Nobel da Paz argentino), Naomi Kleim (jornalista e escritora canadiana), Noam Chomsky (linguista norte-americano), Fernando Lugo (Presidente do Paraguai), Eduardo Galeano (escritor uruguaio) e o subcomandante Marcos (líder do Movimento Zapatista do México).
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Esquerda.net

Violência Neo-nazi na Alemanha

neonazis

Na passada manhã do dia 20 de Julho, sucedeu-se mais um triste episódio para a Democracia Alemã. Sete activistas neonazis, saltaram a vedação do Acampamento de Verão dos Jovens dos Die Linke, em Hessen, abriram a primeira tenda que encontraram e agrediram dois jovens com garrafas de cerveja e uma pá, que ainda dormitavam.
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In Blocomotiva.net

terça-feira, julho 22, 2008

Comícios de Verão do Bloco de Esquerda com Francisco Louçã


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d.r. Ver Fotos »
Francisco Louçã

Francisco Louçã desloca-se ao Algarve para realizar quatro comícios de Verão. O primeiro será já no dia 25 de Julho, em Armação de Pêra, seguindo-se Quarteira, a 16 de Agosto, enquanto nos dias 23 e 24 de Agosto, o líder dos bloquistas estará respectivamente em Monte Gordo e Portimão.

São acções com as quais o Bloco de Esquerda (BE) pretende não dar férias ao Governo de José Sócrates.

Os comícios de Verão iniciaram-se em Pevidém (Guimarães), local onde Francisco Louçã defendeu a introdução do imposto sobre as grandes fortunas e denunciou a insegurança com que vivem muitas pessoas «esmagadas pelo aumento dos alimentos, dos combustíveis e dos juros».

As críticas ao Código do Trabalho e ao «escândalo dos lucros especulativos das petrolíferas» são alguns dos temas a desenvolver nos comícios.

A Comissão Coordenadora Distrital do Bloco de Esquerda do Algarve esteve reunida no passado sábado, em Portimão, para definir a estratégia e o plano de acção a desenvolver em 2008/2009.

Além da participação nas jornadas de luta a levar a efeito em Setembro contra o Código do Trabalho, os bloquistas traçaram as directrizes para uma participação nas campanhas eleitorais de 2009, bem como a realização de acções a nível regional.

Está previsto para Setembro/Outubro uma acção que deverá centralizar-se sobre a precaridade, uma questão que se coloca em toda a região, «não havendo praticamente família que não seja atingida por este flagelo», adianta o BE.

A ideia dos bloquistas é travar a revisão do Código do Trabalho que, na sua análise ao texto em discussão, «precariza totalmente as relações laborais e leva aos despedimentos simplex».

No decorrer do mês de Setembro, em colaboração com o Movimento Escola Pública pela Igualdade e Democracia, o Bloco de Esquerda desenvolverá uma acção em torno do novo modelo de gestão das escolas.

Na área do ambiente e ordenamento, numa actividade descentralizada em Faro e Portimão, em data a anunciar, os bloquistas vão orientar o debate para «a defesa e a preservação das Rias Formosa e de Alvor, alvos privilegiados dos apetites vorazes das imobiliárias e de grandes projectos predatórios», segundo o documento a que «barlavento» teve acesso.

Ainda no mesmo documento, é feita menção aos transportes e acessibilidades, uma «área negra na região», segundo o Bloco de Esquerda, nomeadamente a ferrovia no Barlavento algarvio e entre Faro e Vila Real de Santo António, sendo para esta força política «inadmissível a falta de investimentos nestes troços ferroviários quando se aposta noutras regiões do país em linhas de alta velocidade e em TGV».

O Bloco de Esquerda, depois das últimas eleições autárquicas onde conseguiu eleger elementos para as Assembleias Municipais e de Freguesia, tem realizado reuniões dos autarcas, estando agendado para 2009 o III Encontro Autárquico Regional, que deverá ocorrer em Janeiro ou Fevereiro, com o tema de fundo «virado para o combate autárquico e assente na tónica do combate à pobreza e à exclusão social».

A Comissão Coordenadora Distrital do Bloco de Esquerda/Algarve, por proposta do secretariado, aprovou as linhas da orientação estratégica para o próximo biénio que passam, essencialmente, por desenvolver uma luta frontal contra as políticas neo-liberais do Governo, apoiar e integrar a luta dos trabalhadores, lutar pela regionalização, bem como «pugnar pela transparência absoluta e denunciar todo o tipo de actividades que envolvam casos concretos ou de suspeita de corrupção nos órgãos públicos de administração local e regional, ou em qualquer entidade de cariz privada», segundo o documento aprovado na reunião do passado sábado.

In Barlavento

Bloco/Portimão condena "transformação da Câmara em Holding" Câmara de Portimão desdobra-se em 10 empresasO Bloco de Esquerda votou na Assembleia Municipal contra as alterações ao Grupo Empresarial da Câmara de Portimão, que estabelecem nem mais nem menos do que a constituição de dez empresas para gerir serviços essencias da cidade. Em comunicado, o Bloco afirma que a constituição deste grupo empresarial siginifica a delapidação dos bens públicos ao serviço de interesses privados e do clientelismo do Partido Socialista. Vê a notícia no site do Bloco/Portimão.
Bloco.org

Marcha pela Paz contou com presença de autarcas do Bloco Autarcas e activistas do Bloco não faltaram à Marcha Pela Paz na Quinta da Fonte. Foto de Vítor FrancoActivistas e autarcas do Bloco de Esquerda participaram esta segunda-feira na "Marcha pela Paz" que juntou 400 pessoas na Quinta da Fonte, apoiando o esforço dos moradores para a pacificação daquele bairro de Camarate. O BE/Loures contesta a política que está na origem e perpetuação dos guetos e exige, como alternativa, a criação de um POLIS Social que responda às necessidades da população. Vê a notícia no site do Bloco/Lisboa.
BE Nacional

E agora, algo completamente diferente…

Anterozóide

Relatório do BE sobre o Caso BCP

Jardim Gonçalves e Teixeira Pinto foram presidentes do BCP à altura das ilegalidades - foto Lusa
O deputado Francisco Louçã entregou hoje um relatório alternativo aos trabalhos da Comissão Inquérito à Supervisão bancária no Caso BCP. O documento será votado na última reunião da Comissão Eventual, na próxima quinta-feita. O relatório divulga pela primeira vez como se relacionaram os movimentos de cotações com a intervenção por via das sociedades offshore detidas por Goes Ferreira (Hendry, Sevendale, Somerset, Sherwell) e demonstra a sua importância na compra de acções próprias. Acede aqui à versão integral do relatório.
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Esquerda.net

A “Greve Geral Revolucionária” de 1934


A “Greve Geral Revolucionária” de 1934
em Silves e Portimão
e os “safanões dados a tempo” por Salazar

João Vasconcelos ([*])


Resumo

A chamada «greve geral revolucionária», como ficou conhecido o movimento de resistência operária ao emergente “Estado Novo” de Salazar, que teve lugar no dia 18 de Janeiro de 1934, vai eclodir um pouco por todo o país, com destaque para as localidades da Marinha Grande, Leiria, Coimbra, Almada, Barreiro, Lisboa, Vila Boim, Sines, Póvoa de Santa Iria, Silves e Portimão. Este movimento, conduzido por uma Frente Única Operária, composta pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), de cariz anarco-sindicalista, pela Comissão Inter-Sindical (CIS), de índole comunista e pela Federação das Associações Operárias (FAO), socialista, filiadas em organizações sindicais internacionais, vai envolver acções de vários tipos.
Efectivamente, registaram-se descarrilamentos de comboios, troca de tiros e lançamento de bombas, cortes de linhas telefónicas e telegráficas, sabotagem dos transformadores de uma central eléctrica, manifestações e greves operárias como nas cidades algarvias de Silves e de Portimão.
Na Marinha Grande a situação é mais espectacular atingindo características insurreccionais – os revoltosos, armados com caçadeiras, revólveres, pistolas e bombas, atacam à bomba o Posto da GNR desarmando os soldados desta corporação e ocupam a Vila por algum tempo. Mais acções estavam para acontecer, mas não se verificaram. Por pouco Silves não se transformou numa segunda Marinha Grande.
A projectada greve geral foi reduzidíssima a nível nacional. Salazar, sem grandes dificuldades, consegue restabelecer a ordem em pouco tempo. A repressão foi violentíssima, cujo expoente máximo foi a punição implacável de muitos revoltosos no campo de concentração do Tarrafal – eram os salazaristas “safanões dados a tempo”.

1. A eclosão do 18 de Janeiro

A chamada «greve geral revolucionária», como ficou conhecido o movimento, vai eclodir apenas na Marinha Grande, Leiria, Coimbra, Almada, Cova da Piedade, Barreiro, Lisboa, Cacém, Vila Boim, Sines, Martingança, Póvoa de Santa Iria, Silves e Algoz. Este movimento, conduzido por uma Frente Única, composta pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), Comissão Inter – Sindical (CIS), Federação das Associações Operárias (FAO), Comissão dos Sindicatos Autónomos e pela Comissão dos Trabalhadores do Estado, as três primeiras filiadas em organizações sindicais internacionais
[1], vai envolver acções de vários tipos.
Tiveram lugar descarrilamentos de comboios em Braga e Póvoa de Santa Iria, este efectuado por comunistas, interrompendo as comunicações nas linhas do Norte e Leste; em Coimbra, os anarquistas fizeram explodir os transformadores de corrente da central eléctrica, levando à paralisia dos transportes públicos e ficando a cidade às escuras; verifica-se a sabotagem da via férrea próximo de Algoz; uma bomba explode na linha férrea, próximo da estação de Martingança; uma bomba é lançada no Barreiro provocando alguns feridos ligeiros; outras duas bombas são lançadas contra um comboio, em Benfica; ocorrem cortes de linhas telefónicas e telegráficas em Leiria, Marinha Grande, Cacém, Almada, Vila Boim e Silves; verificam-se confrontos e troca de tiros entre operários armados de bombas que queriam assaltar uma fábrica de pólvora, e as forças policiais, em Chelas e Xabregas, com lançamento de uma bomba; há manifestações de operários e greves no Barreiro, Sines, Almada, Silves, Seixal, Alfeite, Cacilhas, Setúbal e Portimão; na Marinha Grande a situação é mais espectacular atingindo características insurreccionais – os revoltosos, armados com caçadeiras, revólveres, pistolas e bombas, cortam as comunicações com Leiria, bloqueiam as vias de acesso, atacam à bomba o Posto da GNR desarmando os soldados desta corporação, ocupam a Estação dos Correios e Telégrafos, reabrem o Sindicato Vidreiro e ocupam a Vila por algum tempo
[2]. Mais acções estavam para acontecer, mas não se verificaram.
A projectada greve geral foi reduzidíssima a nível nacional. Mesmo no que diz respeito a confrontos violentos, sabotagens, atentados e ocupações, ficaram muito aquém do que fora planeado. Salazar, sem grandes dificuldades, consegue restabelecer a ordem em pouco tempo. Como alguns previram, não havia condições em Portugal para desencadear um movimento de características operárias insurreccionais contra o «Estado Novo». A excepção foi a Marinha Grande, não obstante as grandes limitações e dificuldades ali sentidas. Caso os operários armados, cujos principais dirigentes eram comunistas, não tivessem ocupado a Vila, mesmo por um brevíssimo período de tempo, o «18 de Janeiro de 1934» não teria sido porventura aquilo que foi, circulando e perdendo-se por entre as veracidades da História e as brumas do Mito.

2. As Acções em Silves

Silves nos inícios dos anos 30 continuava a ser um importante centro corticeiro, contando com cerca de 10 000 habitantes. Funcionava desde o início do século XIX como uma espécie de entreposto comercial da cortiça alentejana, incrementando «uma corrente de exportação que, passando por S. Marcos, chega a Silves donde sai, rio abaixo até ao mar, para outras paragens onde vai ser transformada». É o comércio de cortiça bruta que, se não cria postos de trabalho, nem fixa as populações, «(...) chama as atenções para a cidade e atrás da cortiça vêm os industriais dela»
[3].
Assim vai surgir a indústria corticeira que encontra terreno propício, tanto na região produtora da matéria-prima (Serra e Baixo Alentejo), como na facilidade do seu escoamento através do rio Arade e na existência de uma mão-de-obra rural disponível e barata. Devido à especificidade desta indústria corticeira, com vista à exportação de produtos manufacturados, levou a que em Silves se implantasse um número reduzido de grandes fábricas para esse fim, reunindo-se em seu torno pequenas fábricas de tipo familiar, sem grande capacidade de laboração e de exportação
[4]. Nos finais do século XIX, Silves tinha 11 fábricas, um dos maiores centros industriais do Algarve, «com mais de 1 000 operários e aprendizes, só a fábrica «Vilarinho e Sobrinho» possuindo cerca de 600»[5]. Operários especializados vindos da Catalunha trouxeram algumas inovações técnicas que ensinaram aos operários de Silves, transmitindo-lhes também, muito provavelmente, as ideias anarquistas.
Se, em 1917, o concelho possuía 13 fábricas de cortiça com 503 pessoas, (75,9% do total de operários), em 1930 as fábricas deste sector já ascendiam a 37, empregando 651 operários, (54,8% de corticeiros), num total geral de 1189 indivíduos, abrangendo outras actividades industriais
[6]. Apesar da percentagem de operários corticeiros ter descido, por força da diversificação industrial, estes constituíam nos inícios dos anos 30, um forte núcleo proletário. A crise económica e social que se abate impiedosamente sobre Silves e sobre todo o Algarve, provocando no concelho para cima de três centenas de despedimentos, leva a que, em Janeiro de 1934, o número de empresas corticeiras diminua para 23, empregando 880 operários[7]. A crise de trabalho e a miséria eram tamanhas entre os trabalhadores, que as próprias autoridades municipais solicitavam à Divisão Hidráulica do Guadiana, a realização de obras de limpeza no rio Arade, ribeiras e valas, por forma a ocupar os homens desempregados[8]. Por outro lado, havia o receio de um despoletar da conflitualidade social.
Os corticeiros silvenses possuíam, desde longa dada, uma tradição de luta e resistência contra as más condições de vida, os baixos salários, as longas jornadas de trabalho, contra a exportação de cortiça em bruto ou em prancha, contra o patronato e as forças policiais. Desde 1886 que existia a Associação de Classe dos Operários Corticeiros de Silves, durante muito tempo a única na zona. Mais tarde vão surgir outros sindicatos – Construção Civil, Empregados no Comércio e Indústria, Carroceiros, Manufactores de Calçado e Trabalhadores Rurais
[9]. A classe corticeira era a classe profissional maior e melhor organizada. Em 1921, a sua Associação de Classe decide inscrever no frontispício do 2.º andar da sua sede as palavras «Pão, Luz e Liberdade», onde «mais do que uma divisa, era uma bandeira, um programa de acção que caracterizou quarenta anos de actividade sindical»[10].
O proletariado de Silves adere à greve geral convocada pela União Operária Nacional, em 1918 contra a carestia e a falta de pão, e em 1920, 1924 e 1925 por aumentos salariais. Particular impacto teve a greve de 1924, não só em Silves como por todo o Algarve, devido ao seu carácter prolongado de dois meses e à repressão levada a cabo pela Guarda Republicana, que provocou vários feridos e um morto, desencadeando uma greve geral no dia seguinte
[11]. O sentimento de revolta e emoção que se seguiu, faz surgir ainda no ano de 1924 dois grupos anarquistas – o Grupo Libertário “Mártires 22 de Junho”, em Silves e o Grupo Libertário “Os Unificadores”, em S. Bartolomeu de Messines[12]. O anarquismo encontrou assim terreno propício em centros operários como Silves e Messines, permanecendo como ideologia dominante nos meios operários até final dos anos 20.
A situação vai alterar-se com a reorganização comunista de 1929, crescendo a influência do PCP. No início dos anos 30, difundem-se O Proletário, O Reduto, órgão da poderosa Federação dos Transportes sob a direcção de José de Sousa, o Avante! e o boletim O Trabalho Sindical, este último determinando a organização de Grupos de Defesa Sindical em diversos sectores, como os corticeiros, no Distrito de Faro
[13]. É assim que, no ano de 1933, se forma o Comité Revolucionário de Silves, com a participação conjunta de anarquistas e comunistas, com vista à preparação do “18 de Janeiro de 1934”. A Associação Corticeira, recusando os Decretos corporativos dos «sindicatos-nacionais», decide em Assembleia Geral de 30 de Dezembro de 1933, conforme já referimos, a sua extinção, nomeando uma comissão liquidatária[14] para proceder à oferta do mobiliário e biblioteca à Cooperativa «A Compensadora», conseguindo ainda fazer a transferência dos seus fundos para a Federação Corticeira sediada em Almada.
O Comité Revolucionário de Silves, tendo à sua frente o comunista José Gonçalves Victor e o anarquista Virgílio Barroso, mantinha ligações com a cidade de Lisboa, pois daqui iria receber a senha para dar início ao movimento grevista. O Comité, formado entre outros, por Domingos Passarinho, Manuel Pessanha e Abatino Luiz da Rocha, também tinha por função a coordenação de dois grupos de acção – um de comunistas e outro de anarquistas, embora se verificasse uma colaboração entre si na distribuição de propaganda, de acordo com o que nos diz Francisco Nicolau, um dos participantes no 18 de Janeiro, em entrevista a Fernando Fitas
[15].
Na cidade de Silves, os operários e os seus dirigentes, quer anarco-sindicalistas, quer comunistas, vão actuar em unidade contra Salazar, embora tenham dois centros de organização distintos. Na noite de 17, tanto uns como outros reúnem-se no campo, a coberto das árvores, munidos de pistolas e bombas (a concepção anarquista fazia-se sentir fortemente entre os comunistas), daqui partindo vários elementos que cortaram os fios telefónicos. Outros, na manhã de 18, assaltaram e abriram a sede da antiga Associação Corticeira que fora encerrada a mando das autoridades. O plano decorria conforme planeado, tanto mais que a senha não fora quebrada: como o comboio correio não chegou à Estação de Silves às 7 horas, significava que os ferroviários tinham aderido à paralização e que a revolução eclodira em Lisboa. Ocupado o edifício da Associação de Classe dos Corticeiros, preparavam-se os revoltosos para atacar o quartel da Guarda Nacional Republicana, quando chegou a notícia que o comboio tinha chegado à Estação
[16]. Efectivamente o comboio chegou com bastante atraso, fazendo gorar todo o plano posterior.
Se o plano insurreccional, nomeadamente o ataque à GNR, falhou, o mesmo não se pode dizer da greve, que foi geral entre os operários corticeiros. Diversos dirigentes grevistas, como o anarquista Manuel Pessanha, andaram pela cidade a apelar à greve, levando até os estabelecimentos comerciais a encerrar as suas portas. Teria ainda Manuel Pessanha provocado «manifestações subversivas, hasteando uma bandeira comunista na sede da Associação dos Corticeiros»
[17], depois de arrombada a porta desta. Muito dificilmente um anarquista iria hastear uma bandeira comunista no sindicato, o mais provável é que se tratasse da bandeira da própria Associação Corticeira. A P. V. D. E. via comunistas e símbolos comunistas por toda a parte. Era a ideologia que começava a afirmar-se nos meios operários e a substituir a influência do anarco-sindicalismo no seu seio – daí o combate do regime Salazarista, cada vez mais feroz, ao Partido Comunista. O que não aligeirou, diga-se, a repressão contra o anarquismo declinante.
Apesar da Silves operária ter aderido à greve geral de forma pacífica
[18], (como preconizava a linha oficial do PCP afecta a Bento Gonçalves), sem o recurso a acções violentas, excepto o derrube dos postos telegráficos e telefónicos e o assalto à sede da Associação Corticeira, muitos outros actos de cariz violento estavam para eclodir, com o recurso a bombas e a outros meios ofensivos, como aliás, também se previam actos desta natureza noutras localidades do Algarve[19]. E, de um modo geral, os comunistas encontravam-se inseridos nas concepções de luta anarquistas.

3. O Movimento em Portimão

A cidade de Portimão, um importante centro operário conserveiro e piscatório também teve uma participação notável no 18 de Janeiro de 1934. Aqui existia uma União de Sindicatos, compreendendo os Sindicatos Operários da Indústria de Conservas, da Indústria da Construção Civil, da Indústria do Calçado, dos Carpinteiros Navais, dos Chaffeurs Marítimos, dos Estivadores, dos Fragateiros, o Sindicato Único Metalúrgico e a Associação de Classe dos Operários Corticeiros
[20].
Em Portimão foi constituído um Comité Revolucionário, tal como sucedeu noutras localidades do Algarve. A formação deste Comité surgiu na reunião realizada na oficina do sapateiro José Mendes do Carmo, com a presença do anarquista José Negrão Buízel. A directiva para a constituição destes Comités teria partido do dirigente máximo da CGT, Mário Castelhano que, nos meses de Novembro e Dezembro de 1933 participou em várias reuniões na região algarvia, incluindo uma na Praia da Rocha
[21].
No dia 18 de Janeiro milhares de operários e outros Portimonenses foram para a rua manifestar-se contra o encerramento dos sindicatos livres e a criação dos “sindicatos nacionais” fascistas. Esta enorme manifestação ocorreu no Largo do Coreto, nela participando operárias conserveiras que lutavam contra o encerramento do Sindicato das Conserveiras, pescadores que estavam em luta contra o encerramento da Mútua dos pescadores, operários agrícolas do Morgado do Fialho e de outros latifúndios, que lutavam contra o encerramento do Sindicato dos Operários Agrícolas. A GNR, tendo à sua frente o Capitão Quintino, reprimiu ferozmente a manifestação, batendo nas pessoas e atirando contra elas os cavalos que as esmagavam. Horrorizados, os manifestantes debandaram, muitos outros ficaram feridos ou foram presos, muitos deles sindicalistas e do Comité Local do Partido Comunista
[22].

4. A Repressão Salazarista

O desfecho da «Greve Geral Revolucionária» foi desastroso para o movimento operário. Centenas, senão milhares de activistas e militantes comunistas, anarquistas e até socialistas, republicanos e outros
[23], vão sofrer com o desaire do movimento de 18 de Janeiro de 1934. Reforça-se a repressão do regime Salazarista, na forma de perseguições, prisões, torturas, deportações, mortes. Eram os «safanões dados a tempo» por Salazar.
Muitos dos participantes no 18 de Janeiro são assim atirados para os temíveis presídios do Salazarismo, como os Fortes de Caxias, Peniche e S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, e para sinistros campos de concentração, autênticos campos da morte bem longe da Metrópole – Forte Roçadas e Vila Nova de Seles em Angola, Fortaleza de S. Sebastião na Ilha de Moçambique, Oecussi em Timor, Tarrafal em Cabo – Verde. Em 23 de Abril de 1936, pelo Decreto-lei n.º 26 539, é criada uma Colónia Penal, ou melhor dizendo, um campo de concentração, no lugar do Tarrafal, na Ilha de Santiago, Arquipélago de Cabo – Verde, cujo objectivo era a punição de forma implacável dos presos que se opunham a Salazar. No dia 29 de Outubro do mesmo ano, chegam ao “Campo da Morte Lenta” os primeiros 152 presos
[24], levados dos presídios de Peniche, Aljube, Caxias, Penitenciária de Lisboa e de Angra do Heroísmo. Entre os prisioneiros encontravam-se Mário Castelhano e Bento Gonçalves, dirigentes máximos da CGT e do PCP, respectivamente, que acabaram por perecer no Tarrafal, vítimas dos maus tratos e da doença.
A repressão que se abateu sobre aqueles que prepararam e participaram no 18 de Janeiro, foi violentíssima. Condenados pelo Tribunal Militar Especial, as sentenças atingiram várias centenas de anos de prisão, deportação e degredo nas colónias e pesadas multas. As torturas, os espancamentos, os maus tratos físicos e psicológicos também foram constantes, de que resultaram várias mortes. De acordo com as investigações realizadas por Fátima Patriarca, as localidades que apresentam um maior número de detidos são: Lisboa (227), Marinha Grande (122), Coimbra/Anadia (83), Barreiro (41), Almada (37), Silves (35), Portimão (19)
[25], Leiria (18) e Sines (14). Na totalidade foram presos 696 indivíduos ligados à greve geral revolucionária. Destes, são enviados ao Tribunal Militar Especial 435[26], sendo condenados a grande maioria – 260 grevistas. Deste número, 107 recebem penas de prisão correccional até dois anos, em que as mais elevadas são acompanhadas por pequenas multas pecuniárias e perda de direitos políticos por cinco anos, 89 são condenados a penas que variam entre três e oito anos, a que se junta o degredo ou desterro, com ou sem prisão e pesadas multas, e 64 elementos são condenados a pesadíssimas penas – degredo ou desterro, quase sempre com prisão, entre os dez e os vinte anos e multas de vinte contos[27]. Estão neste último caso os principais dirigentes e responsáveis políticos e os militantes e operacionais que prepararam e participaram no 18 de Janeiro, onde se incluem António Estrela, comunista, e Virgílio Pires Barroso, anarquista, principais responsáveis de Silves.
Durante quase duas décadas, passaram pelo Tarrafal 354 homens, ali perecendo 32, muitos ligados ao 18 de Janeiro, como Mário Castelhano e Bento Gonçalves. Muitos outros viriam a falecer prematuramente, vítimas dos maus tratos e das doenças contraídas. O Tarrafal para presos políticos, idos da Metrópole, vem a terminar no dia 26 de Janeiro de 1954
[28], mas continuou até 1974 para os presos políticos das colónias africanas que lutavam contra o colonialismo português.
As condições do Campo que os presos tinham de suportar eram terríveis: sob a acção da chuva, do sol, da humidade, alimentação insuficiente e intragável, a água inquinada, condições sanitárias péssimas, pragas de mosquitos, doenças como a mortal biliosa, as infecções intestinais e o paludismo, escassez de medicamentos, torturas e tratamentos cruéis e desumanos, a horrível «Frigideira»
[29], a famigerada «Brigada Brava»[30], – tudo isto suportaram alguns homens do 18 de Janeiro. Salazar procurou assim, reduzir ao silêncio mais completo, estes defensores enérgicos da liberdade.
Os 152 presos desembarcados no Tarrafal vão ficar alojados durante cerca de três anos em barracas de lona que, devido à acção do sol e da chuva depressa apodrecem, contribuindo para arruinar a sua saúde. Os ventos que sopravam continuamente partiam os ferros frágeis, a poeira cobria as barracas e os corpos, não havia água, muitos tectos voavam, os presos suportavam as chuvas violentas, as doenças apareciam, não havia médico, nem enfermeiro, nem medicamentos. Os presos começavam a morrer, para contentamento do director do Campo, Manuel dos Reis (que declarava que quem viesse para o Tarrafal vinha para morrer) e do “médico”-carcereiro Esmeraldo Pais Pratas, o sinistro “Tralheira” (que afirmava que não estava ali para curar, mas para assinar certidões de óbito).
A época mais terrível era a do fim das chuvas, no final de Outubro, que infundia um verdadeiro terror em todo o Campo – era o período das biliosas, que se seguia ao período crítico do paludismo (altíssimas febres frias e quentes). Aqueles que escapavam às febres do mosquito, ou seja, ao paludismo, raramente sobreviviam à biliosa. Foi o que matou o Secretário-Geral do Partido Comunista e o Secretário-Geral da Confederação Geral do Trabalho. A morte traiçoeira acabou por vencer os insurrectos do «18 de Janeiro» (e muitos outros), com a cumplicidade criminosa do carcereiro do Campo, Esmeraldo Pais Pratas, que possuía um diploma de médico. Gilberto de Oliveira, militante das Juventudes Comunistas nos anos 30, ao fazer o seu depoimento sobre o «Campo da Morte Lenta», em Memória Viva do Tarrafal, define-o como «meio ambiente para a morte natural de opositores políticos», em que o «assassínio e a tortura» eram «legalizados»
[31].
Para quem ainda tenha dúvidas, encontra-se assim desfeito o mito dos «safanões dados a tempo» pelo tirano de Santa Comba, aquele que alguns consideram como o «grande português do século XX». Certamente que muitas pessoas de bem, anti-fascistas e lutadores pela liberdade, onde se incluem diversos silvenses e portimonenses participantes ou simpatizantes do 18 de Janeiro de 1934, que sofreram na pele, na carne e no pensamento as agruras das grilhetas salazaristas, terão dito e dirão para sempre que Oliveira Salazar foi «o maior bandido de Portugal do século XX».
Muito obrigado pela vossa atenção.

Bibliografia

Sobre a principal bibliografia consultada, vide notas deste trabalho.

Observação: Comunicação feita no 13º Congresso do Algarve, no Centro Cultural de Lagos, no dia 16 de Novembro de 2007.

([*] ) Professor, Mestre em História Contemporânea. Presentemente investiga o movimento operário no Algarve durante o período da Ditadura Militar (1926 – 1934).
Notas:
[1] A C. G. T. de tendência anarco-sindicalista, estava filiada na Associação Internacional dos Trabalhadores (A. I. T.), conhecida por «Internacional de Berlim», fundada em 1922. A C. G. T. juntamente com a C. N. T. de Espanha, era uma das principais secções da Internacional Anarquista. A C. I. S. era aderente à Internacional Sindical Vermelha (I. S. V.), comunista, com sede em Moscovo, fundada em 1921, enquanto a F. A. O., de tendência social-reformista, encontrava-se ligada à Federação Sindical Internacional de Amsterdão, ou «Internacional de Amsterdão», fundada em 1919, secção da II Internacional, social-democrata (ver A. Schapiro, As Três Internacionais Sindicais – Amsterdão, Moscovo, Berlim, Lisboa, Editorial de «A Batalha», 1925, 35 págs.).
[2] Cf. Maria Filomena Mónica, «Poder e saber: os vidreiros da Marinha Grande», in Análise Social, Lisboa, 3.ª e 4.ª Série, Vol. XVII, n.º 67-68, 1981, p. 555; Fátima Patriarca, o 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande, s. l., Edição Museu Santos Barosa da Fabricação do Vidro, 1997, pp. 9-17; Idem, Sindicatos contra Salazar. A revolta do 18 de Janeiro de 1934, Lisboa, Edição do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2000, p. 233-235.
[3] Cf. Maria das Dores Jorge de Goes, Silves Naquele tempo... e agora (1956 – 1997), Silves, Câmara Municipal de Silves, 1998, p. 15.
V. Manuel Castelo Ramos, «Da Produção de Cortiça à Indústria: em Silves», in Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês. Exposição Permanente. Estudos. Catálogo, Silves, Fábrica do Inglês, 1999, pp. 49-58.
[4] V. João José Ferreira, «A cidade de Silves e a relação com o campo. Condicionalismos e perspectivas», in I Jornadas de Silves, Actas, Silves, Associação de Estudos e Defesa do Património Histórico – Cultural de Silves (AEDPHCS), 1993, p. 129.
[5] Cf. José Tengarinha, «Os trabalhadores industriais do Algarve nos séculos XIX – XX», in Maria da Graça Maia Marques (coord. de), O Algarve da Antiguidade aos Nossos Dias, Lisboa, Edições Colibri, 1999, p. 467.
[6] Cf. João Madeira, «Silves e o movimento operário», ibidem, p. 469.
[7] V. Fátima Patriarca, Sindicatos contra Salazar..., cit., pp. 425-426.
Como se verifica, os dados apresentados por esta investigadora, diferem daqueles que nos são fornecidos por João Madeira. Caso se considere o número de «1189 empregados» como trabalhadores corticeiros, assim os dados já são mais aproximados.
[8] Cf. Arquivo Municipal de Silves, Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Silves, in Cx. de Minutas de Actas de 1932-34, Minuta de Acta n.º 4, sessão ordinária de 21 de Fevereiro de 1934. O ofício à Divisão Hidráulica do Guadiana conclui da seguinte forma: «Solicitar ao Exmo. Governador Civil do distrito o seu valioso patrocínio para a execução destas obras que muito atenuarão a crise de trabalho que apoquenta este Concelho».
[9] José dos Reis Sequeira, Relembrando e Comentando (Memórias de um Operário Corticeiro) 1914/1938, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978, pp. 29 e 35. A data da fundação da Associação dos Corticeiros varia segundo algumas fontes. Se José dos Reis Sequeira aponta o ano de 1886, já o artigo «Pão, Luz e Liberdade. O 38º aniversário dos corticeiros de Silves», in O Proletário, n.º 5, de 30 de Junho de 1929, indica 1891. Por sua vez, em «40º aniversário da Associação de Classe Corticeira», in Voz do Sul, Silves, n.º 772, de 26 de Agosto de 1933, menciona o ano de 1893.
[10] Cf. João Madeira, «Silves, os Corticeiros e a sua Associação de Classe – “Pão, Luz e Liberdade», in IV Jornadas de Silves, Actas, Silves, AEDPHCS, 1997, p. 188.
[11] Sobre a greve, a onda de solidariedade operária e os acontecimentos sangrentos de Junho de 1924 em Silves, veja-se José dos Reis Sequeira, op. cit., pp. 59-66.
[12] João Madeira, «Silves, os Corticeiros e a sua Associação de Classe...», op. cit., p. 188.
[13] Ibidem, p. 189. Idem, «O Partido Comunista no Algarve (dos anos vinte ao final da II Guerra Mundial), in Maria da Graça Maia Marques (coord. de), op. cit., pp. 497-499.
As próprias autoridades nesta época, aludem frequentemente à influência das ideias comunistas nas localidades operárias, como Silves, antes e por altura dos acontecimentos do “18 de Janeiro de 1934”. O Governador Civil de Faro, em ofício ao Ministro do Interior, em 1931, indica que, «(...) só a propaganda comunista se tem intensificado, nos meios operários (...)» (cf. ADF/Governo Civil de Faro, Correspondência Confidencial..., cit., Livro 255 A, Ofício ao Ministro do Interior, n.º 78, de 11 de Maio de 1931).
[14] A Comissão Liquidatária foi constituída por Domingos Passarinho, Joaquim Rodrigues, Daniel Pincho e Francisco Álvares Marques, estes dois últimos secretário e tesoureiro da Direcção (João José Ferreira, op. cit., p. 130).
[15] Cf. Fernando Fitas, «Em Silves também houve 18 de Janeiro», depoimento de Francisco Nicolau, in Notícias do Sul, Évora, ano I, n.º 18, de 3 de Fevereiro de 1977, p. 8.
[16] Ibidem. Veja-se também Alfredo Canana, «O 18 de Janeiro de Silves», in Diário de Lisboa, de 5 de Janeiro de 1980, p. 9. Caso o comboio chegasse com mais alguns minutos de atraso e os revoltosos teriam empreendido o assalto ao quartel da GNR, podendo vir a constituir Silves uma 2.ª Marinha Grande.
[17] Cf. ANTT/PIDE-DGS, «Biografia Prisional de Manuel Pessanha», Proc. R. G. P. – 160, fl. 1.
[18] Tendo em conta as investigações de Fátima Patriarca, os operários corticeiros de Silves paralisaram totalmente a 18 de Janeiro, de forma parcial a 19, voltando a fazê-lo massivamente nos dias 20 e 21. No dia 22, são os patrões que, por ordens do governo encerram todas as fábricas durante 21 dias, impedindo os operários de comparecerem ao trabalho. A reabertura das fábricas com a consequente readmissão dos corticeiros, só foi conseguida depois de diversas solicitações do patronato junto das autoridades e após a prisão dos principais cabecilhas da greve, como o anarquista Virgílio Pires Barroso (cf. Fátima Patriarca, Sindicatos contra Salazar..., cit., pp. 438-455).
[19] Veja-se por exemplo o artigo «Inimigos da Pátria. Os manejos extremistas no Algarve», in Correio do Sul, Faro, ano XV, n.º 881, de 4 de Fevereiro de 1934, p. 2, em que noticia a prisão de vários elementos pertencentes aos comités revolucionários de Tavira, Vila Real de Santo António e Castro Marim, e a apreensão de diverso material, «que constava de 34 bombas de choque, vindas de Lisboa, em 2 malas, e encontradas em Castro Marim e Vila Real».
[20] Maria João Raminhos Duarte, Portimão Industriais Conserveiros na 1ª Metade do Século XX, Lisboa, Edições Colibri, 2003, p. 107.
[21] João Madeira, «A greve geral de 1934 no Algarve», cit., p. 528.
[22] Margarida Tengarrinha, «Entrevistas conduzidas por Miguel Medina», in Esboços. Antifascistas Relatam as suas Experiências nas Prisões do Fascismo, Lisboa, Edição da Câmara Municipal de Lisboa, 1999, p. 141.
[23] No Processo n.º 27/A-34, Arquivo PIDE/DGS, ANTT, fls. 2-11, encontramos uma «Relação dos Presos Enviados ao Tribunal Militar Especial em 1934», por terem participado no movimento de 18 de Janeiro. Enviados pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), de vários pontos do país: Faro, Portimão, Silves, Coimbra, Setúbal, Porto, Lisboa e outros locais, em que muitos deles vão parar ao Tarrafal. Ao todo são 435 presos, onde se incluem 36 militares (cujo processo foi enviado ao Ministério da Guerra) assim distribuídos: 3 capitães, 1 tenente, 1 furriel, 14 primeiros sargentos, 12 segundos sargentos, 3 sargentos ajudantes, 1 primeiro cabo e 1 soldado.
[24] Os primeiros ocupantes do Campo do Tarrafal eram os seguintes: cerca de 35 marinheiros da revolta de 8 de Setembro de 1936, cerca de 60 presos que se encontravam nas prisões de Lisboa, Porto, Coimbra, etc, cerca de outros 40 presos do presídio de Angra do Heroísmo, e à volta de uns 20 outros elementos heterogéneos, entre os quais se encontravam alguns portugueses radicados na Galiza e repatriados pelos nacionalistas espanhóis (cf. Gilberto de Oliveira, Memória Viva do Tarrafal, Lisboa, Edições Avante!, 1987, p. 70).
[25] Curiosamente, Fátima Patriarca não menciona os detidos de Portimão, o que de acordo com o Processo n.º 27/A – 934, cit., Arquivo PIDE/DGS, fls. 63 e 64, são em número de 19. No fl. 63, em ofício datado de 14 de Março de 1934 e enviado ao Presidente do Tribunal Militar Especial de Lisboa, da parte da Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado, desta cidade, é remetido o processo organizado pela Polícia de Faro em que constam os nomes de diversos elementos detidos na prisão do Governo Civil e à disposição do referido Tribunal. Esses elementos são os seguintes: José Negrão Buísel, José Mateus da Graça, Joaquim Pedro, Abundancio José, Manuel d’Arez, Artur da Silva, o “Nicho”, Gregório da Purificação ou Gregório Rita, António Rodrigues, Manuel Dias Pereira, José Mendes do Carmo e Manuel Marques.
No fl. 64, um outro ofício, datado de 17 de Março e também da PVDE de Lisboa, enviado ao T. M. E., remete o processo de mais alguns presos, organizado igualmente pela Polícia de Faro, detidos na 1.ª Esquadra da P. S. P. de Lisboa e que são: José d’Oliveira Calvário Júnior, António do Carmo Carrasco ou António Catarino, António José dos Santos, o “Galaraz”, Francisco António da Luz, Abílio da Silva, Francisco Diogo, o “Chico Miúdo”, Francisco da Glória Perrólas e José Dantas.
Todos estes presos fazem parte do Processo n.º 27/A – 934, cit., fl. 7, organizado pela PVDE – relação dos presos enviados ao T. M. E. em 1934 – num total de 435 elementos, «incriminados por terem tomado parte activa no último movimento revolucionário de 18/1/34».
Segundo entrevista realizada em Portimão, no dia 14 de Maio de 2002, a José Marques (nascido em 16/06/15 e residindo nesta cidade na altura do 18 de Janeiro), filho do detido Manuel Marques, confirma-nos o mesmo que todos os elementos acima mencionados eram efectivamente de Portimão. José Marques recordou-nos ainda algumas das suas profissões: José Mateus da Graça, trabalhador da fábrica de gasosas, Abundancio José, carpinteiro (criador de uma biblioteca popular), Artur da Silva, conhecido pelo “Nicho” e Gregório da Purificação, trabalhadores na Litografia da Fábrica Fialho, José Mendes do Carmo, sapateiro, Manuel Marques, António Rodrigues e Manuel d’Arez, operários conserveiros, António Catarino, estivador e António José dos Santos, conhecido por “Galaraz”, tipógrafo.
O entrevistado José Marques confirmou-nos ainda que seu pai, Manuel Marques, era na altura do 18 de Janeiro já adepto das ideias comunistas e não ligado à C. G. T., conforme afirma Fátima Patriarca em Sindicatos contra Salazar..., cit., p. 518. Condenado, acabou por ir parar à Fortaleza de Peniche, de onde saiu em Outubro de 1935.
[26] Enquanto Fátima Patriarca menciona o número de 417 elementos enviados ao Tribunal Militar Especial, no Processo n.º 27/A – 934, cit., fls. 2-11, encontram-se, conforme já referimos, os nomes de 435 indivíduos, 36 dos quais enviados ao Ministério da Guerra por serem militares.
[27] Cf. Fátima Patriarca, Sindicatos contra Salazar..., cit., pp. 458-459.
[28] O último preso político português a sair do Tarrafal foi o dirigente comunista Francisco Miguel, precisamente no dia 26 de Janeiro de 1954, depois de ali ter permanecido pela segunda vez durante 3 anos, sozinho nos últimos seis meses (v. Francisco Miguel, Uma Vida na Revolução. Os Comunistas, Porto, A Opinião, 1977, p. 125).
[29] A «Frigideira» consistia num cubo de cimento, dividido em dois compartimentos, cada um com três passos de comprimento por dois de largura. Cada cela tinha uma porta de chapa de ferro com alguns pequenos orifícios em cima. Durante o dia, o ambiente no interior era abrasador e asfixiante, à noite gelava-se. O preso era ali encerrado descalço e num espaço exíguo que, mal dando para uma ou duas pessoas, por vezes eram mais de 10 presos. O único mobiliário era um caldeirão para as fezes e nem enxerga havia. Quando os presos pediam água, a mesma era fornecida a ferver. O alimento consistia em pão e água, por vezes durante mais de vinte dias e era nestas condições, de fraqueza extrema, que os presos ingressavam na «Brigada Brava» para trabalhos forçados (cf. Manuel Alpedrinha, «Sobreviventes do Tarrafal continuam a luta», in Alavanca, ano I, n.º 4, Julho de 1977, pp. 26-27 e Francisco Miguel, Das Prisões à Liberdade, cit., pp. 77-79).
[30] Os prisioneiros do Tarrafal encontravam-se sujeitos a todo o tipo de provocações, insultos, vexames, espancamentos e castigos, e eram obrigados a suportar verdadeiros trabalhos forçados, agrupados em brigadas de trabalho nas pedreiras, a transportar água para o campo e a abrir caminhos. A brigada mais célebre, foi a terrível «Brigada Brava», «uma diabólica criação do terceiro director do campo, o capitão João da Silva, ex-tirocinante nos campos de concentração nazis e futuro responsável pelo presídio de Caxias (...)». Os presos eram obrigados a cavar o dia todo em solos rochosos e cheios de pedras, debaixo de uma temperatura de 40 graus, sem poder levantar a cabeça por um instante, em dois turnos de quatro horas cada. Encontravam-se impedidos de beber água ou de urinar mais que uma vez em cada turno e até não podiam enxugar o suor. A pouco e pouco os elementos desta brigada regressavam ao campo em padiola ou nos braços dos companheiros e de manhã nem se podiam levantar, tão extenuados e doentes se encontravam (cf. Alberto Pedroso, «Os presídios do regime salazarista», in João Medina (dir. de), História de Portugal dos Tempos Pré-Históricos aos Nossos Dias, Vol. XIII – O «Estado Novo», Alfragide, Clube Internacional do Livro, 1998, pp. 54-56).
[31] Cf. Gilberto de Oliveira, Memória Viva do Tarrafal, Lisboa, Edições Avante!, 1987, pp. 95 e ss.