segunda-feira, junho 28, 2010

ÁFRICA

Copa do mundo: corrupção, miséria e repressão

Conselho Editorial

Copa do mundo: corrupção, miséria e repressão Danny Jordan, presidente do comitê organizador da Copa do Mundo na África do Sul, em suas declarações, costuma dizer que esta Copa vai “unir as raças”, e que o evento significará um “grande passo à frente para criar um país sem preconceitos”, um país onde “brancos e negros celebram o futebol”.
Os filmes oficiais, transmitidos antes de cada partida da copa, reforçam essa mesma idéia de que o apartheid (segregação racial) que o país viveu até 1990 foi superado e que agora surge uma grande nação. Em um dos filmes, um sol nascendo ilumina crianças, enquanto grupos de homens e mulheres dançam em ritmos tribais, envoltos em mantos coloridos. As cenas da “vibração” dos sul-africanos  são  intercaladas, ora por imagens dos grandes centros econômicos do país, mostrando edifícios espelhados, aeroportos e pontes ultra-modernas, ora, ao lado disso, por imagens das savanas tomadas por zebras, girafas e elefantes selvagens.
Para além das imagens publicitárias e das declarações entusiasmadas do comitê organizador, para além da suposta união racial, a Copa do Mundo na África é um cenário de shoppings e ruínas envoltos em escândalos de corrupção, muitos protestos e manifestações da classe trabalhadora sul-africana, que assiste bem longe esse grande espetáculo global.

Shopping e Ruínas

A Copa deve movimentar cerca de 10 bilhões de dólares, num país onde um quarto da população é desempregada e vive com menos de US$ 1,25 por dia, o que torna quase impossível seu acesso aos caríssimos ingressos dos jogos.
Segundo relatório da ONU divulgado neste ano, as cidades sul-africanas Buffalo City, Johannesburgo e Ekurhuleni são apontadas como as mais desiguais do mundo. Ainda segundo esse relatório, as metrópoles do país também registram graves problemas sociais como a falta de acesso a esgoto e água encanada para boa parte de seus moradores, além de apresentar altíssimos  índices de estupros e contaminação pelo vírus da AIDS.
O investimento trazido pela Copa dificilmente chegará à grande massa de sul-africanos. Voltado para as regiões ricas das cidades sul-africanas, o investimento permitiu a construção de grandes obras como aeroportos, pontes, estradas e grandes estádios de futebol.
Enquanto os bairros ricos se valorizavam, políticos e empresários lucravam, a classe trabalhadora sul-africana, antes da copa, foi submetida a todo tipo de privações e humilhações. Desde a expulsão de bairros populares inteiros para dar lugar a novas construções e abertura de avenidas, até extensas jornadas de trabalho para entregar nos prazos as faraônicas construções. O resultado foi uma grande onda de greves que envolveu trabalhadores da construção civil, dos transportes, energia elétrica e setores públicos.
Agora, durante a Copa, novos protestos e greves acontecem quase diariamente. O governo sul-africano e o comitê organizador da Copa, longe de promoverem qualquer “união das raças”, adotam medidas fascistas, reprimindo violentamente os manifestantes, usando balas de borracha e bombas de gás. Preocupados com a repercussão, também avançam sobre a imprensa internacional, não permitindo filmagens ou entrevistas com os manifestantes.

“Pague-nos bem que trabalharemos bem”

Um dos últimos protestos registrados, aquele dos seguranças dos estádios, reivindicava o pagamento do valor combinado pelo trabalho prestado. Um dos manifestantes segurava um cartaz que dizia: “Pague-nos bem que trabalharemos bem”. Enquanto a Fifa, responsável pela contratação dos serviços de segurança, pagava US$ 50 por jogo, os trabalhadores sul-africanos reivindicavam o valor combinado de pouco mais de US$150, ou seja, a Fifa roubava, de cada trabalhador, cerca de US$ 100 por jogo. Justo a Fifa, que anunciava o êxito comercial desta Copa, com um lucro de cerca  de US$ 3,2 bi, 50% a mais do que o faturamento da Copa da Alemanha, 4 anos atrás. Assim se vê às custas de quem a Federação Internacional de Futebol (FIFA) conseguiu aumentar seu faturamento: às custas dos trabalhadores sul-africanos!

O estádio de mil banheiros

Construído para abrigar somente quatro jogos da primeira fase, ao valor de R$ 270 milhões, o  Mbombela, na cidade de Nelspruit, é fiel retrato desta Copa.
Ostenta uma grotesca arquitetura de motivos africanos: os pórticos que sustentam a cobertura do estádio são enormes girafas metálicas pintadas de laranja, enquanto as arquibancadas formam um listrado branco e preto aludindo a pele de uma zebra.
A construção do estádio foi marcada por escândalos de corrupção e por protestos da população local. Comportando 40 mil lugares, ¼  da população da cidade, o estádio foi construído onde antes existiam duas escolas públicas. A população de  Nelspruit chegou a protestar contra a obra, fez atos de rua, queimou pneus e foi reprimida pela polícia. Mesmo assim, as escolas foram demolidas e as crianças transferidas para escolas de lata na periferia da cidade.
Ironicamente, o estádio que, após os quatro jogos da Copa, certamente será um elefante branco, um gigante sem sentido, cujo único uso será palanque para discursos dos demagógicos políticos locais, foi construído com o incrível número de 1000 banheiros, num país onde a maior parte da população não tem acesso à água encanada.
In Movimento Negação da Negação

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